Leonardo Miggiorin se destaca na pele do gay Roni em 'Insensato'
- Márcio Maio
Vários atores dispensam papéis de gays na TV. Principalmente quando demanda uma interpretação mais expansiva, com medo de ficarem marcados por traços caricatos da maioria desses personagens. Mas Leonardo Miggiorin nem deu tempo para que tais pensamentos passassem por sua cabeça. Disposto a trabalhar no folhetim de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, o ator garante que se esforçou ao máximo para agradar nos testes do afetado Roni de Insensato Coração, mesmo depois de 11 anos de carreira na TV.
"Seria incabível para mim recusar um teste para uma novela das nove. E é hipócrita criticar um personagem assim. Se as novelas refletem a sociedade, precisam representar diversos tipos. E existem vários gays como o Roni pelas ruas", defende. Aos 29 anos, Leonardo se aventura também na música. O ator é o vocalista da banda Vista e compõe algumas letras. Mas ainda não se considera um cantor. "Prefiro dizer que sou alguém que atua e canta. Não tenho a intenção de virar um popstar, mas também não vou morrer frustrado", explica.
TV Press - Como surgiu a possibilidade de integrar o elenco de Insensato Coração?
Miggiorin - No final de Viver a Vida, escrevi para o Gilberto Braga. Disse que admirava muito o seu trabalho, que gostava da estética e queria, um dia, poder trabalhar com ele. Aí, ele pensou em mim para um teste, já para esse personagem. O texto é muito evidente, já vem com os trejeitos, com o tipo de linguagem. E eu não estaria indo de acordo com a proposta se quisesse imprimir algo diferente. O Roni tem uma função meio de abre-alas, iniciando a discussão sobre diversidade sexual. E chegando a assuntos mais sérios, como a homofobia.
TV Press - Você sentiu receio de críticas por interpretar um gay mais afetado?
Miggiorin - Até existiu, no início, um comentário que soava como uma reclamação de que estaria caricato. Os próprios gays reclamaram. Mas foram só nas primeiras cenas. Depois, as pessoas viram que o personagem tinha outras características além da afetação. A novela traz personagens homossexuais com várias tintas. Tem o gay que não aparenta, tem o mais expansivo, tem o que ainda não sabe... A gente já sabe que o gay não precisa ser afetado, mas acho importante mostrar que também pode ser. Isso não é um problema. E o Roni passa essa ideia. Seria muito hipócrita a gente não embarcar nessa ideia expansiva, que é de diversidade mesmo. A gente vê esses tipos na rua. Conversei com alguns gays assim e que trabalham como promoters, assim como o Roni.
TV Press - Você pensou em recusar esse teste? Algumas pessoas defendem que interpretar um gay pode prejudicar a carreira de um ator...
Miggiorin - Eu até soube que alguns atores recusaram esse teste. Tiveram medo de ficarem marcados, sei lá. Olha, eu tenho 29 anos e sei que minha profissão é de alto risco. Tudo pode dar desde muito certo a muito errado. É um trabalho feito de escolhas. Um caminho que eu tome aqui vai refletir lá na frente, positivamente ou não. Só o tempo mostra isso. Na minha opinião, recusar uma oportunidade em uma novela das nove e assinada pelo Gilberto Braga e pelo Ricardo Linhares, nesse momento da minha vida, seria incabível. E não consigo me definir dentro de um perfil. Fiz coisas bem distintas sempre. Acho que o ator tem de ousar mesmo, tem de acreditar que vai dar certo e ir de cabeça nos trabalhos que são diferenciados. Ao longo desses anos de carreira, deixei para trás algumas expectativas que eu tinha sobre meu trabalho.
TV Press - Quais?
Miggiorin - Ah, se um dia vou virar galã, ficar rico, ser muito famoso. Ou não... Eu abandonei esses pensamentos. É claro que eles pintam quando você começa, ainda mais quando é novo. Mas o que importa é trabalhar, fazer um bom personagem e sempre bem feito. Se eu fizer bem feito, o papel vai trazer outros. Às vezes, as pessoas deixam de ousar por medos, receio de ouvir uma piada, mas isso vai ter sempre na carreira de um artista. Temos de estar acima de questões individuais que, sinceramente, julgo menores que nosso trabalho. Somos, de certa forma, um canal de comunicação. Nunca vou ter controle sobre como as pessoas vão receber as minhas cenas. Mas vou deixar de fazer meu trabalho por isso? Não dá. O Roni, por exemplo, tem várias características que ainda podem ser exploradas. Sinto que esse personagem ainda vai me trazer muitas alegrias.
TV Press - A novela vai abordar a questão da homofobia. Você já sabe quando e como isso será tratado?
Miggiorin - Aos poucos, já vimos algumas cenas que falam sobre isso. Eu mesmo fiquei muito feliz quando gravei uma cena do Roni respondendo uma agressão verbal do Kleber, personagem do Cássio Gabus Mendes. Mostrou um lado mais maduro e humano desse personagem, outro tom. Essa discussão abre uma nova possibilidade e já dá início a esse combate ao preconceito. Até escrevi para o Gilberto para agradecer a oportunidade de participar de uma causa tão nobre. O mundo evoluiu muito tecnologicamente, mas as relações interpessoais, relacionadas ao afeto, principalmente, ainda não evoluíram tanto. Diferenças sempre vão existir, mas a gente está em um ponto do planeta em que certas questões têm de acabar. Não sei se o Roni vai sofrer agressão, se ele vai ser vítima de um ataque, mas já fiquei feliz por participar disso.
TV Press - O Roni trabalha como promoter. Você fez laboratório por conta disso?
Miggiorin - Tenho muitos amigos que trabalham nessa área e bati alguns papos bacanas com eles. Até para sentir um pouco qual é a rotina de um promoter e por que ele se associa às estrelas. A verdade é que eles querem crescer nesse meio. Eu assisti também a um documentário que é a base do Roni, o Dzi Croquettes. É sobre um grupo de teatro brasileiro que fez muito sucesso na década de 70, uma época de ditadura, de muita repressão. E o Dennis sugeriu que eu me inspirasse na Cláudia Raia. Por conta do astral dela e dessa coisa expansiva que o Roni tem. Aproveitei isso.
TV Press - Em seu último trabalho, Viver a Vida, você estava mais forte. Você emagreceu para Insensato Coração?
Miggiorin - Emagreci um pouco, sim. Achei que estava inchado e que o Roni não ficaria tão legal assim. Eu queria ficar menos forte, mais definido. Em Viver a Vida, quando recebi o personagem, só sabia que ele ia ser de Búzios. Então, fui tomar sol e malhar. Mais para o final da novela eu diminuí o ritmo. Mas o vídeo é engraçado, eu malho dois dias e parece que estou "bombado". E nunca tomei anabolizante nenhum! Para o Roni, achei prudente aparecer com um visual um pouco mais frágil, delicado. Essa foi a minha intenção.
TV Press - Além de atuar, você dedica seu tempo também à banda Vista. Pretende investir em uma carreira de cantor?
Miggiorin - Tenho muita vontade de apostar no lado da composição, de escrever letras. Sempre gostei de poesia, desde quando era pequeno. De brincar com a sonoridade. Encaixar palavras que rimem e buscar um conteúdo para aquilo é muito difícil. E tenho muita vontade que isso dê certo. Que alguém grave uma música minha, que nossas canções toquem nas rádios. Não é que eu queira virar um popstar, mas frustrado não vou morrer. Se eu quiser escrever, gravar, por que não? Ainda mais hoje em dia, que a gente tem o apoio da tecnologia. Mas não me considero um cantor, sou alguém que atua e canta. Tenho quatro anos de banda e até hoje não mostro nosso material para qualquer pessoa, não coloco as músicas em qualquer lugar.
Dupla jornada
A ideia de cantar sempre passou pela cabeça de Leonardo. O "estalo" veio mesmo quando se envolveu no projeto de um seriado independente que foi gravado, mas não foi vendido para nenhuma emissora. No programa, ele interpreta um cantor de uma banda de garagem. Assim como no roteiro, Leonardo juntou um grupo e formou a banda Vista. Mas sem grandes aspirações. Pelo menos por enquanto.
"A gente preferiu ensaiar e estudar bastante no tempo que dava. Minha carreira de ator vem dando certo, tenho trabalhado muito e não quero fazer tudo de qualquer jeito. Cada coisa tem seu tempo", pondera. De qualquer forma, é possível ouvir algumas músicas do grupo na página http://www.myspace.com/vistaoficial.
Além de se dedicar à música, Leonardo também trabalha na produção de um espetáculo que pretende montar no segundo semestre. Como Insensato Coração deve se encerrar em agosto, é possível que o ator emende a novela na peça. "Trata-se de uma comédia italiana e é meu primeiro projeto com a minha empresa. Vou fazer com a Nicete Bruno", adianta ele, que agora corre atrás do patrocínio. "Esse é um passo importante na minha carreira", gaba-se.
Veia artística
Filho de militar, Leonardo Miggiorin se acostumou a viver em cidades diferentes desde muito jovem. E, nessas mudanças, aproveitou para experimentar diversos cursos. O de Teatro veio aos 12 anos, no Rio de Janeiro, onde o mineiro de Barbacena passou uma temporada. Na época, uma namoradinha decidiu ingressar nas aulas na Ilha do Governador, Zona Norte carioca, e o garoto resolveu acompanhá-la. Ela desistiu da carreira. Já ele estreou na tevê em 1999, no folhetim infantil Flora Encantada, exibido dentro do programa Angel Mix, de Angélica. "No fundo, desde muito novo, o palco me fascina. E eu já curtia novelas", lembra.
Pouco tempo depois, confessa, chegou a passar por uma crise existencial. Ficou em dúvida sobre o que queria de seu futuro até assistir a uma entrevista com a dramaturga e atriz Denise Stoklos. "Foi a partir daí que eu decidi que era isso mesmo que queria ser para o resto da vida. Entendi que eu não queria só trabalhar na Globo, mas sim ser ator. Eu sempre quis fazer novela, mas nem sempre rola. Tem de estar consciente", analisa.
Mas logo sua aparição marcante na minissérie Presença de Anita, na pele do adolescente Zezinho, abriu as portas da emissora. Tanto que até hoje é um de seus trabalhos mais lembrados. "Há papéis que a gente faz e pouco tempo depois, quase ninguém lembra. E há aqueles que o tempo não é capaz de apagar. O Zezinho é um desses", valoriza Miggiorin, que também se destacou como o rebelde Shaolin, de Senhora do Destino.