BC decreta liquidação extrajudicial do Will Bank, banco digital do Master, após calote na Mastercard
Mastercard decidiu executar as garantias ligadas às dívidas do Will Bank na terça; medida desta quarta considerou comprometimento da situação econômico-financeira da instituição
BRASÍLIA — O Banco Central decidiu nesta quarta-feira, 21, pela liquidação extrajudicial do banco digital Will Bank, que estava em Regime de Administração Especial Temporária (Raet) desde novembro do ano passado, quando foi decretada a liquidação do Banco Master. Nesse regime, a instituição passa a operar sob um conselho diretor indicado pelo BC, mas mantém as operações ativas enquanto é reestruturada.
O Master foi liquidado em novembro, menos de um dia após o Grupo Fictor ter indicado o interesse em comprar a instituição. Na época, o BC também decidiu aplicar o Raet sobre algumas empresas ligadas ao banco. Na prática, é uma saída para ganhar tempo até encontrar uma solução de mercado.
O Will Bank havia sido preservado pela avaliação de que poderia haver volta dos problemas enfrentados pela instituição, que tinha compradores interessados, o que não se confirmou, segundo o BC. Desde 2025, antes mesmo da liquidação do Master, havia tratativas para venda do Will Bank.
Na avaliação da autarquia, a liquidação foi necessária agora após o descumprimento de pagamento da instituição com a Mastercard. Nesta terça-feira, 20, a Mastercard parou de aceitar compras feitas por cartões de crédito do Will Bank e decidiu executar as garantias ligadas às dívidas do banco digital. Com a decisão, a bandeira de cartões se tornou acionista do BRB e da varejista online de móveis Westwing.
"Tal solução, contudo, não se mostrou viável, verificando-se no dia 19 de janeiro de 2026 o descumprimento pela Will Financeira da grade de pagamentos com o arranjo de pagamentos Mastercard e o consequente bloqueio de sua participação nesse arranjo", afirmou o Banco Central em nota.
O Will Bank é uma fintech fundada em 2020 para oferecer serviços bancários e investimentos a um público desbancarizado, com foco na região Nordeste do País. O negócio foi comprado por Daniel Vorcaro, do Master, em 2024, quando precisava de um aumento de capital para se enquadrar nos requisitos mínimos regulatórios exigidos pelo BC.
A Mastercard era a emissora dos cartões de crédito da fintech e é uma das principais credoras após a liquidação. A decisão de parar de aceitar as compras feitas pelo cartão do Will evitaria que esse passivo crescesse.
Segundo o Banco Central, a medida anunciada nesta quarta-feira considerou o "comprometimento da situação econômico-financeira da instituição".
"Assim, tornou-se inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira (Will Bank), em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master, já sob liquidação extrajudicial", diz o BC.
O Will Bank tem cerca de R$ 6,5 bilhões em depósitos que entram na conta do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) Com a liquidação extrajudicial, a conta a ser paga pelo FGC no caso Master deve aumentar dos atuais R$ 40,6 bilhões para um número mais próximo de R$ 47 bilhões, o maior valor da história.
O conglomerado Master era classificado como de porte pequeno pelo Banco Central, por deter apenas 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional (SFN).
O BC nomeou como liquidante Eduardo Félix Bianchini, que exerce a mesma função no Master. Ex-servidor do BC, ele já trabalhou em outros oito casos do tipo antes de assumir o controle das instituições de Daniel Vorcaro.
A autarquia ainda determinou a indisponibilidade de bens de controladores e ex-controladores da Will Financeira: Will Holding Financeira, Master Holding Financeira, 133 Investimentos e Participações, Armando Miguel Gallo Neto, Daniel Vorcaro, Felipe Wallace Simonsen, Felipe Félix Soares e Ricardo Saad Neto.
O que é a liquidação?
A liquidação extrajudicial é um regime de resolução à disposição do BC para lidar com problemas graves em instituições financeiras, a fim de manter a estabilidade do sistema.
A medida interrompe o funcionamento da instituição, retirando-a do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Isso significa que o banco fecha, deixa de funcionar.
Esse regime é adotado quando a situação de insolvência — ou seja, de endividamento — é irrecuperável ou quando forem cometidas graves infrações às normas que regulam sua atividade.
O BC nomeia um liquidante, que buscará a venda dos ativos existentes para viabilizar o pagamento, que for possível, aos credores.
Também é acionado o FGC, uma espécie de "seguro" aos investidores e correntistas contra calotes. O FGC garante o pagamento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ e por instituição bancária.
?Não há prazo determinado para o encerramento da liquidação: ela termina por decisão do Banco Central ou pela decretação da falência da instituição.