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'A polarização é um cenário em que todos perdem', diz arquiteto britânico Indy Johar

Para o cofundador do Dark Matter Labs, é preciso desenvolver novas estruturas que promovam fé no futuro e respondam a desafios sistêmicos reais, como o colapso climático

30 out 2026 - 11h12
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Resumo
O arquiteto Indy Johar defende uma reformulação radical das estruturas econômicas e sociais perante o colapso climático e as transformações no trabalho geradas pela tecnologia. Para ele, a polarização política e a economia baseada no medo geram perdas coletivas ao enfraquecer o contrato social. Johar propõe que capital, filantropia e poder público superem visões ultrapassadas e compreendam a interdependência humana, criando respostas audaciosas para garantir a sobrevivência global.

O arquiteto britânico Indy Johar é cofundador de um laboratório de design estratégico chamado Dark Matter Labs, cuja proposta é ambiciosa: redesenhar as estruturas invisíveis (a matéria escura) que sustentam a sociedade. Sem fins lucrativos, o laboratório visa a desenvolver novas formas de gestão de bens comuns planetários por meio de uma reformulação substancial da nossa relação com a terra, o trabalho, a tecnologia, o dinheiro.

Em resumo, Johar estimula que pensemos fora da caixinha num mundo encaixotado por conceitos que ele considera ultrapassados, especialmente diante do colapso climático e da crise dos empregos. "O que quero propor é que olhem para a escuridão", diz. "O fato de não conseguirmos prever o futuro torna-se uma libertação, pois nos permite imaginar futuros de fato possíveis."

Ele esteve em São Paulo para participar da 5ª edição do Filantropando, realizado neste mês de outubro e focado, desta vez, em novas arquiteturas do capital. Criado em 2023 pelo Instituto Beja, o Filantropando se uniu a parceiros como o Instituto Toriba com a proposta de promover um diálogo que chacoalhe as estruturas da filantropia brasileira, rompendo com a lógica paliativa das doações tradicionais. O ponto de partida foi uma constatação crítica: embora recursos circulem há décadas, as crises socioambientais e as assimetrias históricas continuam se aprofundando.

Aos 53 anos, Johar enfatiza que a crise não respeitará bolsos, brasões nem polarização, já que o destino da humanidade está interligado - e não segue um caminho viável à sobrevivência. Morreremos juntos e abraçados se não soubermos quebrar paradigmas, diz. "O momento exige uma visão econômica diferente, uma análise de alocação distinta, pois a riqueza, a posição, a própria noção de identidade, tudo isso está forçosamente entrelaçado", afirma. "Mais que ser gentil com o mundo, é preciso estar com ele, e de uma forma inteligente." A seguir, trechos da entrevista com Indy Johar em sua primeira vinda ao Brasil.

O sr. costuma dizer que as estruturas políticas precisam mudar radicalmente. Poderia explicar melhor como seria essa mudança?

Eu diria que a política não se resume aos partidos, e sim a estruturas políticas, que precisam ser reinventadas, pois falham ao tentar centralizar todas as respostas. É por isso que considero a ideia de um parlamento fora do tradicional. Ao colocar essa proposta na mesa, o risco relacionado à Amazônia deixa de ser apenas um risco político e passa a ser um risco constitucional, o que abre espaço para o debate e a divergência. Acredito que não somente esse horizonte precise ser mudado, mas também a escala do apetite. É justamente disso que se trata: a escala do apetite. De certa forma, precisamos de um pouco mais do "estilo Elon" (Elon Musk) em toda parte - e vou me explicar. Ele está criando o que eu chamaria de um sistema em série. O carro elétrico foi um meio para gerar dados; os dados, um meio para desenvolver a IA. O carro elétrico também serviu para criar baterias, que permitiram o funcionamento de satélites. Os satélites, por sua vez, servem para construir uma infraestrutura de dados. Ele está criando um ciclo sistêmico, abordando tudo a partir de "primeiros princípios" - ele desconstrói cada elemento até chegar aos seus fundamentos básicos. Nós não estamos aprendendo a pensar a partir desses primeiros princípios, então é fundamental termos uma imaginação à altura da escala do problema. Este é o meu pedido: imaginem algo proporcional à dimensão do desafio. Caso contrário, estaremos deixando a tarefa de imaginar o mundo - e de moldá-lo de uma maneira muito específica - nas mãos de pouquíssimos homens. Sinto que deixamos que Elon e seu 0,014% da riqueza global definissem o nosso futuro, sem que houvesse qualquer outra conversa paralela ou comparativa. Por que permitir que isso aconteça?

Poderia dar um exemplo do que seria esse algo além, à altura da escala dos problemas?

Lembra quando a Covid-19 surgiu? Tínhamos presidentes e primeiros-ministros ao lado de autoridades científicas. Achei aquilo muito inovador: um cientista expunha o que sabíamos e o que ainda desconhecíamos, enquanto o governante explicava como as decisões seriam tomadas. Pareceu-me uma abordagem muito nova sobre o funcionamento da democracia - a relação entre representação, ciência e conhecimento, e como esses elementos interagiam.

A pandemia trouxe uma noção de finitude. Passados seis anos, muitas vezes agimos como se não fôssemos morrer e negamos perigos iminentes à sobrevivência humana, como a crise climática. O que aconteceu nesse meio tempo?

Na minha visão, houve uma força que nos puxou de volta. Se analisarmos a trajetória da pandemia, existia uma economia estabelecida. Fomos levados a uma nova realidade, mas a economia anterior - com seus imóveis comerciais e escritórios, que concentravam enorme riqueza e ativos - exerceu uma força que nos trouxe de volta ao modelo antigo. O objetivo era preservar essa riqueza. Veja quantas empresas exigiram o retorno ao trabalho presencial; sem isso, o setor imobiliário comercial sofreria uma desvalorização, o que desencadearia um efeito cascata catastrófico, atingindo também todo o varejo. Seria uma crise existencial para o capital tangível. Portanto, a dimensão política disso não deve ser subestimada: foi um movimento de retrocesso ao velho mundo, uma estratégia para garantir a sobrevivência desse sistema.

O setor imobiliário é, de fato, tão valioso assim?

Na sua configuração atual, o setor imobiliário comercial não é, fundamentalmente, tão valioso quanto imaginávamos. A verdadeira arquitetura do futuro não está nos prédios físicos. Isso nos leva a uma questão complexa e inevitável. Nos próximos dois anos, uma única pessoa será capaz de realizar o trabalho que antes exigiria 100 delas. Na nossa organização (a Dark Matter Labs), somos 75 pessoas espalhadas pelo mundo - uma estrutura que chamo de "micromultinacional". A natureza do trabalho está mudando. Portanto, a menos que repensemos o desenvolvimento humano de forma radical, chegaremos a um beco sem saída. E creio que não estamos compreendendo a dimensão da crise que carregamos, literalmente, no bolso. A crise do desenvolvimento humano é, fundamentalmente, a crise do sistema educacional industrial dos últimos 200 anos. Recebemos currículos todos os dias, e mesmo pessoas formadas em universidades de excelência têm dificuldade para encontrar emprego. Uma organização muito semelhante à nossa passou de 140 para 26 colaboradores no último ano. A volatilidade, a desigualdade e outros fatores estão destruindo o sentido da sociedade. Em suma, o contrato social está sendo enfraquecido. E, se somarmos a isso outros vetores, torna-se cada vez mais difícil preservar esse contrato social.

O Brasil - eu diria, o mundo - vive sob a égide do medo, em diferentes situações e graus. Qual o papel do medo dentro do sistema tradicional de gerenciar Estados e políticas públicas?

Eu diria que, em um nível macroeconômico, utilizamos a economia para instrumentalizar as pessoas. O que quero dizer com isso é que, se você reduz a poupança dos indivíduos, eles acabam sendo forçados a trabalhar. Se observarmos os últimos 30 anos sob a influência da Escola de Chicago, notamos que todas as políticas governamentais visam a forçar as pessoas ao trabalho - essa é, inclusive, a linguagem que utilizam: "Forçar as pessoas ao trabalho". Eu diria que estamos aprisionados por uma lógica centrada no trabalho. Estamos presos à ideia de nos enxergarmos como unidades de trabalho, unidades de tempo. Criamos, portanto, um sistema voltado à instrumentalização da economia, o que foi feito por meio da precarização, tornando as pessoas mais vulneráveis. À medida que a população envelhece - incluindo a classe média -, essa precariedade acaba potencializando o medo. Acredito que construímos, de forma sistêmica, uma espécie de "psicogeografia do medo" como um mecanismo para manter a população instrumentalizável, algo bastante contundente. O problema é que esse medo acaba se transformando em outras manifestações. Diante dele, as pessoas buscam segurança e, por isso, votam em quem lhes oferece essa garantia. Ou seja, estamos convertendo o medo em uma busca por certeza. A questão é que esse medo e essa volatilidade tendem a nos empurrar em direção a governos autoritários.

Qual o papel da polarização nesse cenário de medo?

Ao falar sobre o assunto, acabamos gerando dois efeitos. Primeiro, permitimos que a polarização se torne o foco central do debate. Existe uma discussão muito instigante sobre como certas conversas acabam criando sua própria realidade. Explicando melhor: se continuarmos falando sobre polarização, abriremos espaço para que a relação entre você e eu se torne polarizada. Ao afirmarmos que "é isso o que está acontecendo", acabamos desempenhando nossos papéis dentro dessa polarização. Eu, pelo menos, não faço isso. Não quero criar uma dinâmica de "você contra mim". Isso não funciona. É um cenário em que todos perdem. Você perde, eu perco.

Se não falamos sobre o assunto, a polarização não existe?

Acho que esse é um aspecto. Outro ponto seria questionar: o que é, de fato, essa separação polarizada? Do que ela trata, fundamentalmente? Acredito que, na essência, ela diz respeito a diferentes tipos de vulnerabilidades e a diferentes visões de futuro que buscam lidar com essas vulnerabilidades. Precisamos de um enfoque diferente, que não parta da premissa de que o "outro lado" é composto por idiotas, mas que reconheça, de fato, a raiz da questão. O Brexit é um bom caso. Falou-se do Brexit como uma crise econômica e uma crise de desigualdade. Para mim, o Brexit foi uma crise de sentido. O que significa ser britânico? Aliás, o que significa ser brasileiro? No Reino Unido, houve um "autodano" econômico em nome dessa crise de sentido - porque o sentido é mais importante do que a economia. Acredito que, se falarmos sobre a crise de sentido, a polarização se torna menos relevante.

A crise de sentido poderia estar por trás do avanço da religião na política?

É algo que ocorre de forma quase automática. Veja o caso do Peter Thiel (cofundador do PayPal que se define como cristão ortodoxo e ganhou destaque recentemente com uma série de palestras e conferências internacionais focadas na figura bíblica do Anticristo), que fala, fundamentalmente, sobre a "engenharia da fé". Não é um discurso enraizado na distribuição de bens materiais, e sim na distribuição de fé e sentido. E são a fé e o sentido que geram a intenção de construir o futuro, enquanto a mercadoria é apenas uma distribuição do presente. Portanto, perdemos o território. Já nem estamos jogando no mesmo campo. E não estou falando de religião. Estou falando de fé. Fé no futuro, no que significa ser humano.

Qual a perspectiva de futuro da juventude?

Se você é jovem - como meu filho, que está estudando -, a sensação é de que não haverá empregos ao final dessa trajetória. Todos os futuros que poderíamos ter oferecido a eles estão morrendo a seus olhos. Diante disso, a postura política que eles adotam torna-se perfeitamente racional. Se não formos capazes de demonstrar empatia - reconhecendo que a morte de um futuro é algo real (afinal, quando seu futuro morre, uma parte de você, de seus sonhos e de suas ideias também morre) -, não estaremos enxergando a realidade.

Qual o papel da filantropia nessa busca por ir mais longe?

Estamos em um momento em que a riqueza se consolidou. Surge, então, uma questão, que considero filosoficamente muito importante: será que, para remover essa riqueza, acabamos criando a tirania do Estado? Preocupo-me tanto com a tirania do Estado quanto com a concentração de capital. A questão é se, diante da concentração de capital fundamentada em vínculos com o futuro, seria possível forjar um novo tipo de aliança. É algo concreto. Não no sentido de eu ser gentil com você ou lhe dar algum dinheiro; trata-se, na verdade, de algo como "você está salvando a minha vida, e eu estou salvando a sua". Não se trata de benevolência, mas de uma missão compartilhada, um entrelaçamento de interesses mútuos. É aí que entra a questão: o capital precisa compreender que isso é uma questão de sobrevivência para ele mesmo. Uma vez que se entende isso, é preciso ter humildade. Afinal, nossos destinos estão interligados.

Estadão
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