Ela começou a empreender aos 16 anos por necessidade e agora movimenta R$ 3,7 bilhões ao ano com ‘ecossistema’ de negócios
Em entrevista ao Terra, Camila Farani, nome de influência no mundo dos negócios, fala sobre começo da carreira, motivações e maternidade
Ela perdeu o pai cedo e viu sua mãe tendo que sustentar a casa sozinha. Juntas, então, foram levadas a empreender por necessidade. Criaram uma cafeteria e Camila Farani, aos 16 anos, começou a trabalhar sem receber salário para ajudar a tocar o negócio da família. Não foi um começo fácil, mas foi o que a fez ter contato com a sua vocação. Agora, aos 42 anos, Camila é sócia-fundadora da G2 Capital, boutique de investimento em startups, e tem cerca de 45 empresas em seu ‘ecossistema’.
Camila, nome de influência no mundo dos negócios, já aportou mais de R$ 45 milhões com co-investidores, pools de investimentos, além da sua própria holding, em cerca de 45 empresas. Tudo isso, como pontua, gera um ecossistema que movimenta mais de R$ 3,7 bilhões por ano e emprega mais de 15 mil pessoas.
Em sua carreira, também tem se dedicado a auxiliar a carreira de outras - reconhecendo que, a partir do recorte de gênero, há mais dificuldades ao empreender quando se é mulher. Ela criou, por exemplo, o ‘Ela Vence’, uma comunidade exclusiva de mulheres, feito por mulheres, que auxilia tanto em questões de estratégias de negócios como no gerenciamento de tempo, inteligência emocional e autoconhecimento.
O que é novo em sua carreira é o cargo de ‘mãe’, que recebeu neste ano com a chegada de Lucca, filho de Camila com sua esposa Tula Tavares, que nasceu neste mês. Lidar com algo tão novo e tão intenso, que foge dos scripts do mundo dos negócios, gerou bastante ansiedade. Mas, apesar do medo e da insegurança, ela segue movida pelo amor à família e vivenciando as novas descobertas diárias.
Em entrevista ao Terra, ela conta sobre o início de sua trajetória, sobre ser uma mulher - agora mãe - que empreende e motivações pessoais. Confira:
Como tudo começou
Eu comecei a trabalhar cedo na empresa da minha mãe. Tinha 16 anos, uma adolescente ainda, e ia trabalhar no comércio dela, a Tabaco Café. Ela precisava dessa ajuda, pois não tinha ainda como contratar funcionários. Começamos sem conhecimento de gestão, sem saber precificar ou como lidar com os colaboradores, mas, de um jeito ou de outro, o negócio precisava dar certo.
Aos 21 anos, propus à minha mãe que se eu conseguisse aumentar em 30% as vendas em um mês na cafeteria de nossa família, receberia uma pequena participação na empresa. Alcancei 28%, com a introdução do Iced Coffee, então, eu não atingi a meta, mas essa atitude mudou a minha vida. Acabei conquistando a sociedade no negócio por minha mãe ter percebido meu esforço e iniciativa.
Minha mãe é meu maior exemplo de pessoa batalhadora. Ela fez com que eu me tornasse o que sou, uma inquieta resiliente. Na prática, construímos juntas algo significativo e aprendemos na prática sobre resiliência e gestão, além de enfrentar desafios que nos fortaleceriam tanto profissional quanto pessoalmente.
E a partir disso eu fui construindo minha história.
No meu primeiro negócio, tive os três primeiros meses sem faturamento. Perdi todo o dinheiro que tinha. Era um restaurante de comida saudável e ele se chamava Farani Delicafé, mas a fachada era toda branca e lilás. Era lindo, mas era um negócio feito para mim, não para o cliente. Eu gosto de contar essa história porque de fato o que havia planejado pra mim no início acabou não dando certo e essa é a história de muitos outros empreendedores. Então, ao longo da minha jornada eu aprendi e tenho aprendido muitas coisas diferentes.
Criei o Grupo Boxx, que reúne as marcas de coffee shops e fast-foods saudáveis, e a Innovaty, focada em educação empreendedora e Business Intelligence. Depois disso entrei no mundo de investimento. Sou sócia-fundadora da G2 Capital, uma boutique de investimento em startups. Hoje, são mais de 40 empresas como parte do ecossistema Farani. Nos últimos 20 anos, tenho procurado usar esse aprendizado para impulsionar outros empreendedores.
Virada de chave
De lá pra cá eu fiz muitas coisas! Conheci muita gente. Cresci como ser humano. Apostei em coisas que deram certo e outras que deram errado.
Um ‘bastidor’ que eu gosto de comentar foi no Mundo Verde, quando fiquei por 2 anos e me demiti do cargo de diretora executiva, por volta de seus 30 anos. A decisão não foi fácil. Recebi diversas reações surpresas, como: "Você está louca!", "Por que deixar o cargo? Você é diretora executiva e sócia!", entre outras objeções.
Mas, eu não me sentia completa. Sou uma mulher inquieta que busca constantemente novos desafios e me sentia limitada passando meus dias focada exclusivamente em números e métricas. Ansiava por explorar novos horizontes e mercados. Por isso, entreguei minha carta de demissão e, um mês depois, um amigo me procurou.
Após minha saída, eu me reestruturei financeiramente e mudei de endereço, trocando a Zona Norte pela Zona Sul do Rio de Janeiro.
Com essa virada na minha vida, adquiri não só um status de executiva, mas também uma valiosa experiência profissional.
Passar conhecimento
Foi então que me associei ao Gávea Angels, um dos primeiros grupos de investimento anjo do País. A proposta do Geraldo Neto, líder do grupo, era intrigante: investir em startups com potencial de multiplicar o investimento inicial de 10 a 15 vezes em seis anos.
Minha reação inicial foi de ceticismo. Acostumada com uma renda regular, a ideia parecia arriscada. Mas Geraldo me convenceu a participar de uma reunião onde uma empreendedora apresentaria seu e-commerce de cosméticos.
O grupo era majoritariamente masculino e precisava de uma perspectiva feminina para avaliar o produto. Naquela reunião, entre 18 investidores, a apresentação da empreendedora me deixou encantada. Naquele momento, decidi que queria dedicar minha vida ao investimento em novos negócios, convencida de que existem oportunidades valiosas além do setor alimentício.
E também tem o momento do Shark Tank [reality de empreendedorismo] que foi fundamental para o meu crescimento pessoal. Quando eu entrei na primeira temporada do Shark Tank Brasil, eu não conseguia me enxergar boa o suficiente para estar ali, sentada naquela cadeira. Isso me assustou muito no início… veio essa síndrome de impostora, que todo mundo tem ou vai ter em algum momento da vida. Por isso é tão importante a gente acreditar na nossa capacidade, sempre!
Eu conheço inúmeras pessoas que tem uma boa ideia, tem vontade, mas não tem um norte para seguir. Não sabem trabalhar a técnica do negócio, identificar o público, traçar o plano estratégico, etc. Então, essas pessoas são meu foco. A educação empreendedora é algo que precisa ainda crescer muito no nosso País.
‘É mais difícil’
Sou uma mulher que acredita muito na educação. Especialmente neste ano, estou muito focada nisso, em fomentar a educação empreendedora no País.
Mas, quando focamos no recorte de gênero, vemos o quanto é mais difícil para a mulher empreendedora. Ela tem muito mais barreiras para passar do que os homens. Elas são as que mais se dedicam para as famílias, o lar e, com isso, muitas vezes, acabam desistindo de seus sonhos e conquistas pessoais.
Então, esse é meu estímulo principal: para que elas não desistam! E, principalmente, mostrar que elas podem ter negócios de sucesso. Por isso, projetos como o Ela Vence são tão importantes. O Ela Vence é uma comunidade exclusiva de mulheres, feito por mulheres. Ele ensina o autoconhecimento, a refletir sobre as dores que só elas têm, aprender sobre gerenciamento do tempo e inteligência emocional, como também a parte mais técnica como, como fazer um plano de negócios, branding, estratégias de vendas e gestão financeira.
É um projeto que eu tenho um carinho muito especial, pois desde a sua existência, em 2019, e que já impactou a vida de mais de 650 mil talentos femininos.
Também estou lançando a FEN (Farani Escola de Negócios), que é um projeto muito importante pra mim, principalmente porque vejo nele a oportunidade de formar uma nova geração de líderes empreendedores. A FEN foi pensada para ser uma formação que equilibra a teoria e a prática e conta com aulas gravadas, mentorias ao vivo, materiais e eventos complementares, além disso, estimula muito o networking entre os alunos.
‘Mãe trabalhadora’
Sim, sempre foi um sonho meu e agora me sinto extremamente feliz e realizada. O Lucca chegou em um momento muito especial e ele realmente é o que faltava de sonhos para a minha vida.
Eu fiquei bastante ansiosa durante a gravidez, porque estou acostumada a resolver coisas, buscando praticidade, focada no trabalho e negócios, e agora estou lidando com algo que é completamente novo para mim. Então bate sim um medo, insegurança, os receios de lidar com situações que a gente ainda não viveu. Mas, nós temos também uma rede de apoio que tem nos ajudado muito, amigos e família.
Eu e Tula também estudamos bastante, lemos muitos livros. Mas a grande realidade é que tem sido um aprendizado a cada dia. É um mundo inteiro de novas descobertas que estamos vivenciando. Pensamos muito no futuro dele, a criação que queremos dar.. e para nós, o mais importante, é a gente passar os valores essenciais, da família, do ser humano, o amor, como tratar bem o próximo, como respeitar as pessoas, os mais velhos, independente as diferenças que existam.
Estou tirando um tempo para ficar mais dedicada ao Lucca, principalmente agora nesses primeiros meses de vida. Mas, aos poucos vou retomar a minha agenda de trabalho, por que, é isso, sou uma mãe trabalhadora, assim como tantas que existem.
Vou sempre procurar me adaptar e me dividir entre esses dois mundos para que tenha um equilíbrio e para que eu possa viver as minhas duas paixões, minha família e meu trabalho. São essas duas coisas que me movem.