Globo resgata novela que chocou com personagem homossexual e virou fracasso de autor
Diretor da trama também admitiu falta de envolvimento emocional com o projeto
Uma das obras mais controversas da teledramaturgia brasileira está prestes a ganhar uma nova chance diante do público. Escrita por Gilberto Braga, Brilhante (1981) será disponibilizada no catálogo do Globoplay em uma versão especial — reacendendo o interesse por uma trama que, apesar do elenco estrelado e da ambição estética, entrou para a história como um dos maiores tropeços do consagrado novelista.
Considerada por muitos anos uma novela "perdida", Brilhante foi resgatada a partir de um compacto originalmente editado para o mercado internacional. A informação é do jornalista Duh Secco do Notícias da TV. De acordo com ele, a TV Globo remontou o material, recuperando elementos como abertura e vinhetas clássicas, para adaptá-lo ao streaming. No entanto, diferentemente da versão original exibida entre 1981 e 1982, com 155 capítulos, a nova edição terá cerca de 70 episódios condensados.
Ainda de acordo com a reportagem, a emissora tenta driblar questões jurídicas para disponibilizar a obra em sua plataforma, não havendo assim uma data para seu retorno, bem como o de Final Feliz, outro folhetim recuperado pelo canal carioca.
Polêmica e censura marcaram a trama
Exibida no horário nobre, a novela chamou atenção ao abordar — ainda que de forma limitada — a homossexualidade de Inácio, personagem vivido por Dennis Carvalho. Em plena Ditadura Militar, o tema enfrentou forte censura, que proibia até mesmo o uso da palavra "homossexual" nos diálogos.
A trama girava em torno da poderosa família Newman, liderada por Chica, interpretada por Fernanda Montenegro, que tentava forçar o filho a seguir padrões sociais da época. O conflito, que poderia ser central e inovador, acabou esvaziado pelas intervenções dos censores, comprometendo o desenvolvimento da narrativa.
Um fracasso admitido pelo próprio autor
Apesar da expectativa, Brilhante não conquistou o público. Problemas no roteiro, excesso de referências a obras estrangeiras e uma condução considerada confusa fizeram a novela sofrer rejeição logo no início.
O próprio Gilberto Braga reconheceu as falhas anos depois, classificando a obra como "muito mal bolada" e com uma "história impossível de contar". O diretor Daniel Filho também admitiu falta de envolvimento emocional com o projeto, o que teria contribuído para o resultado final.
Ainda assim, a produção contou com nomes de peso como Vera Fischer, Tarcísio Meira e Renata Sorrah, além de marcar época por sua estética sofisticada e bastidores curiosos — como o acidente durante a gravação de um desastre aéreo no primeiro capítulo.
Entre fracasso e curiosidade histórica
Mesmo com todos os problemas, Brilhante conquistou, ao longo dos anos, um status de obra cult entre fãs de teledramaturgia. Parte desse interesse se deve justamente aos bastidores conturbados, às interferências da censura e ao fato de abordar temas considerados ousados para a época.
A volta da novela ao catálogo do Globoplay representa não apenas um resgate histórico, mas também uma oportunidade de revisitar um capítulo peculiar da televisão brasileira — em que ambição, limitação e contexto político se misturaram em uma produção tão problemática quanto fascinante.
Agora, resta ao público decidir: será que Brilhante ganha novos olhares ou reafirma seu lugar como um dos fracassos mais emblemáticos da dramaturgia nacional?
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