CEO do Itaú: 'Plataformas usaram FGC para viabilizar modelos de negócios não sustentáveis'
Segundo Milton Maluhy, fundo surgiu para proteger investidores em caso de colapso de instituições financeira, mas seu uso foi desvirtuado ao longo dos anos
O presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, defendeu nesta quinta-feira, 5, que os reguladores e o setor financeiro devem implementar "mecanismos inteligentes" para recapitalizar o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e evitar que um novo episódio como o da liquidação extrajudicial do Banco Master volte a acontecer.
Em entrevista à imprensa após a divulgação dos resultados do banco - que registrou um lucro de R$ 46,8 bilhões no ano passado, uma alta de 13,1% em relação a 2024 -, Maluhy lembrou que o FGC surgiu, em meados da década de 1990, com objetivo de proteger investidores em caso de colapso de instituições financeira.
No entanto, para ele, o fundo foi desvirtuado ao longo dos anos, quando interesses próprios se sobrepuseram aos do sistema financeiro. "Algumas plataformas usaram o FGC como modelo de alavancagem do negócio, viabilizando modelos de negócio não sustentáveis", afirmou.
O banqueiro estimou que o Master representou um evento de R$ 55 bilhões para o FGC. Na visão dele, é importante transmitir ao mercado a mensagem de que o fundo é capitalizado e pode cumprir seus objetivos. Contudo, o executivo argumentou que o processo de recapitalização deve atenuar ao máximo os custos para os integrantes do setor e para a sociedade. "Muitas normas internacionais podem servir de referência", ressaltou.
CDBs do Master
O presidente do Itaú afirmou que o caso do banco Master gerou forte efeito no sistema financeiro, não por conta do tamanho do banco, mas por sua base de depósitos oferecidos no mercado por plataformas de investimento, e defendeu seriedade dos participantes do mercado para construir modelos de negócios sustentáveis.
Ele reforçou que o Itaú nunca distribuiu CDBs do Master "por convicção", como já havia dito em janeiro em entrevista ao Estadão/Broadcast.
"Nunca distribuímos CDBs (certificados de depósito bancário) do Banco Master, por convicção, e nem COE (certificados de operações estruturadas) da Ambipar", disse a jornalistas. Tanto os CDBs do Master como o COE da Ambipar prometiam rentabilidade alta, acima da média de mercado, mas acabaram gerando muita dor de cabeça aos investidores.
"Tem um elemento adicional que é a seriedade, de construir modelos de negócios que são sustentáveis, e que a gente coloca os interesses do sistema e dos clientes na frente dos interesses do banco", disse Maluhy em seguida, na teleconferência com analistas. "É dessa forma que a gente trabalha no Itaú Unibanco, apesar de vermos no mercado um fenômeno que muitas vezes não acontece dessa forma, são os interesses da companhia na frente dos interesses do sistema."
"Não existe responsabilidade maior do que qualquer instituição olhar seus processos, seus clientes, seu sistema e pensar que impactos vai gerar", disse Maluhy. "Isso não dá para terceirizar, não é culpa do regulador, não é culpa de ninguém."
Maluhy disse que as taxas de CDB do Master eram "muito fora de mercado" e com grandes comissões para as plataformas de investimento. "Então, o incentivo foi colocado de forma equivocada e os interesses da plataforma na frente dos interesses do sistema e dos clientes."
Só o Master, incluindo o Will Bank, que era controlado pelo banco de Daniel Vorcaro e teve liquidação decretada pelo Banco Central em janeiro, gerou impacto para o FGC de R$ 55 bilhões. É um evento que pode ter impacto na sociedade, na captação de empréstimos e no preço dos investimentos, ressaltou o presidente do Itaú.
"É um evento muito relevante, dos maiores já observados no sistema financeiro brasileiro", disse Maluhy, ressaltando que o FGC precisa ser recapitalizado. "Não há qualquer dúvida com relação a isso, porque entendemos que é importante passar essa mensagem para todos os investidores, todos os clientes, que todos os dias compram depósitos dos bancos, que o fundo tem patrimônio e que ele vai estar capitalizado diante de um evento."
Aberturas de capital
O presidente do Itaú disse também na entrevista que, ao longo do ano, vai ficar mais claro se haverá a abertura de uma janela na B3 para ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês), principalmente após as eleições. Mas serão casos específicos, para empresas maiores, comentou.
Na renda variável, o executivo prevê vendas de ações em bloco e ofertas de empresas já listadas, chamadas de follow-on. "As duas ofertas lá fora neste começo de ano são um bom teste para o mercado brasileiro", comentou Maluhy. O PicPay abriu o capital na Nasdaq em oferta concluída na semana passada, com forte demanda, e a expectativa agora é para a operação do Agibank, que deve ocorrer na próxima terça-feira.
Na renda fixa, Maluhy ressaltou que o ano de 2025 foi forte, vindo pouco acima das expectativas. Para 2026, a avaliação é que o mercado deve continuar forte, mas com volume um pouco menor do que no ano passado.