'Empresas deverão cada vez mais priorizar avaliação e mitigação de riscos', diz diretora do IBGC
Para Valéria Café, governança corporativa não avançou muito no Brasil e no mundo em 2025 devido à instabilidade nos mercados e ao 'foco excessivo' em aspectos financeiros de curto prazo
A percepção de instabilidade nos mercados ao longo de 2025 trouxe prejuízos para a evolução da governança corporativa no Brasil e no mundo, por fazer as empresas colocarem um "foco excessivo" em aspectos financeiros de curto prazo. A avaliação é da diretora-geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Valéria Café, em entrevista ao Estadão.
Segundo a gestora, o País contou com episódios positivos, como uma integração mais concreta entre os conselhos e os temas climáticos, mas houve também pontos de retrocesso, como a rejeição das propostas de aprimoramento da governança pelas empresas do Novo Mercado — segmento que reúne na B3 as companhias com mais elevado nível de governança corporativa.
Para 2026, a perspectiva é a de que as empresas lidem com temas antes ventilados de forma menos profunda, mas que agora ganham contornos mais concretos. Entre eles estão a pressão para aumento da diversidade nos conselhos vinda das estatais e a obrigatoriedade das companhias abertas em divulgar relatórios de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, os CBPS 01 e 02, seguindo padrões internacionais (IFRS S1 e S2).
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Quais foram os principais avanços da governança corporativa no Brasil em 2025, ano bastante pressionado pela COP-30?
Não podemos ignorar o fato de que a governança corporativa não avançou muito no Brasil. Mas isso não é uma exclusividade nossa. Praticamente, o mundo todo enfrenta desafios de crescimento econômico em função de uma percepção de instabilidade nos mercados, o que prejudica a evolução da governança por colocar um foco excessivo em aspectos financeiros de curto prazo. (Porém) é claro que tivemos iniciativas positivas. A visão de que integridade e sustentabilidade devem caminhar juntas, sob estruturas sólidas de governança, ganhou força. Vimos as primeiras companhias abertas sendo exemplos ao adotarem voluntariamente as normas de transparência financeira de sustentabilidade CBPS 01 e 02 (IFRS S1 e S2). A Taxonomia Sustentável Brasileira, do Ministério da Fazenda, foi finalmente definida, incorporando o conceito de integridade do Código do IBGC. A agenda de diversidade e inclusão, apesar dos movimentos contrários, deu mais um passo com a aprovação da lei de cotas de gênero em conselhos de estatais. Outro dado diz respeito à taxa média de aderência das companhias abertas ao informe de governança da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em 2025, ela alcançou 68,2%, um aumento de 13,9 pontos porcentuais em relação a 2020.
Qual foi o balanço?
De forma geral, o ano de 2025 foi um período em que temas como clima e natureza, inteligência artificial e geopolítica passaram a ser mais bem compreendidos pelos conselhos, não só como riscos, mas como oportunidades. A COP-30 mostrou que o setor privado já está atuando em planos de adaptação, principalmente por conta da regulação. Já em relação à transição das empresas para uma economia limpa, ainda há um longo espaço a ser percorrido.
Houve fragilidades que ficaram mais evidentes no ano passado, com retrocesso ou estagnação em algum ponto?
Sim. Acredito que, no contexto brasileiro, tivemos alguns momentos de retrocesso. O primeiro se refere à rejeição das propostas de revisão do Novo Mercado. Para quem trabalha em prol das melhores práticas de governança corporativa, como o IBGC, foi difícil ver a decisão de boa parte das companhias abertas de reprovar a proposta de revisão do regulamento, considerando que a maioria das empresas já pratica o que foi proposto. O segundo, na minha avaliação, foram os escândalos envolvendo o crime organizado nos mercados financeiro e de capitais. O monitoramento dos conselhos de administração com relação às demonstrações financeiras e contábeis e a identificação da origem desses recursos se tornou fundamental para o desenvolvimento de uma cultura ética e de mecanismos robustos de integridade e compliance. O terceiro está na fragilidade em que a CVM tem operado, com um colegiado incompleto, sem presidência titular por meses (o presidente Lula realizou a indicação de um nome para a presidência da CVM na quarta-feira, 7). É fundamental contar com um órgão regulador bem estruturado e com recursos adequados para cumprir suas atribuições, sobretudo de supervisão, fundamental para a governança corporativa.
O IBGC pretende intensificar o diálogo com as empresas do Novo Mercado após a rejeição à reforma?
Estamos fazendo uma sondagem junto aos conselheiros das empresas do Novo Mercado para entendermos os motivos que levaram a essa rejeição. Com essa sondagem, acreditamos que será possível buscarmos, juntos, soluções para a continuidade da evolução da governança real e efetiva nessas empresas. O Novo Mercado sempre foi um instrumento vivo, moldado pelo diálogo entre empresas, investidores e sociedade. Este momento, embora marcado por uma inflexão, pode servir como uma oportunidade de reflexão e reorganização para que o debate seja retomado futuramente de forma técnica, objetiva e conectada aos desafios contemporâneos das empresas e da governança corporativa.
O que os conselhos de administração precisam colocar no topo da agenda em 2026, sem exceção?
A partir de qualquer exercício social iniciado em 1º de janeiro de 2026, com publicação em 2027, as companhias abertas deverão, obrigatoriamente, divulgar o relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e clima, seguindo os padrões CBPS 01 e 02. As empresas terão que divulgar informações sobre processos de governança, órgãos responsáveis e procedimentos usados para gerenciar riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade. Os conselhos terão que supervisionar a consistência entre o discurso de sustentabilidade e os dados divulgados nos relatórios. As empresas de capital fechado, enquanto parte da cadeia de valor das companhias abertas, também deverão estar mais atentas à divulgação dessas informações. Outra regulação que entrará em vigor em 2026 e envolve a governança corporativa é o Regime Fácil da CVM, que traz diferenciação regulatória para fomentar o acesso de companhias com receita bruta até 500 milhões ao mercado de capitais. Nessa diferenciação, há algumas dispensas de divulgação de informações para essas companhias.
E quais tendências de governança podem se tornar mandatórias neste ano?
A observação aos riscos deverá ser cada vez mais priorizada pela gestão das empresas e seus conselhos, principalmente a avaliação e mitigação de riscos que somente eram mapeados, mas pouco acompanhados. Novos riscos surgiram nos últimos anos e devem ser observados, como clima, geopolítica, fonte de recursos, estrutura de capital e financiamento e reputacional. Também iremos observar, gradualmente, um aumento na diversidade de gênero nos conselhos das estatais. Espera-se que isso seja um exemplo para as demais companhias, ainda que sua adesão a esse requerimento mínimo seja facultativa. Em relação à sustentabilidade, além dos padrões CBPS 01 e 02, as empresas podem se preparar para ampliar o escopo de divulgação. A IFRS Foundation (responsável pelos padrões) está desenvolvendo um novo padrão para divulgação de riscos e oportunidades relacionados à natureza. Caso a adoção desse novo padrão também se torne obrigatória pela CVM, as empresas deverão se atentar de forma mais criteriosa.
Como o IBGC pretende atuar nisso?
O instituto continuará atuando para promover um ambiente de negócios saudável, inclusivo, inovador, íntegro, sustentável, lucrativo para todas as partes, de forma a fortalecer empresas abertas, fechadas, públicas, de todos os portes e setores, reafirmando seu compromisso com os princípios da governança corporativa, que são: integridade, transparência, responsabilização, equidade e sustentabilidade.
O fato de 2026 ser um ano eleitoral influenciará na adoção de posturas diferenciadas por parte de conselheiros e da governança das empresas em geral?
Sabemos que anos eleitorais podem trazer à tona debates sobre políticas públicas que tocam a atuação de diferentes agentes de governança. Mas, geralmente, os debates em conselhos e lideranças empresariais estão concentrados nos aspectos econômicos que eventuais mudanças de governo podem trazer. Independentemente de eleições e preferências político-partidárias, os conselheiros devem manter seu compromisso permanente com as boas práticas de governança corporativa, pautadas por fundamentos como ética e propósito.