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Crise 'mais do que crítica' na Volkswagen coloca filiais sob pressão, mas Brasil vê oportunidade

A situação "mais do que crítica" da Volkswagen, nas palavras do próprio CEO de uma das montadoras mais tradicionais do mundo, coloca sob pressão as filiais espalhadas pelo globo. A reestruturação em curso poderá atingir cerca de 100 mil empregos, com foco na Alemanha.

26 ago 2026 - 10h49
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Resumo
A Volkswagen enfrenta uma crise histórica devido aos altos custos na Europa e ao avanço dos elétricos chineses, planejando demissões e cortes de gastos. Em contrapartida, o Brasil surge como uma oportunidade estratégica para a montadora: o país se consolidou como o terceiro maior mercado global do grupo, registrando alta de 10,6% nas vendas no primeiro semestre e mantendo investimentos de R$ 20 bilhões até 2028, apoiado na estabilidade de suas fábricas e na tecnologia do etanol.

O grupo tem mais de 630 mil funcionários, principalmente na Europa e na China, mas também em países como México e Brasil. Nesta semana, a direção realiza uma série de reuniões na Alemanha para tentar avançar no plano de cortes de custos - um primeiro plano de 50 mil demissões já está em curso.

O presidente do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, disse que a empresa e a indústria automotiva alemã como um todo enfrentam "a maior turbulência de sua história", em meio a um cenário econômico global desfavorável e à concorrência da China. Além disso, os custos da produção na Europa estariam mais de 30% acima dos concorrentes.

Blume reconheceu que "não vê como as fábricas de Emden, Hannover, Zwickau e Neckarsulm poderão permanecer lucrativas na próxima década".

"A gente não pode falar que a Volkswagen é uma empresa que semana que vem vai fechar. Volkswagen está vendendo muito. A questão é o que está sobrando para reinvestimento. Esse é o grande problema", resume Milad Kalume Neto, experiente analista do mercado automobilístico e diretor-executivo da K-Lume Consultoria. "Não é um cartão vermelho. É um sinal de atenção do presidente: 'a gente precisa agir porque, no longo prazo, vai ter problema. No longo prazo, as nossas operações aqui estão sob risco'."

Diante do avanço dos modelos elétricos chineses, a maior fabricante de veículos da Europa enfrenta o desafio do excesso de produção, com um excedente anual de 500 mil unidades no continente. As margens atuais da Volkswagen, de em torno de 4%, são insuficientes para financiar os investimentos em novas tecnologias, produtos e fábricas. Plantas como a de Osnabrück poderão migrar para outros setores industriais, como a defesa.

Choque chinês e guerra comercial

"Uma empresa chinesa pensa assim: em processos produtivos de estamparia, ferramentaria, pintura, eu faço como vocês todos, Volkswagen, empresas alemãs, italianas, coreanas. O que vocês têm de diferente? Eu tenho eletrificação, conectividade e tenho itens de segurança de baixo custo. E vocês, o que têm para mostrar ao mundo?", explica Kalume Neto.

"Essa é a grande briga entre os dois modelos industriais. O problema não está na Alemanha, está na indústria tradicional. A indústria alemã já era de alta escala, mas quando a gente vê o modelo chinês, é de muito mais alta escala", afirma.

Sindicatos de trabalhadores da Volkswagen na Alemanha, como em Wolfsburg, têm realizado protestos contra os planos de cortes de custos da direção. (09/07/2026)
Sindicatos de trabalhadores da Volkswagen na Alemanha, como em Wolfsburg, têm realizado protestos contra os planos de cortes de custos da direção. (09/07/2026)
Foto: RFI

O mercado chinês, pilar da rentabilidade da marca alemã por décadas, desmoronou: no segundo trimestre, as vendas da Volkswagen no país caíram 31% no período de um ano. Para piorar, a guerra comercial dos Estados Unidos impacta ainda mais na conta, em especial sobre a Porsche e a Audi, controladas pela Volkswagen. As tarifas americanas pesam cerca de € 5 bilhões anuais para o grupo.

Neste contexto delicado, as negociações com os sindicatos de trabalhadores e governos estaduais na Alemanha - o da Baixa Saxônia é um grande acionista do grupo - ocorrem sob tensão. O poderoso sindicato IG Metall alertou que não aceitará o fechamento de fábricas.

Brasil bem posicionado

Milad avalia que cortes mais drásticos de custos serão inevitáveis e permitirão ao grupo atuar de forma mais globalizada. "Pode ser uma oportunidade para a Volkswagen do Brasil, que tem zero problemas. Não vejo nenhum tipo de risco. Tem uma rede de concessionários gigante, uma das maiores que a gente tem aqui, uma marca muito forte e um histórico consolidado", salienta. "Isso significa dizer que a Volkswagen Alemanha vai trazer a produção dela para cá? Não, não vejo isso. Mas vejo como um potencial contributivo para a Volkswagen como um todo."

O especialista menciona a expertise na fabricação de veículos de pequeno e médio porte e a tecnologia do etanol como diferenciais do grupo no país, que poderiam ser levados a outros mercados. Essa também é a aposta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, onde estão situadas três das quatro unidades da marca alemã no Brasil.

"O que nós vamos ser cobrados é para fazer algum tipo de pequenas estruturações ou reduções de custos. A empresa sempre coloca isso, não é uma novidade para nós", indica o presidente do sindicato, Wellington Messias Damasceno, funcionário da Volkswagen há 25 anos.

A operação brasileira representa um alívio no contexto turbulento: a empresa registrou o maior crescimento de vendas na região (+10,6%) no primeiro semestre de 2026, tornando-se o terceiro maior mercado global do grupo. Os planos de investimento de R$ 20 bilhões até 2028 estão mantidos.

"As quatro fábricas estão equalizadas. Elas produzem com sua capacidade máxima, em dois turnos", observa Damasceno. "A Volks tem mantido um crescimento constante e sólido aqui no mercado - o que é positivo, mesmo com a entrada dos chineses, muito em função dos anúncios de investimento, dessa cultura de tropicalização dos modelos que estão sendo produzidos aqui e dos acordos negociados com os sindicatos", destaca.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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