'Partido Alto' estreou há 25 anos recheada por falcatruas
Partido Alto completa bodas de prata esta semana sem perder a contemporaneidade. A trama das oito da Globo, exibida de 7 de maio a 24 de novembro de 1984, ficou marcada na história da teledramaturgia. Primeiro, por mostrar com mais profundidade o mundo do jogo de bicho - anteriormente enfocado na novela Bandeira 2, em 1971 -, e seus esquemas de corrupção.
Além disso, explorou o universo do samba justamente no ano em que a Globo perdeu os direitos de exibição dos desfiles do Rio para a Manchete, que alcançou uma audiência de mais de 80 pontos de média. Como se não bastasse, a novela chegou a ser alvo da censura justamente no momento em que o país, animado pela possibilidade de votar nas eleições presidenciais após os anos de chumbo, se unia no movimento das Diretas Já!.
Além disso, foi a primeira produção em que Glória Perez e Aguinaldo Silva assinavam como autores oficiais de novela. Anteriormente, Aguinaldo só havia escrito minisséries. Já Glória, era colaboradora de Janete Clair. No entanto, a estreia em dose dupla logo virou uma trama de mão única. Já no primeiro mês no ar, Glória e Aguinaldo se desentenderam e a autora passou a conduzir a história sozinha. "Sabe que não me lembro de nada? Minha memória não alcança mais essa época", desconversa Aguinaldo.
Mas grande parte do elenco não só lembra da história, mas das mudanças que ocorreram na trama com o desentendimento dos autores. A desunião se refletiu na baixíssima audiência para a época ¿ a produção teve média de 52 pontos de audiência. A história central, no entanto, foi sustentada por personagens carismáticos que se dividiam entre o bairro do Encantado, no subúrbio carioca, e a Zona Sul do Rio.
Os protagonistas eram interpretados por Elizabeth Savalla e Herson Capri, como Isadora e Sérgio. Ela vivia uma mulher determinada, filha do rico industrial Amoedo, de Rubens Corrêa. O papel de Herson, um empresário sedutor e bem-sucedido, só pensava em dinheiro. Mas, quando Isadora decide se separar, se envolve com o professor Maurício, de Claudio Marzo, que era assediado pela jovem Celina, de Glória Pires.
Durante a separação, Isadora enfrenta a dura revolta do marido, que se mostra um mau-caráter ao roubar o sogro na empresa. "As pessoas me chamavam de ladrão nas ruas. Foi um dos meus melhores papéis. Lembro da segurança do Roberto Talma ao dirigir as cenas. Ele conversava 40 minutos no estúdio e depois falava: 'vamos trabalhar um pouquinho?'", diverte-se Herson, ao citar o diretor geral da novela.
O enfoque social e os núcleos suburbanos já denunciavam a assinatura de Glória Perez e Aguinaldo Silva que, nos trabalhos seguintes, priorizaram essa abordagem social. Na trama, o subúrbio do Encantado era "chefiado" pelo bicheiro Célio Cruz, do falecido Raul Cortez. Temido e respeitado pelos moradores, ele tinha como braço-direito o fiel Reginaldo, de Milton Gonçalves. Politizado e absorvido pelo movimento das Diretas, Já!, Milton se dividia entre as gravações da novela e as viagens para os comícios pelo Brasil. "Um dia subi num palanque com o Tancredo Neves e o povo gritou: 'Reginaldo! Reginaldo!'. Fiquei morrendo de vergonha", lembra Milton.
Igualmente engajada na época com a política era Christiane Torloni, que interpretava a sedutora Selma. "O diretor Paulo Ubiratan ficava enlouquecido comigo porque viajava muito para comícios e tinha de conciliar com as gravações.
Política e trabalho se misturavam", ressalta Christiane, que após a novela estampou a capa da Playboy. Igualmente sedutora na trama era a passista e manicure Jussara, interpretada por Betty Faria. No último capítulo da história, foi gravada uma cena no Centro do Rio com 20 mil pessoas que acompanharam as tomadas de um desfile de Carnaval por 12 horas.
À frente da bateria estava Jussara, que era amante do bicheiro Célio e ex-mulher do bandidão Escadinha, de Ney Latorraca, que só apareceu nos primeiros capítulos da novela, pois foi envenenado com um bombom. Outro golpista que se destacou na trama foi Políbio, o falso vidente de Guilherme Karan, que estreou na história contracenando com a fútil Gildinha, de Suzana Vieira. "Lembro muito da Escola de Samba Acadêmicos do Encantado, que a Glória criou. Tive um retorno enorme do público, foi delicioso", derrete-se Betty Faria.