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Como a China encurralou a indústria alemã

1 jun 2026 - 15h36
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Empreas alemãs se veem cada vez mais dependentes do mercado chinês, ao mesmo tempo em que sofrem com concorrência asiática. Para economistas, complacência alemã das últimas décadas finalmente cobra preço.Em abril deste ano, a China forneceu à Alemanha menos de um quilo do valioso metal germânio. Do gálio, igualmente importante e de difícil extração, foram exportados apenas três quilos — e somente para a Malásia. Outros países ficaram completamente de mãos vazias, segundo dados alfandegários chineses. Os exemplos mostram como a China exerce seu poder em relação a elementos vitais para a produção de equipamentos tecnológicos de ponta.

A nova unidade de produção integrada da BASF na China, que produz para o mercado chinês e para suas empresas exportadoras
A nova unidade de produção integrada da BASF na China, que produz para o mercado chinês e para suas empresas exportadoras
Foto: DW / Deutsche Welle

Sem o germânio, não haveria transmissão rápida de dados em cabos de fibra ótica, e os aparelhos de visão noturna não funcionariam, assim como as células fotovoltaicas de alta eficiência das sondas espaciais e dos satélites.

E sem compostos de gálio, não haveria internet 5G de alta velocidade, os carregadores rápidos superaqueceriam e nem mesmo os leitores de código de barras nos supermercados funcionariam.

Christian Hell, gerente-executivo da Tradium, empresa alemã especializada na comercialização de minerais críticos, descreve esse quadro como preocupante: "Se até mesmo a Alemanha, que até agora era abastecida de forma relativamente confiável, fica de mãos vazias, isso é um sinal claro".

No final de maio, a ministra da Economia e Energia da Alemanha, Katherina Reiche, defendeu verbalmente uma concorrência justa para as empresas alemãs na China e clamou por um abastecimento confiável de minerais críticos.

No entanto, o regime chinês parece ter todas as cartas na mão.

Mesmo dentro da UE, falta um esforço unificado em relação à China. E a própria Alemanha vem freando esforços de pressão mais duros — por receio de retaliação chinesa contra empresas alemãs.

Produção na China para a China

O exemplo da Basf mostra o quanto as empresas alemãs estão envolvidas na China. A gigante química alemã inaugurou no final de março uma nova grande fábrica em Zhanjiang, no sul da China ao custo de quase nove bilhões de euros (R$ 52 bilhões).

Na nova planta, a Basf produz produtos químicos para a indústria automotiva e de plásticos da China. Enquanto na fábrica na matriz da empresa, em Ludwigshafen, na Alemanha, o fim do fornecimento de energia da Rússia desde 2022 levou ao corte de postos de trabalho e à redução da produção, na China a Basf pode usar sem maiores problemas o petróleo e gás russos a preços favoráveis.

Com a nova unidade, porém, a Basf tem se tornado cada vez mais dependente da boa vontade dos líderes chineses.

É uma dependência que é duramente criticada pelos Estados Unidos, conforme apontado num documento divulgado em novembro, que delineou a nova Estratégia de Segurança Nacional americana. "A Guerra na Ucrânia teve o efeito perverso de aumentar a dependência externa da Europa — especialmente a da Alemanha. Hoje, empresas químicas alemãs estão construindo algumas das maiores plantas de processamento do mundo na China, utilizando gás russo que não conseguem obter em seu próprio país", diz o texto elaborado pelo governo Donald Trump.

Empresas alemãs ajudam a alimentar excesso de capacidade da China

Ao aumentar sua produção na China, empresas alemãs estão contribuindo para que o excesso de capacidade chinesa inunde o mercado mundial.

Enquanto a economia interna da Alemanha permanece estagnada, a capacidade de exportação chinesa funciona a todo vapor. A chamada política de "Dupla circulação", colocada em prática a partir de 2020 pelo líder chinês Xi Jinping, parece estar rendendo frutos para os chineses: tornar-se independente das importações, enquanto o mundo se torna cada vez mais dependente de bens e mercadorias "Made in China".

O fato de a China ter se tornado uma nação industrial em posição de liderança pegou muitos de surpresa na Alemanha — embora esse desenvolvimento tenha sido planejado com uma visão de longo prazo.

"Subestimamos a China, como sempre fizemos e ainda fazemos hoje em muitos setores", diz Manuel Vermeer, um consultor de negócios especializado em China. "Estamos aprendendo isso agora de forma muito dolorosa. E ainda reclamamos por não termos sabido disso antes", acrescenta ele, que há 40 anos assessora empresas alemãs a fazer negócios na China.

Visão de longo prazo dos chineses

Nos primeiros anos, empresas alemãs se beneficiaram com o estabelecimento de joint ventures com empresas chinesas e de um acesso ao mercado do país asiático. Mas, ao mesmo tempo, essas empresas transmitiram seu know-how, especialmente na indústria automotiva. Hoje, essa distribuição de papéis se inverteu na maioria dos casos.

"No início da década de 1980, levamos as primeiras empresas alemãs para a China. Tivemos que criar joint ventures, por exemplo, no setor automotivo. Os chineses observaram e ouviram com muita atenção e aprenderam. E, como todos sabemos, eles nos ultrapassaram amplamente, justamente nesse setor. Eles lançam carros fantásticos no mercado, que não só têm boa aparência e são econômicos, mas também são realmente muito, muito bons", afirma Vermeer.

Complacência alemã se volta contra país

"Naquela época, pensávamos: 'Vamos lá, vamos mostrar aos chineses como se faz. Eles podem tentar imitar um pouco, se quiserem. Mas, com a habitual arrogância alemã, partimos do princípio de que eles nunca conseguiriam fazer isso direito, como os alemães com suas excelentes habilidades de engenharia", afirma Vermeer.

Mas os chineses não só ouviram e aprenderem, como se preparam para fazer tudo isso tão bem ou até melhor do que os alemães. "Ninguém [na Alemanha] nem considerava isso no setor automotivo", disse Vermeer. No entanto, o aperfeiçoamento chinês jé se fez sentir cedo. Programas como o "Made in China 2025", lançado pelo regime chinês em 2015, ou análises de especialistas já serviam de alerta há anos sobre a crescente pressão competitiva representada pelos chineses - especialmente sobre a Alemanha, o Japão e a Coreia do Sul.

De pupilo a mestre

"Nós também lhes ensinamos isso nas joint ventures", afirma Manuel Vermeer. "Eles copiaram muito de nós, certamente às vezes por meios não totalmente legais."

No caso da montadora Brilliance, parceira chinesa da BMW, a estratégia nem tinha disfarces numa uma planta em Shenyang, no nordeste da China. "De um lado, montava-se o BMW; do outro, o Brilliance. Eles simplesmente copiavam. E com a Volkswagen não foi diferente."

Na semana passada, a ministra alemã Katherina Reiche ficou visivelmente impressionada em sua primeira viagem à China. Ela parecia não parar de se surpreender com o rápido desenvolvimento da República Popular para o papel de potência industrial global de ponta. No entanto, tudo isso era previsível, conforme se pode ler nos documentos de planejamento de política industrial publicados pela liderança comunista do país asiático.

"Há 20 anos, planos quinquenais chineses já mostravam uma aposta na mobilidade elétrica. Mas, na época, os alemães não levaram isso a sério ou simplesmente não leram", diz Manuel Vermeer.

Chineses se preparam para "jantar" indústria alemã

Em um estudo divulgado na semana passada intitulado O choque chinês 2.0: o custo da complacência alemã, os economistas Sander Tordoir e Brad Setser apontaram que em nenhum lugar o novo avanço chinês na indústria de ponta tem sido tão consequencial quanto na Alemanha. Segundo os economistas, nos anos 2000, um "primeiro choque chinês" na indústria havia castigado especialmente os EUA, mas foi por um tempo benéfico para a Alemanha.

"Por muito tempo, Berlim teve dificuldade em enxergar o problema com clareza. Como a economia superavitária por excelência do mundo, a Alemanha se via como parte de uma coalizão de nações exportadoras e resistia ao escrutínio das políticas que sustentavam os grandes superávits comerciais."

Agora, os pesquisadores do think tank Centre for European Reform apontam que chegou a vez de a Alemanha sentir a pressão. "O superávit da China agora ofusca em muito o da Alemanha. [...] A Alemanha continua hesitante, mesmo com a China já tendo devorado grande parte do almoço da indústria alemã e se preparando para comer o jantar."

Uma olhada no atual plano quinquenal chinês de 2026-2030 também indica para onde o vento chinês está soprando, com o país asiático apostando na computação quântica, inteligência artificial, robótica humanoide e interfaces cérebro-máquina. O rumo é claro: menos dependência do Ocidente e mais controle sobre as cadeias de abastecimento globais.

"Uma China que está a caminho de representar 40% da produção industrial global até 2030, ao mesmo tempo em que aumenta as exportações e reduz as importações, criará inevitavelmente mais gargalos, como o controle de terras raras e ingredientes farmacêuticos e produção de chips. A dependência alemã das cadeias de abastecimento chinesas afetará a capacidade da Europa de se rearmar, apoiar a Ucrânia e reduzir suas próprias vulnerabilidades econômicas. Quanto mais a Alemanha esperar, maior e mais disruptiva a resposta eventual terá que ser", conclui o estudo dos economistas Sander Tordoir e Brad Setser.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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