'A melhor forma de mitigar as mudanças climáticas está na saúde do solo', diz CEO da Yara Brasil
Para Marcelo Altieri, COP-30 servirá como uma vitrine para o Brasil mostrar que, de fato, está na 'vanguarda' da produção agrícola sustentável
A cadeia de produção de fertilizantes é estratégica para um país que tem o agronegócio entre seus pilares - como é o caso do Brasil. E, se a autossuficiência nacional ainda está longe, diminuir as emissões do setor é uma rota viável, segundo Marcelo Altieri, presidente da Yara Brasil - grupo que surgiu dentro da norueguesa Hydro e passou a ter vida própria em 2004.
Alguns agricultores brasileiros, principalmente do setor do café, já estão se beneficiando de produtos da empresa que prometem eficiência e menos agressão ao meio ambiente, de acordo com o executivo.
Altieri diz estar superotimista com a realização da COP-30 em Belém, uma vez que a reunião servirá como uma vitrine para o Brasil mostrar que, de fato, está na "vanguarda" da produção agrícola.
A seguir, os principais trechos da entrevista, que pode ser assistida na íntegra no vídeo acima.
Quais as rotas que vocês estão usando para deixar o negócio da Yara mais sustentável?
Nossa rota está conectada com nossas origens. Em 2025, a Yara celebra 120 anos, nascida de uma inovação totalmente ligada à sustentabilidade: a captura de nitrogênio do ar em um grânulo de fertilizante, feita com energia hidrelétrica, lá na Noruega. Hoje, continuamos com essa responsabilidade, enfrentando o desafio da mudança climática.
E como essa história se conecta com a operação no Brasil hoje?
A Yara Brasil está voltando a produzir amônia renovável, agora usando biometano produzido a partir de resíduos da indústria sucroalcooleira. Com essa amônia renovável, produzimos fertilizantes que criam um ciclo de economia circular, capturando carbono em vez de emitir. É um começo, ainda pequeno, mas com grande potencial de descarbonizar toda a cadeia alimentícia.
Vocês já têm exemplos práticos com fertilizantes menos poluentes?
Recentemente, tivemos a primeira colheita de café usando fertilizante de baixa pegada, com a linha Yara Climate Choice. Em parceria com a Cooxupé, 30 agricultores em Minas e São Paulo aumentaram a produtividade em 20% e reduziram 40% da pegada de carbono. Esse café será mostrado na COP-30.
E, neste caso do café, como garantir que sustentabilidade e economia andem juntas?
Trabalhamos com toda a cadeia: agricultor, cooperativa e consumidor final. O mercado reconhece e paga um prêmio pelo café de baixa emissão, compartilhando benefícios sem sobrecarregar o agricultor.
Além do café, há outras culturas com esse modelo?
Temos a produção de cacau em parceria com a Barry Callebaut, o caso da batata na América Latina, e todo o nosso portfólio nitrogenado já tem baixa emissão de carbono. Desde 2005 investimos em tecnologias para reduzir emissões, como catalisadores e energia renovável, alcançando até 90% de menor pegada em alguns produtos.
Quanto o biometano representa na demanda de vocês?
Apenas 3% do gás usado hoje é biometano, e o resto é gás natural. A migração total depende de investimentos em infraestrutura e articulação entre setor público, privado e indústria. Mas o Brasil está muito bem posicionado para isso. Falta a questão logística. Investir nas conexões. Todos temos de trabalhar juntos para conseguir destravar esses gargalos.
Além do biometano, o hidrogênio verde também é uma possibilidade para vocês?
Sim. Você consegue, através do biometano, fazer amônia e, depois, da amônia, consegue hidrogênio. Também consegue produzir hidrogênio com hidrólise, quebrando a molécula de água, obtendo hidrogênio e oxigênio. Quando existe a combinação com o nitrogênio do ar, consegue-se produzir amônia. Temos um exemplo funcionando em Porsgrunn, na Noruega, na nossa planta-piloto de produção de hidrogênio via hidrólise usando energia hidrelétrica. E há outros mecanismos para baixar emissões, como captura de carbono e armazenamento (CCS, Carbon Capture and Storage). Você utiliza gás natural no processo produtivo, mas não libera CO2 para a atmosfera - o gás é capturado e armazenado. Temos um exemplo em uma fábrica na Holanda, onde, durante o processo produtivo, capturamos carbono, colocamos em um barco, levamos ao Mar do Norte, na Noruega, e injetamos em poços de petróleo antigos, ficando selado.
Qual a sua avaliação sobre a COP-30 no Brasil?
A COP-30 é a oportunidade de mostrar ao mundo como o Brasil está na vanguarda, produzindo alimentos sustentáveis e gerindo os desafios da população crescente e das mudanças climáticas. A melhor forma de mitigar mudanças climáticas está no solo, nos 20 centímetros que sustentam todo o sistema alimentar. A COP-30 também é chance de gerar parcerias entre governo, setor privado e investidores para um futuro alimentar positivo para a natureza. Estou superotimista. É o momento de mostrar o que fazemos bem e criar soluções coletivas.