De garçom a agente autônomo de investimentos
Mercado financeiro vem abrindo portas para quem não tem formação inicial em áreas ligadas à economia, indica pesquisa; saiba o que faz, como entrar no setor e quanto ganha um profissional ligado às corretoras
Com 22 anos e uma entrevista engatilhada para trabalhar como vendedor em uma loja de roupa, Victor Magalhães teve de escolher entre participar do processo seletivo para uma vaga com salário de cerca de R$ 1 mil por mês ou fazer uma prova para atuar no mercado financeiro, como fora aconselhado por amigos. Até então, "pulava" de função em função, tendo trabalhado como office boy em escritório de advocacia e feito até freelancers como garçom.
Após avaliar as opções, decidiu pela prova. Com facilidade em estudar assuntos relacionados à matemática, o teste não foi difícil. "Embora não fosse minha área de estudo na faculdade, sempre peguei rápido", afirma. No mercado financeiro há nove meses, conseguiu ganhar R$ 30 mil nos últimos 60 dias. Ele é agente autônomo de investimentos em um escritório no Rio de Janeiro, trabalho que só consegue exercer porque teve um bom desempenho na prova. "Valeu a pena", diz.
Os últimos ganhos de Magalhães, porém, ficaram "fora da curva". "Me beneficiei de um aumento em minha carteira de clientes." A média mensal nesse período em que vem exercendo a função é de R$ 5 mil.
Magalhães chegou a cursar três anos de psicologia, mas desistiu da carreira. Levantamento da Proseek, empresa de educação e alocação de talentos voltada para o mercado financeiro, mostra que essa migração não é tão incomum.
Para se ter uma ideia, dos alunos da Proseek que pretendem ingressar no mercado financeiro, passando pelo curso de Specialist Advisory, um terço vem de áreas distantes daquelas que tradicionalmente estão estão nos currículos de quem atua no setor, como engenharia, economia, administração e ciências contábeis. Ainda que 62,9% dos alunos venham dessas áreas, o setor abre portas para ciências humanas - 7,4% dos estudantes, por exemplo, têm formação inicial em Direito.
Dados do levantamento mostram que 3,7% das pessoas que buscam trabalhar no mercado vêm de cursos de medicina, fisioterapia, enfermagem e odontologia. É o caso de Jhony Bosio, de 41 anos, que trabalhou como fisioterapeuta por três anos. Depois de desistir da carreira - "pela remuneração não compensar a quantidade de estudo", diz - foi para a área comercial, ficando responsável pela análise de crédito para compradores de veículos.
Quando conseguiu acumular patrimônio para investir, se tornou cliente de um escritório de agentes autônomos, credenciados a uma corretora. Bosio foi se familiarizando com esse universo até que, em 2017, conseguiu a certificação necessária para trabalhar na área. Agora, é assessor de investimentos. O curioso é que ele começou a trabalhar no mesmo escritório do qual era cliente.
A prova
A prova que Magalhães e Bosio fizeram é organizada pela Associação das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias, mais conhecida como Ancord, única instituição regulamentada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para certificar agentes autônomos e custa R$ 460. O nível do exame é alto, feito, justamente, para credenciar quem tem condições de atuar no mercado financeiro.
A taxa de aprovação gira em torno de 30% a 40%. O candidato tem duas horas e meia para resolver 80 questões, com acerto mínimo de 70% do questionário, sendo que, em alguns capítulos, é preciso acertar metade do conteúdo.
Segundo o responsável pela área de credenciamento da Ancord, Orlando Júnior, a taxa de aprovação está ligada aos pré-requisitos do exame. Não é exigido ensino superior, quem tem ensino médio completo já consegue fazer a prova. "Nem todos são preparados para a prova. Com 18 anos, pode ter sido gênio da matemática no colégio, mas não tem vivência de mercado", diz Orlando.
O número de pessoas que têm procurado a Ancord para prestar o teste vem crescendo nos últimos anos. Só em 2019, mais de 6 mil pessoas já passaram pelo processo, número próximo ao que foi atingido em todo o ano 2018, de 6,8 mil. Há cinco anos, por exemplo, pouco mais de mil pessoas o fizeram. De 2014 a 2019, o aumento na procura foi de cerca de 430%.
Em parte, de acordo com Orlando, isso se explica pelo aumento da frequência na realização dos testes, que antes ocorriam com intervalo de um mês. De qualquer modo, ele vê aumento no interesse pela profissão. "O mercado está se expandindo, o boca a boca está aumentando, o mercado está chegando para as pessoas, a informação tem sido difundida. O pessoal mais jovem, mais ligado, acaba tendo mais oportunidade", diz.
A análise da Proseek é semelhante. Para eles, com a combinação de juro baixo e recuperação da atividade econômica, os investidores, historicamente concentrados na renda fixa, vão passar a investir em novos produtos por meio das plataformas digitais, o que deve beneficiar o mercado de agentes autônomos.
"A agenda reformista do governo federal deve manter o juro em um dígito por mais tempo e o investidor vai buscar plataformas mais rentáveis. E essa busca passa pelo assessor de investimentos", diz o sócio e responsável pela área de conteúdo da Proseek, Eduardo Otero.
Há ainda o desemprego alto que, entre os jovens, é o dobro da média nacional. A ocupação de agente autônomo tem se tornado uma alternativa sobretudo para os mais qualificados.
Hoje, há 7.988 pessoas aptas a exercer a profissão no Brasil, de acordo com a Ancord. Mas isso não significa que todas estão trabalhando no ramo. Depois da prova, o processo para começar a atuar não é automático. É preciso se certificar na Ancord, processo que dura de 15 a 30 dias, e ainda se se vincular a um escritório que englobe profissionais do ramo. Este, por sua vez, deve ser certificado a uma corretora.
Como é a remuneração do agente
Nenhum agente pode receber seu pagamento diretamente dos clientes. Quem se torna cliente do escritório paga taxas diretamente à corretora, como a de corretagem. A empresa paga um porcentual do valor para o escritório de autônomos, que repassa ao agente. Se o investimento for em um fundo, antes de o valor das taxas chegar à corretora, vai direto à gestora do fundo, que repassa uma parte à corretora e assim por diante.
Por esse motivo, a função de agente não tem salário fixo. "Você vai ser um empreendedor", diz Bosio. "Tem de montar uma carteira de clientes para ter um salário." Ela afirma que hoje, passados dois anos desde que iniciou na profissão, ganha mensalmente mais do que na época em que atuava como fisioterapeuta.
O que faz o agente autônomo de investimentos?
De acordo com a CVM, o agente autônomo de investimentos atua explicando para seus clientes as características dos produtos que podem ser adquiridos no mercado financeiro. Se o cliente quiser investir em um desses produtos, o agente pode operar no mercado este patrimônio, desde que tenha autorização para fazer isso.
O que ele não pode fazer é dar recomendações sobre qual a melhor possibilidade de investimento. Para isso, há o consultor de investimentos. Este, porém, não pode alocar os recursos, como o agente.
Otero, da Proseek, afirma que, ao decidir ser assessor de investimentos, o profissional precisa estar bem informado, para poder passar as melhores recomendações para seus clientes. "O assessor precisa ter domínio sobre os produtos que podem ser ofertados aos clientes e precisa ter habilidades comerciais interessantes, para ter bom aproveitamento entre prospecção e clientes convertidos."
Outro profissional do mercado é o administrador de investimentos, que mexe na composição da carteira com mais liberdade, e, por fim, o analista de valores mobiliários, que produz relatórios sobre empresas e cenários.
Hoje, os agentes autônomos têm de estar vinculados a apenas uma corretora. A CVM discute mudar a regulamentação para estimular a concorrência no mercado.