Demanda por embalagem sustentável de alto desempenho faz do Brasil estratégico para Smurfit, diz CEO
Gigante de embalagens, comandada no Brasil por Manuel Alcalá, terá investimento de mais de R$ 800 milhões até este ano em unidades locais
Em 2025, a Smurfit Westrock, uma das maiores fabricantes globais de embalagens de papel, anunciou o investimento de mais de R$ 800 milhões nas suas fábricas brasileiras até este ano. A motivação está no fato de o Brasil ser estratégico para as ambições da companhia em escalar na produção de recicláveis.
"O Brasil é estratégico para a Smurfit Westrock por sua base produtiva, disponibilidade de recursos florestais renováveis e crescente demanda por embalagens sustentáveis de alto desempenho", diz o CEO da subsidiária brasileira, Manuel Alcalá, em entrevista ao Estadão. No País, a companhia detém cerca de 54 mil hectares de florestas próprias para esse fim.
De acordo com Alcalá, novos setores têm demandado embalagens de papel no País em substituição ao plástico e ao isopor, como, por exemplo, o comércio de bens duráveis. Isso tem exigido maior investimento em tecnologia, mas também tem dado impulso a essa fatia de mercado, que, segundo a plataforma Metatech Insights, deve alcançar globalmente US$ 460 bilhões em 10 anos.
"O setor de embalagens no Brasil deve consolidar, até 2050, uma transição acelerada para a economia circular, com foco em materiais renováveis, redução de insumos de origem fóssil e soluções alinhadas às metas de neutralidade de carbono", prevê. "(O País) reúne condições únicas para liderar essa transformação."
A Smurfit Westrock é resultado de uma fusão entre a empresa irlandesa Smurfit Kappa e a norte-americana Westrock, concluída em 5 de julho de 2024. No Brasil, a companhia está presente em seis Estados, com nove fábricas.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
O mercado global de embalagens recicláveis deve alcançar US$ 460 bi até 2035. A Smurfit Westrock no Brasil já tem se beneficiado desse crescimento?
Sim. O Brasil já se beneficia do crescimento global das embalagens recicláveis, e a Smurfit Westrock tem papel ativo nesse movimento ao ampliar sua capacidade e acelerar a oferta de soluções sustentáveis no País. Em 2025, anunciamos um investimento de US$ 150 milhões (quase R$ 810 milhões), a ser realizado até 2026 em várias unidades, direcionado principalmente à produção de papel e à expansão da capacidade de embalagens sustentáveis. Esse movimento fortalece nossa presença em segmentos estratégicos da economia e sustenta a expectativa de crescimento.
Quais segmentos do mercado têm tido maior apetite por essas embalagens hoje no Brasil?
Os principais segmentos são alimentos, bebidas, proteínas, saúde, beleza e bens de consumo, setores que estão na vanguarda da adoção de soluções sustentáveis, especialmente à medida que os consumidores se tornam mais conscientes do impacto ambiental dos produtos que consomem. A indústria alimentícia, por exemplo, tem buscado cada vez mais opções de embalagens que não apenas protejam os produtos de forma eficiente, mas que também possam ser recicladas após o uso. O sistema de governança da Smurfit Westrock assegura que todas as etapas da cadeia respeitem padrões internacionais de responsabilidade socioambiental, e a companhia tem desempenhado um papel crucial ao fornecer soluções de embalagem que são não só sustentáveis, mas também otimizadas para o transporte e a distribuição. Com isso, reduzimos a necessidade de materiais adicionais e melhoramos a eficiência logística.
Quais inovações esse mercado tem exigido em relação a essas embalagens?
O mercado tem exigido embalagens mais estratégicas, que unam eficiência logística, impacto de marca e sustentabilidade. Há maior demanda por formatos inteligentes, especialmente para e-commerce, com design estrutural sob medida, melhor proteção, redução de desperdícios e uma experiência de unboxing (abertura de embalagem) mais relevante. Também tem crescido a busca por impressão de alta qualidade e impressão digital, que permitem personalização e agilidade no lançamento de produtos. A sustentabilidade tem sido um eixo central, com exigência por embalagens mono-material, recicláveis e à base de papel, substituindo materiais não recicláveis, sem perda de desempenho. Além disso, o mercado vem exigindo soluções que facilitem a reposição no ponto de venda, permitindo que a embalagem vá diretamente do transporte para a prateleira, com abertura fácil e boa exposição do produto.
O sr. destaca que o Brasil tem papel estratégico na transição para embalagens sustentáveis, sendo 'o País das oportunidades'. Que investimentos ou parcerias estão sendo planejados para aproveitar de forma mais ampla esse potencial?
O Brasil é estratégico para a Smurfit Westrock por sua base produtiva, disponibilidade de recursos florestais renováveis e crescente demanda por embalagens sustentáveis de alto desempenho. No País, a companhia detém cerca de 54 mil hectares de florestas próprias, com certificação dupla FSC e PEFC, sendo 43% das áreas destinadas à preservação ambiental e habitat de mais de 600 espécies nativas, inclusive ameaçadas. Essa base florestal contribui para a remoção significativa de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e garante matéria-prima renovável, fortalecendo uma cadeia integrada de papel e papelão ondulado alinhada à economia circular. A empresa tem ampliado investimentos industriais e fortalecido parcerias de cocriação com clientes e varejistas brasileiros para capturar esse potencial. As equipes locais de design têm desenvolvido soluções customizadas que combinam sustentabilidade, eficiência logística e desempenho no ponto de venda, apoiadas por centros de experiência como o Experience Center, em São Paulo.
Há algum setor que será prioridade para investimento em 2026, quando já vão ficando mais distantes os custos da fusão com a Westrock?
A Smurfit Westrock no Brasil continuará com foco em expandir sua capacidade de produção de embalagens sustentáveis, com foco no aumento da capacidade de conversão e na modernização das plantas, priorizando a melhoria das operações para atender de forma mais ágil e sustentável os clientes. Além disso, investiremos em tecnologia de automação e digitalização industrial, com uso de inteligência artificial, para melhorar a eficiência e padronização dos processos e reduzir o impacto ambiental. Os investimentos futuros vão incluir, ainda, mais foco na capacitação de pessoas, fortalecendo o compromisso com o bem-estar e o desenvolvimento humano em todas as operações no Brasil. Todas essas decisões seguem um planejamento monitorado por comitês de ESG e conselhos executivos, com metas de impacto, critérios de retorno sustentável e mecanismos de prestação de contas internos e públicos.
O sr. declarou recentemente que 'a embalagem deixou de ser um invólucro funcional e passou a ser uma extensão da identidade ambiental das marcas'. De que forma?
A embalagem passou a ser uma extensão da identidade ambiental das marcas porque se tornou um dos elementos mais visíveis e mensuráveis de seus compromissos ESG. Os consumidores, investidores e reguladores avaliam a embalagem como uma evidência prática de responsabilidade ambiental, e não mais apenas como um componente funcional do produto. Na Smurfit Westrock, esse conceito se traduz em soluções baseadas em fibras renováveis, design circular e rastreabilidade de origem, que permitem às marcas comunicar propósito, coerência ambiental e inovação diretamente no ponto de venda. A embalagem passa a expressar valores, posicionamento e visão de longo prazo.
Qual o futuro das embalagens no Brasil, pensando em um horizonte de 2050, quando a maior parte das empresas se comprometeu a ser carbono neutro?
Até 2050, o setor de embalagens no Brasil deve consolidar uma transição acelerada para a economia circular, com foco em materiais renováveis, redução de insumos de origem fóssil e soluções alinhadas às metas de neutralidade de carbono. A combinação de exigências regulatórias, inovação tecnológica e compromissos corporativos deve impulsionar o uso de embalagens recicláveis, renováveis e de menor impacto ambiental. A inovação em materiais e fibras de origem natural será central nesse processo, por permitir embalagens mais eficientes, com melhor proteção e integração a sistemas mais avançados de logística reversa. O comportamento do consumidor seguirá como vetor de pressão, com maior valorização de reciclabilidade e transparência ambiental. O Brasil reúne condições únicas para liderar essa transformação, graças à sua base florestal, à expansão da infraestrutura de reciclagem e à competitividade em soluções à base de fibras.
E quais os planos da empresa para a entrada no mercado de carbono no Brasil, tal qual é feito na Colômbia?
A Smurfit Westrock acompanha de forma contínua a evolução dos mercados de carbono, regulados e voluntários, como parte de sua estratégia global de descarbonização e gestão responsável de ativos florestais. O Brasil é um mercado relevante nesse contexto, assim como outras geografias onde a companhia atua. Independentemente de qualquer iniciativa de monetização, as florestas e operações da Smurfit Westrock já exercem um papel relevante na mitigação das mudanças climáticas, por meio do manejo florestal sustentável, da eficiência energética e do avanço da economia circular. Qualquer eventual avanço nesse tema será conduzido com responsabilidade, governança e foco na geração de valor ambiental, social e econômico de longo prazo, sempre respeitando critérios rigorosos de transparência e integridade.