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Crescente escassez de combustíveis na Rússia pressiona Putin

1 jul 2026 - 16h51
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Evolução de drones tem levado a Ucrânia intensificar ataques a refinarias na Rússia, provocando imensas filas em postos, além de levar Putin a uma rara admissão sobre as dificuldades enfrentadas pelo regime.Há vários meses, as Forças Armadas da Ucrânia vêm atacando instalações de infraestrutura energética em regiões russas e na Crimeia anexada. As ofensivas têm como alvo tanto as rotas de abastecimento russas nos territórios ocupados quanto importantes refinarias de petróleo dentro da Rússia.

Por toda Crimeia, filas de carros são vistas em busca de combustíveis
Por toda Crimeia, filas de carros são vistas em busca de combustíveis
Foto: DW / Deutsche Welle

Em junho, refinarias em Moscou, Nizhnekamsk, Tiumen e Volgogrado foram atacadas. Em maio, ocorreram ataques contra 16 refinarias. Alguns ataque não só resultaram em vitórias táticas para a Ucrânia, mas também humilharam o regime russo, produzindo imagens devastadoras de destruição que circularam pelo mundo.

Segundo a agência de notícias Reuters, a produção de gasolina caiu 25% em consequência desses ataques. Atualmente, a Rússia produz cerca de 85 mil toneladas de gasolina por dia, enquanto o consumo durante o verão no hemisfério norte chega a 110 mil toneladas diárias. Como resultado, imensas filas de carros têm sido registradas em postos de combustíveis na Rússia.

"Neste verão [no hemisfério norte], a Rússia parece caminhar para possivelmente a pior crise de combustível de sua história", afirmam especialistas do centro de estudos Energy Intelligence, dos EUA.

Putin admite escassez de combustível pela primeira vez

Em 28 de junho, o presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu publicamente, pela primeira vez, uma"certa escassez de combustível".

"Existem danos", afirmou durante entrevista à televisão estatal russa. "Mas todas as instalações danificadas estão sendo reparadas relativamente rápido, e os problemas que surgem não são críticos", acrescentou.

"Putin foi obrigado a admitir abertamente que o problema existe", avalia Margarita Zavadskaya, cientista política do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais. "E, sobretudo, ele apontou a causa do problema: os ataques de drones ucranianos".

Segundo estimativas do portal econômico russo RBC, cerca de 40 regiões do país já impõem restrições à venda de combustível. Já o portal independente Wjorstka, com base em dados oficiais e relatos de moradores, afirma que o número pode chegar a 78 regiões. Em muitas cidades, longas filas se formam nos postos de gasolina.

Ataques afetam logística militar russa

Christina Harward, especialista do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), em Washington, destaca que a Ucrânia já vinha tentando atingir refinarias russas em 2025.

"A diferença neste ano é que a Ucrânia aumentou significativamente tanto a quantidade quanto a qualidade de seus drones. Ela ampliou seu alcance e, nos últimos meses, também passou a localizar e destruir sistemas de defesa aérea russos de forma mais eficiente", explica.

Ao mesmo tempo, as forças ucranianas procuram interromper as rotas de abastecimento do Exército russo próximas à linha de frente.

Segundo Harward, os ataques crescentes contra alvos localizados entre 20 e 200 quilômetros atrás das linhas de combate representam uma nova fase da estratégia ucraniana.

Ela afirma que já existem relatos de dificuldades logísticas na frente de batalha. "Há informações indicando que soldados na região de Huliaipole, a leste e a oeste de Zaporíjia, estão recebendo menos combustível, menos munição e menos suprimentos em geral", destacaz. Problemas semelhantes também vêm sendo relatados na região de Donetsk, incluindo atrasos na entrega de munição de artilharia e drones de reconhecimento.

Crimeia vira ponto vulnerável

Harward também ressalta a importância da Ponte da Crimeia, alvo frequente de ataques ucranianos recentes. Além de servir como rota estratégica para o Exército russo, ela é fundamental para o abastecimento da população civil da península.

Caso a Ucrânia consiga destruir completamente a ponte, "isso cortaria uma das principais artérias logísticas da Rússia", afirma.

Desde 26 de junho, a Crimeia e a cidade de Sebastopol estão sob estado de emergência. As autoridades locais instaladas por Moscou decretaram a medida após uma série de ataques ucranianos que provocaram escassez de combustível e alimentos na região.

Para o historiador britânico Mark Galeotti, a Ucrânia identificou a Crimeia como um dos pontos mais vulneráveis da Rússia.

"É extremamente difícil manter o abastecimento de combustível, energia, água e todos os demais recursos necessários. A expectativa é que a pressão sobre a Crimeia obrigue Putin a iniciar negociações de paz sérias, mas em termos favoráveis à Ucrânia", explica.

O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, descreve os ataques contra depósitos de combustível e refinarias como "sanções de médio e longo prazo", destinadas a pressionar Moscou a negociar.

Risco de escalada

Galeotti alerta, porém, que essa estratégia também pode levar Putin a escalar o conflito.

"Putin ainda possui várias opções. Ele pode mobilizar centenas de milhares de reservistas adicionais, embora isso seja extremamente impopular. Também dispõe de cerca de 150 mil recrutas que ainda não foram enviados ao combate. E existe o cenário de pesadelo — que considero muito improvável —, do uso de armas nucleares táticas", afirma.

Segundo o historiador, todas essas alternativas gerariam custos políticos e estratégicos para a Rússia. A questão central, diz ele, é até onde Putin estaria disposto a ir.

A estratégia ucraniana funciona?

Questionado se a estratégia de pressionar economicamente a Rússia está produzindo os resultados esperados, Galeotti adota uma posição cautelosa.

"Não há evidências de que a economia russa esteja prestes a entrar em colapso, de que a população esteja preparada para uma revolta em massa ou de que exista risco imediato de golpe de Estado", afirma.

Ainda assim, ele acredita que a Rússia terá dificuldades para sustentar o esforço de guerra atual por muito mais tempo.

"Dentro de mais um ano, os danos à economia russa serão grandes demais", prevê. Nestas circunstâncias, conclui, "seria razoável começar a considerar alternativas".

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