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Com juro menor, investidor precisa se adaptar ao risco

Para ter a mesma rentabilidade da renda fixa dos últimos anos, brasileiro deverá incluir ativos mais voláteis, como ações, nas carteiras

30 jun 2019
05h11
atualizado em 1/7/2019 às 15h59
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Sem poder contar com altas taxas de juros para multiplicar seu patrimônio, os investidores brasileiros começam a se movimentar em direção a ativos mais arriscados em busca de maiores ganhos. O fenômeno é observado, por exemplo, no aumento de pessoas físicas com ações na B3, a Bolsa paulista, número que atingiu 1,1 milhão em maio, último dado disponível.

De acordo com especialistas, muito desse crescimento é explicado pela tentativa desses investidores em compensar a queda da rentabilidade obtida com a renda fixa, já que a Selic, em 6,5% ao ano, está no menor nível histórico. Se em outros anos era possível ganhar quase 1% ao mês sem correr grandes riscos, hoje o rendimento com os juros mal fica acima da inflação.

"Estamos vivendo o que o americano e o europeu viveram 30 anos atrás. Eles tinham um bom retorno com aplicações em títulos de governo e de bancos. Com a estabilidade econômica, você tem um fenômeno de valorização do mercado de capitais. Claro que lá há investimentos em títulos hoje, mas grande parte é em ações", afirma o diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) Miguel de Oliveira. "No Brasil, durante muitos anos, a Bolsa só tinha grandes investidores, a classe média ficava nos juros, acomodada com o alto retorno. Agora os juros menores vieram para ficar, vamos conviver com taxas mais baixas", avalia.

A busca por mais risco pode ser verificada até mesmo dentro da renda fixa: os chamados pós-fixados, papéis cuja remuneração acompanha a Selic, como o Certificado de Depósito Bancário (CDB) ou o Tesouro Selic (antiga LFT), têm perdido espaço para os que pagam taxas prefixadas. Em maio de 2018, o papel mais volátil entre os títulos públicos, o Tesouro IPCA+ (antiga NTN-B), representava uma fatia de apenas 28% dos papéis vendidos pelo Tesouro Direto, plataforma de negociação dos títulos do governo.

Um ano depois, essa parcela é de 44%. Os ativos prefixados são considerados mais arriscados porque o investidor pode perder dinheiro em caso de alta de juros após a compra, o que não ocorre com um pós-fixado. Em caso de queda dos juros, no entanto, o prefixado se valoriza.

Recomendações

Para migrar para ativos mais voláteis, entre as recomendações mais repetidas estão diversificação e paciência. A primeira diz respeito à construção de uma carteira com tipos diversos de ativos, com diferentes características, para que o investidor não dependa de apenas um cenário para ganhar dinheiro.

A segunda dica busca evitar o grande erro de comprar na alta e vender na baixa. Olhando para o longo prazo, negociando sempre aos poucos os ativos, os investidores diminuem os riscos de ter prejuízo.

Para o professor Joelson Sampaio, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP), uma boa opção para se acostumar ao sobe e desce dos ativos mais voláteis é deixar o serviço a cargo de gestores profissionais, por meio dos fundos de investimento. "Olhe a taxa de administração cobrada e o histórico de rentabilidade do fundo", aconselha Sampaio.

Ele explica que, em um ambiente de juros menores no longo prazo, uma alocação hiperconservadora não trará tanta segurança quanto se pode imaginar. Isso porque o rendimento dos juros pode ficar abaixo da alta dos preços. "A inflação iria corroendo a rentabilidade dos ativos atrelados à Selic."

Corrosão

Um exemplo disso foi o resultado da caderneta de poupança, onde estão guardados cerca de R$ 790 bilhões, no primeiro semestre do ano. Como a caderneta está remunerando, pela regra atual, 70% da Selic, a taxa básica de juros no menor nível histórico fez com que a inflação avançasse sobre os rendimentos da poupança.

Quem aplicou na caderneta em primeiro de janeiro viu seu dinheiro acumular alta de 1,87% ao fim do semestre. No mesmo período, a prévia do oficial de inflação marcada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) aponta que os preços subiram 2,33%. Ou seja, o dinheiro que ficou parado na poupança neste primeiro semestre perdeu valor.

A expectativa da aprovação da reforma da Previdência nos próximos meses - somada à mudança na política monetária do Federal Reserve, o banco central americano, que depois de ameaçar elevar os juros no ano passado agora estuda baixá-los - abre espaço para novos cortes da taxa básica no Brasil, dizem analistas.

Se o cenário projetado pelos economistas para o segundo semestre se concretizar, o rendimento da renda fixa tende a cair ainda mais, reforçando o movimento do investidor brasileiro em busca de maiores retornos.

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Estadão
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