Governo estuda linha de crédito para compra ou troca de carros por motorista de aplicativo
Dados apontam que nove em cada dez motoristas têm interesse em comprar ou trocar de carro; questões técnicas dificultam avanço de proposta
BRASÍLIA - Visando atender a uma demanda de motoristas de aplicativos, o governo federal estuda uma linha de crédito para auxiliar na aquisição de veículos por esse público. Dados do setor apontam que nove em cada dez motoristas têm interesse em comprar ou trocar de carro, além de um porcentual elevado de profissionais que alugam veículos para trabalhar.
A informação foi publicada primeiramente pelo jornal Valor Econômico. Integrantes do governo ouvidos pelo Estadão/Broadcast dizem que há questões técnicas que dificultam o avanço dessa proposta, que já vem sendo discutida internamente há alguns meses. Além disso, o momento atual é de incerteza, com ministros deixando seus cargos para disputar as eleições de outubro. Nesse cenário, definições ministeriais ainda estão sendo feitas — o prazo final para desincompatibilização é 4 de abril — e alguns sucessores ainda não foram anunciados.
Segundo estudo do Instituto Datafolha realizado em 2025 com motoristas ativos no aplicativo Uber, 87% dos condutores estão interessados em comprar ou trocar de carro nos próximos três anos, sendo que 88% pretendem financiar e apenas 12% deles possuem intenção de pagar à vista. Entre quem não pretende trocar, a principal razão apontada é que o carro atual ainda está novo.
Além disso, três em cada quatro motoristas (74%) são proprietários do veículo, sendo que pouco mais da metade deles (56%) ainda está pagando, com prazos geralmente acima de três anos. Entre aqueles que não são proprietários, mais da metade (57%) usa veículo de uma empresa e a maioria paga aluguel pelo uso (73%).
Pensando em um programa de crédito ou subsídio, foram indicados como mais úteis o financiamento com juros reduzidos e a isenção ou redução de impostos.
Caminhões
Paralelamente, o governo estuda uma nova edição da linha de renovação da frota de caminhões (Move Brasil), iniciativa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), que estava prevista para durar seis meses, mas que deve esgotar os recursos dentro de três meses — o programa começou a valer em 8 de janeiro de 2026. O governo avalia que, com a alta procura, a medida foi bem-sucedida, considerando também a manutenção do nível de empregos pelas montadoras de caminhões — que estavam com capacidade ociosa.
Foram disponibilizados R$ 10 bilhões em crédito (entre recursos do Tesouro Nacional e do BNDES) a juros abaixo do mercado, para compra de caminhões novos ou seminovos por profissionais autônomos, cooperados e empresas de transporte. O limite é de até R$ 50 milhões por usuário do programa. Os empréstimos têm prazo máximo de cinco anos e carência de até seis meses.
Em uma nova edição do programa, podem ser revistos alguns critérios de financiamento. Hoje, os juros anuais máximos, a depender da classificação de risco dos mutuários, variam de 13% a 14%, já incluídos custos financeiros e spread bancário. Todas as operações poderão ser cobertas pelo Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), com garantias de até 80% do valor financiado. A entrega do caminhão velho para reciclagem, com o procedimento devidamente comprovado, pode reduzir ainda mais os juros da operação.
O financiamento de caminhões novos é permitido apenas para veículos de fabricação nacional, assegurando que os recursos públicos estejam alinhados aos objetivos da Nova Indústria Brasil (NIB).
Motos e carros populares fora do radar
Enquanto isso, o governo não tem no radar medidas voltadas a motos e carros populares ou "de entrada". No caso das motos, o empecilho reside no fato de que a fabricação nacional está concentrada na Zona Franca de Manaus, que já tem benefícios fiscais. Foram aventadas contrapartidas pelas montadoras, mas o governo não conseguiu acertar com o setor. Além disso, a produção e a venda de motos estão batendo recordes no País. Outro fator considerado pelo governo é que o nível de inadimplência nesse segmento é muito alto e os riscos são maiores.
Já no caso dos carros, a avaliação é que as montadoras entenderam que os carros "de entrada" (aqueles que custam até R$ 70 mil, como Mobi, Kwid e C3) não dão lucro e só são fabricados no Brasil. Com o ganho de renda da população brasileira, a procura é maior por veículos que custam mais.
Em dezembro de 2025, em cerimônia de inauguração da linha de montagem do elétrico Chevrolet Spark no Ceará, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforçou a necessidade de melhorar a distribuição de renda no País e, ainda, de que as marcas ofereçam carros mais acessíveis. "A gente trabalha para ter acesso às coisas que a gente produz", declarou.
Pessoas do próprio governo sustentam que os brasileiros têm preterido os carros populares, tendo em vista o crédito mais barato e o ganho real de salário mínimo. De forma mais ampla, interlocutores sustentam que o setor automotivo, como todo bem de consumo durável, sofre muito com os juros altos, já que poucas pessoas compram veículos à vista. A percepção é de que os carros de entrada não voltarão ao patamar de R$ 50 mil e que a volta da atratividade para a compra de veículos depende da redução das taxas de juros.