Diante das mudanças climáticas, segurança alimentar no Brasil dependerá cada vez mais da inovação tecnológica
O futuro da produção de alimentos no Brasil não está na abertura de novas fronteiras agrícolas, mas na capacidade do país de transformar ciência em produtividade
O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Mas a estratégia que nos trouxe até aqui, expandindo a área cultivada, chegou ao limite. Com a população global crescendo e o clima se tornando cada vez mais hostil à agricultura, só há um caminho: aumentar a produtividade com base científica e tecnológica, sem abrir novas fronteiras agrícolas.
O planeta já ultrapassou 8 bilhões de pessoas e estima-se 10 bilhões de pessoas para 2050, com crescimento significativo em países em desenvolvimento. Isso significa maior demanda por alimentos em um contexto de desigualdade cultural, social, tecnológica, econômica e vulnerabilidade climática.
Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas estão alterando significativamente o regime de chuvas, intensificando ondas de calor e a frequência de eventos extremos. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta aquecimento contínuo ao longo do século, com impactos diretos na produtividade agrícola.
A combinação do aumento da demanda por alimentos com as mudanças climáticas pressiona os sistemas de produção agropecuária. E, em países tropicais como o Brasil, o desafio é ainda maior: temperaturas elevadas, veranicos, irregularidade das chuvas e ondas de calor em fases críticas das culturas comprometem a produtividade.
Produzir mais ocupando mais espaço
O Brasil se consolidou como potência agroalimentar, em especial na produção de grãos que sustentam a cadeia de proteína animal, como soja e milho. Nas últimas décadas, a produção cresceu expressivamente, mais em razão do aumento da área cultivada do que dos ganhos proporcionais na produtividade.
Séries históricas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que, enquanto a produção de soja e milho aumentou, a área plantada também cresceu de forma significativa. Em outras palavras, produzimos mais ocupando mais terra.
A expansão da área para a produção agropecuária pressiona os biomas, aumenta conflitos de uso da terra, eleva os custos ambientais e ainda não cumpre as exigências de alguns mercados internacionais. Não é sustentável apostar em novas fronteiras agrícolas.
Ampliar área agricultável hoje, no Brasil, compromete o ambiente, exige infraestrutura, logística e capital, e ainda expõe o produtor a riscos climáticos maiores. Além disso, culturas essenciais à dieta brasileira, como arroz e feijão, não acompanharam o mesmo ritmo de crescimento de área e produção, o que acende um alerta para a segurança alimentar brasileira.
Produzir mais usando a ciência
A tecnologia existe. Mas, muitas vezes, ainda não foi validada e não está incorporada nos sistemas de produção dos diversos produtores com diferentes níveis tecnológicos, culturais e em distintas condições edafoclimáticas (que são o conjunto das características do solo e do clima de uma região).
É comum ouvir que a agricultura brasileira é altamente tecnificada. E é verdade. Tivemos avanços importantes em sementes, mudas melhoradas, biotecnologia, manejo do solo e das culturas, plantio direto, insumos (químicos e biológicos), irrigação, mecanização, automação, monitoramento climático e, mais recentemente, a aplicação da Inteligência Artificial na agropecuária.
No entanto, esses avanços não proporcionaram ganhos contínuos e significativos na produtividade para várias culturas. Por que? Porque a produtividade agrícola é resultado da interação entre genética, solo, manejo e ambiente. A genética mudou e aprendemos a manejar o solo e as culturas. Mas o ambiente tem se tornado cada vez mais hostil à produção agropecuária. Em condições de estresse, as plantas não expressam plenamente o potencial produtivo, por melhor que seja o pacote tecnológico adotado.
Aqui entra um ponto que costuma ser ignorado: não existe pacote tecnológico universal. O uso de bioinsumos, reguladores / promotores de crescimento, novas ferramentas digitais e outras tantas alternativas comerciais são promissoras, mas seus efeitos dependem fortemente das condições edafoclimáticas. Sem validação científica para contextos específicos, a expectativa de "soluções rápidas" tende a se frustrar.
Não devemos expandir a área agrícola. O aumento da produção agropecuária para atender a demanda de alimentos deverá ocorrer com ganhos reais na produtividade. O caminho sustentável é aumentar a produtividade com base científica e tecnológica, considerando as especificidades de cada região produtora.
Para isso, será necessário desenvolver novas estratégicas para a produção, incluindo materiais genéticos mais rústicos, mais tolerantes / resilientes a estresses térmicos e hídricos; avançar em insumos mais eficientes e com menor custo e em sistemas de produção mais sustentáveis e seguros; integrar ferramentas digitais e dados climáticos na tomada de decisão no campo; e investir em manejo de solo e água que aumente a resiliência das lavouras.
Esses avanços não acontecem por improviso. Eles dependem de pesquisa contínua e aplicada, que é realizada majoritariamente em instituições públicas como universidades, Embrapa, Organizações Estaduais de Pesquisa Agropecuária - Oepas (link texte Institutos Federais, em parceria com o setor produtivo. Foi assim que o Brasil viabilizou a produção agrícola no Cerrado e conquistou ganhos históricos de produtividade no passado.
O problema é que a ciência e a tecnologia exigem previsibilidade de financiamento, formação de recursos humanos e políticas de Estado. Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, interromper ciclos de pesquisa ou não consolidá-los significa perder tempo e oportunidades, acumular frustrações e desestruturar grupos de pesquisas, comprometendo o avanço científico e tecnológico. O tempo é o recurso mais escasso quando o clima muda mais rápido do que a capacidade de adaptação dos sistemas produtivos.
O discurso de que o Brasil "alimentará o mundo" só se sustentará se houver uma virada estratégica da produção agropecuária, focada em aumentar a produtividade diante as nossas condições edafoclimáticas, sem depender da expansão de área para cultivo. Isso não é apenas uma pauta ambiental, é uma questão de soberania alimentar e competitividade econômica.
Se o país não liderar a próxima onda de inovação agrícola, corre o risco de comprometer a produtividade, enquanto a demanda global de alimentos cresce. O resultado pode ser paradoxal: um gigante agrícola cada vez mais pressionado por custos, riscos climáticos e conflitos de uso da terra.
Em síntese, o futuro da produção de alimentos no Brasil não será decidido pela próxima fronteira aberta, mas pela capacidade de transformar ciência em produtividade sem ampliar a área cultivada. O clima já mudou o jogo. Resta saber se nossas pesquisas, tecnologia e inovação vão mudar com ele.
Cleiton Mateus Sousa é afiliado ao IF Goiano - Campus Ceres e a Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária - EMATER.