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A área econômica não tem plano, estratégia ou independência operacional

A sofrida nau Brasil, com sua âncora fiscal de isopor, navega sem teto e sem comando rumo ao crescimento zero em 2022

27 jan 2022 04h10
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Expectativas movem a economia e esperanças encorajam o viver. Na virada do calendário, o "mercado" forma expectativa - autorrealizável - da trajetória da economia, não só pela razão gregoriana, mas por esperar mudanças na gestão econômica. O povo, de outro lado, se enche de esperança por mais empregos, vacinas, saúde e menos fome, ódio e mentiras. É o tal feliz ano novo.

Nestes tempos escuros, com a nau Brasil à deriva em plena tempestade sanitária, só a desinformação pode levar à aposta de trajetória ascendente da economia com prosperidade, justiça social e governança sadia em 2022: o comandante abandonou o timão e sua inepta equipe, qual o cavalo do jagunço Riobaldo, até respira do mesmo jeito.

A área econômica terceirizou a gestão do Orçamento e tenta iludir o mercado com discursos risíveis.
A área econômica terceirizou a gestão do Orçamento e tenta iludir o mercado com discursos risíveis.
Foto: Marcelo Casall Jr./Agência Brasil / Estadão

A área econômica, coração da administração, não tem plano, estratégia ou independência operacional. Terceirizou a gestão do Orçamento para o insaciável Centrão e tenta iludir o mercado com discursos risíveis. É verdade que, apesar da sabotagem presidencial, foi aprovada tímida reforma previdenciária e independência do Banco Central, mas jazem nas gavetas brasilienses projetos de reformas estruturantes, como a tributária e a administrativa.

O desequilíbrio fiscal, calcanhar de Aquiles da economia, tem efeitos desastrosos sobre a taxa de inflação, que, ao inchar a receita tributária, camufla o buraco das contas públicas. Desde janeiro de 2019 até novembro de 2021, o governo federal somou déficit primário (receitas menos despesas não financeiras) de R$ 915,2 bilhões (no ano que ora se inicia o buraco fiscal não ficará abaixo de R$100 bilhões). Por decorrência, a dívida pública, que em dezembro de 2018 somava R$ 5,499 bilhões, saltou para R$ 6,979 bilhões em novembro de 2021. A relação dívida/PIB caiu, mas de forma ilusória por conta da obesidade inflacionária do PIB nominal.

A farra fiscal, além de inflar a dívida pública, provoca febre inflacionária no organismo econômico e exige dipirona monetária (alta na taxa básica de juros) para esfriar a demanda: juros mais altos reduzem investimento, consumo, emprego e, com um pouco de sorte, a taxa de inflação. Além de encolher o PIB e sinalizar ao mercado a fragilidade em honrar a oceânica dívida pública - o que impacta a taxa de juros de longo prazo -, esse amargo remédio tem outro perverso efeito colateral: juros mais altos aumentam o serviço da dívida pública, o que agrava a infecção fiscal e exige cada vez mais dipirona monetária (novos aumentos na taxa Selic) em ciranda infernal que obscurece o futuro do País sabe Deus até quando.

E a sofrida nau Brasil, com sua âncora fiscal de isopor, navega sem teto e sem comando rumo ao crescimento zero em 2022.

*ECONOMISTA, EX COORDENADOR DA ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA PAULISTA E SÓCIO DA CP CONSULTORES ASSOCIADOS. E-MAIL: CLOVIS@CPCONSULTORES.COM.BR

Estadão
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