Cacau agroflorestal do Brasil teria patamar do café no exterior com investimento, diz CEO da Dengo
Cintia Moreira defende aportes a pequenos produtores para retomar 'status de excelência' da amêndoa brasileira no mercado internacional; cacau agroflorestal compõe produtos de Páscoa lançados pela empresa
O movimento comum de grandes marcas de chocolate à venda no Brasil é o de recorrer ao cacau importado, especialmente da África, para a produção de itens de Páscoa, ainda que usem também uma parcela de amêndoas nacionais. No caso da Dengo Chocolates, a decisão vai na contramão: todo o insumo de origem nacional é adquirido de pequenos produtores com práticas rastreáveis e mais sustentáveis. "Não abrimos mão do sistema agroflorestal", diz Cíntia Moreira, CEO da empresa, ao Estadão.
A opção por essa prática, no entanto, exige equilíbrio entre preço e escala. O sistema agroflorestal de pequenos produtores ainda não supre as necessidades de produção da indústria nacional. Como incentivo ao crescimento, a Dengo mantém um pagamento prêmio pelo insumo, com valor acima do mercado. A porcentagem atual não foi informada à reportagem, mas, em 2023, a empresa declarou pagar 107% a mais para esses fornecedores.
A medida tem um propósito visionário: Moreira vê no cacau agroflorestal o potencial para retomar o prestígio que a amêndoa tinha internacionalmente antes de ser atingido pela praga da vassoura-de-bruxa, nos anos 1990. No entanto, são necessários maior investimento da indústria e linhas de crédito para que ele tenha patamar semelhante ao do café no exterior, ressalta a executiva.
"O Brasil, diante da sua biodiversidade e dos seus sistemas agroflorestais, tem absolutamente condições de ser reconhecido repetidamente no cenário mundial como um cacau de altíssima qualidade. Nós não temos nada a perder para o restante do mundo, nem em termos de cacau nem em termos de chocolate."
Com lojas no Brasil e na França, e recente investimento de R$ 100 milhões para expansão nacional e internacional, a Dengo lançou neste mês produtos de Páscoa com cacau agroflorestal com custo de até R$ 399. A expectativa é de crescimento anual de 30% nas vendas.
Abaixo, os principais trechos da entrevista:
A Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei nesta semana que estabelece um porcentual mínimo de cacau nos chocolates e obriga a indicação do total nos rótulos dos produtos. Como isso chega para a Dengo?
A Dengo já nasceu de um propósito diferenciado de ter, de fato, mais cacau e menos açúcar. A normativa fala de 25% de cacau para chocolate ao leite. O nosso chocolate ao leite começa com 38%. A normativa fala em meio amargo, nós aqui falamos de intenso. Os nossos intensos começam em 65%. Nós trabalhamos com a amêndoa do cacau. Somos uma bean to bar (rastreamento do grão à barra). O que a indústria, sobretudo a massiva, na sua grande maioria faz é comprar o liquor (pasta de cacau) pronto. Qual é a diferença? Nós controlamos junto aos produtores a fermentação, a secagem. Nós trazemos essa amêndoa para São Paulo, torramos. É dentro do processo de fermentação e depois da torra que você extrai o melhor do aroma do cacau, e isso nós temos o controle. Isso também faz parte (do processo) que nós vamos passar agora de educação do consumidor. Em um primeiro momento, o consumidor pode se confundir um pouco, porque uma barra 50% da marca A e uma barra de 50% da marca B não necessariamente têm a mesma qualidade, porque depende dessa rastreabilidade. É um grande passo para uma relação mais justa com o consumidor.
Isso é benéfico, do ponto de vista da concorrência?
Eu vejo que sim. Esse movimento começou antes da normativa, com o aumento histórico do preço do cacau. Agora ele está se equilibrando novamente, mas houve uma alta exponencial do cacau nesses últimos dois anos e isso mexeu muito com a indústria do chocolate. E o consumidor percebeu. Ele começou a encontrar produtos em que, nas embalagens, passou-se a escrever: sabor chocolate. Ou seja, aquele produto já não atingia nem o mínimo do cacau necessário para ser considerado chocolate. Acredito que foi naquele momento que o consumidor começou a entender que chocolate não é tudo igual. Esse movimento, da Câmara, vem trazer mais luz para esse assunto. Eu gosto muito de fazer um comparativo com o café, porque o café já vem fazendo esse trabalho há muito mais tempo, e o consumidor já conseguiu entender isso, está um pouco mais claro. Com o cacau ainda não.
Falando em preço, depois do aumento progressivo dos preços do cacau, na casa dos US$ 10 mil a tonelada, neste ano estamos vendo uma queda significativa na cotação, a US$ 3 mil. Isso impactou de alguma forma a cadeia de fornecedores e a produção da Dengo?
Na verdade, não. Quando houve aquele aumento expressivo do cacau, a Dengo não repassou 100% o aumento da commodity. Eu diria que nem o mercado (fez isso), embora todos nós tenhamos percebido um aumento expressivo na categoria chocolate, mas a indústria absorveu parte desse desse impacto de margem por conta dos custos muito altos. Houve um aumento de preço, é verdade. Dentro da Dengo, ele acontece de uma forma muito equilibrada, porque em nenhum momento nós abrimos mão de qualidade, e nós vimos o mercado fazendo esse movimento. Ao contrário, nós tivemos ainda mais lançamentos de produtos com alto teor de cacau. Até porque o consumidor tem ficado com um paladar mais sofisticado e tem optado por produtos com maior porcentual de cacau. Então, não (impactou). O que impacta é em eficiência operacional. Internamente nós fomos buscar eficiência operacional em todas as áreas para equilibrarmos a nossa rentabilidade. Mas não é uma mudança na proposta de valor para o consumidor, disso não abrimos mão.
Essa baixa significativa não vai ter uma interferência, por exemplo, nos preços dos produtos de Páscoa da Dengo…
Há dois pontos. No primeiro, embora o cacau tenha tido de fato uma queda no preço, é preciso lembrar que não somente a Dengo, como o mercado, já fez as suas compras lá atrás. Na cadeia do cacau, o planejamento da fabricação é muito antecipado. Então todos nós, a Dengo e o mercado, já absorvemos um preço maior de cacau. O segundo ponto é que, como nós compramos diretamente de pequenos e médios produtores, sim, nós estamos sujeitos ao preço da commodity em primeiríssimo lugar, porque é ela quem valida o preço também aqui no Brasil. No entanto, como o nosso trabalho tem um propósito de impactar positivamente a cadeia do cacau, na qual o valor compartilhado é muito irregular, a proposta foi fazer um investimento na cadeia produtiva para que pudéssemos repassar um valor com prêmio. Então, nós compramos dos pequenos e médios produtores com prêmio. Porque quando a commodity cai, eu também aumento o meu prêmio de preço para o pequeno e médio produtor, para que ele consiga trabalhar uma amêndoa de alta qualidade. Nós temos um olhar muito de longo prazo, porque o impacto que queremos promover na cadeia do cacau não se resolve em um ou dois anos.
A Dengo, então, continua no processo de pagamento com valor maior para os fornecedores…
Sim. Isso não é um um pilar de sustentabilidade para nós, é o modelo de negócio, é a proposta de valor da marca. A Dengo nasceu para provocar um impacto positivo na cadeia de cacau. Não foi exatamente um desejo de ter uma marca de chocolate que motivou o nascimento da Dengo por parte dos nossos acionistas, (e sim que era) preciso trabalhar e fazer algo por essa cadeia que é tão injusta e tão irregular. Nosso propósito é ter uma relação mais justa com o pequeno e o médio produtor, conservar a natureza — nós somente compramos cacau de sistemas agroflorestais — e inspirar quem consome.
O sistema que abastece a Dengo vem de um modelo conhecido por ter boas práticas de sustentabilidade, porém o mercado ainda considera pequeno o volume em escala industrial. Como que a empresa lida com isso?
Não vamos abrir mão do sistema agroflorestal, ainda que o outro sistema (de plantação a pleno sol) se prove mais eficaz (em termos de longevidade e volume da produção). Não passa cacau dentro da Dengo, se não vier desse sistema. Isso é por convicção. Porque nós precisamos fazer parte da solução de preservação dos nossos sistemas. E aí, falando de produtividade, o que eu posso dizer é que nós ainda temos muitos, muitos hectares dentro do sistema agroflorestal para maximizar. Nós não temos uma alta produtividade por uma questão de investimento, não porque ele não é um sistema efetivo por si só. Ele precisa de investimentos financeiros, de manejo, de alguma tecnologia. E os pequenos e médios produtores não acessam (o financiamento), diferente das grandes propriedades que estão investindo em um cacau a pleno sol. Então, não se trata de ser um sistema menos eficiente, se trata de um sistema que ainda não tem os investimentos necessários, porque são pequenos e não acessam o sistema financeiro, seja ele público ou privado.
E o que ajudaria nessa questão de escala, linhas de acesso a crédito ou um olhar diferenciado do próprio mercado em si?
Sem dúvida alguma, é uma linha de crédito das instituições financeiras. Hoje o que nós tentamos apoiar o máximo possível, em parcerias com outras instituições, é apoiá-los para buscar esse acesso. Seria bastante importante que nós víssemos um movimento por parte dos setores público e privado apoiando o desenvolvimento dessa agricultura que ainda é muito irregular no sentido de valor compartilhado.
Quando a Dengo opta por um pagamento acima do mercado, há um comprometimento de receita que é necessário assumir, certo?
Sim, mas desde o início a nossa construção de orçamento já leva em consideração que haverá esse pagamento. Nós unimos dois pontos, no que diz respeito ao nosso compromisso com a renda digna, e o pagamento por prêmio não é somente um movimento altruísta, ele é um movimento responsável, de desenvolvimento da cadeia e pagamos por uma amêndoa de qualidade. Uma coisa é filantropia, nós não somos filantropia. Nós somos uma empresa consciente do seu papel na sociedade. Porque ele precisa ser mais amplo do que somente transacional. Nós precisamos trabalhar e construir empresas, e termos empresários que tenham esta visão de valor compartilhado. É nesse lugar que a Dengo se encontra. Então, não pagamos um prêmio adicional somente para um repasse. Existe uma troca também do produtor nos oferecer uma amêndoa única, exclusiva e de altíssima qualidade. E isso é bom para ele também, porque ele desenvolve a sua agricultura com um cacau de altíssima qualidade, porque se não faz isso, ele vai vender na commodity para a moagem, e a moagem vai pagar o preço de commodity.
Como a sra. vê esse cenário de qualidade?
Um movimento interessante que nós estamos vendo nos últimos anos é que o cacau no Brasil já foi uma cultura muito reconhecida internacionalmente. Após a vassoura-de-bruxa, essa amêndoa se tornou ruim. Os produtores vêm gradativamente fazendo melhorias nas suas plantações para que esta amêndoa volte a ser uma amêndoa de qualidade. Mas o setor chocolateiro não via valor e não pagava por isso. A Dengo há nove anos abriu espaço para que o produtor também se interessasse em fazer uma amêndoa de qualidade. Lá atrás o produtor simplesmente colhia, seja o fruto bom, seja o fruto com com os seus defeitos, e vendia para a moageira. Hoje não, ele colhe, faz todo o processo de beneficiamento e consegue agregar valor. O Brasil voltou a ser recentemente reconhecido por suas amêndoas de qualidade. Então, um outro passo que nós queremos e somos entusiastas e apoiadores é trazer novamente o Brasil para este lugar de amêndoa de qualidade. Quando nós viajamos e entramos em uma cafeteria, o café do Brasil está sempre exposto em um lugar de destaque. O cacau, não. E o Brasil tem uma amêndoa de altíssima qualidade, com um sensorial único. E atualmente nós voltamos a aparecer neste cenário mundial como uma amêndoa de qualidade. É muito bonito ver essa trajetória. O Brasil merece, e os nossos produtores mais ainda.
Sobre o cacau chegar ao patamar do café internacionalmente, a sra. enxerga no cacau agroflorestal esse potencial?
Sem dúvida alguma, sobretudo no cacau de sistemas agroflorestais. Esses sistemas são muito ricos, porque eles têm as frutas, as castanhas ou outras árvores que não necessariamente são frutíferas, mas que também trazem essa composição de sensorial. Quando você olha para o mundo, o Brasil tem uma biodiversidade que carrega no nosso cacau uma riqueza de sabores de sensorial altíssimo. O Brasil, diante da sua biodiversidade e dos seus sistemas agroflorestais, tem absolutamente condições de ser reconhecido repetidamente no cenário mundial como um cacau de altíssima qualidade. Nós não temos nada a perder para o restante do mundo, nem em termos de cacau e nem termos de chocolate.
A Dengo anunciou investimento de R$ 100 mi para aumento de produção expansão internacional em 2024, incluindo novas lojas em Paris e Estados Unidos. Como está o andamento disso?
A Dengo tem uma ambição importante de crescimento. Tivemos a inauguração de cinco unidades no ano passado. Hoje nós temos um total de 57 lojas, dessas 19 são franquias. Tenho uma frase que gosto muito de falar internamente e virou um pouco nosso mantra: "O propósito sem resultado não se sustenta, mas resultado sem propósito não nos representa". E é assim que nós vamos para o futuro da Dengo. Tivemos um crescimento importante o ano passado nas nossas lojas comparáveis de 22%. Então, percebemos que ainda temos bastante coisa para fazer dentro do nosso negócio hoje e, sim, nós temos uma ambição de crescimento, continuamos estudando até onde a Dengo deve ir no nosso planejamento estratégico e em breve teremos novidades.
Mas a entrada nos Estados Unidos por enquanto está em uma pausa?
Os Estados Unidos não estão mapeados como uma expansão no momento. Nós estamos com duas lojas em Paris e percebemos que, dentro desse universo europeu, a Dengo tem sido muito reconhecida. A experiência das nossas lojas é algo que chama muita atenção, sobretudo do europeu. Então, em uma visão de longo prazo, nós enxergamos uma expansão mais centrada na Europa.