Humberto Martins reforça drama com Ramiro em 'Caminho'
Os últimos personagens de Humberto Martins têm sido profundos e com histórias dramáticas. O intérprete de Ramiro, em Caminho das Índias continua com o mesmo ar seguro e reservado de anos de carreira. Mas a identificação do ator com seus personagens mudou.
Ele sente que a intensidade dramática da nova fase chegou em decorrência da idade e da experiência profissional. E principalmente depois de abandonar os tipos machões e descamisados que interpretou. O último deles foi em Kubanacan, em 2003.
A partir de América, em 2005, Humberto sente que tudo foi diferente. E o caminho tem dado certo. Tanto que seus papéis têm tido mais destaques dentro das tramas. Foi assim em Beleza Pura, em 2008, e está sendo na faixa das oito.
"Receber personagens mais dramáticos ocorreu naturalmente, com os anos de experiência. Isso teria de acontecer mais cedo ou mais tarde", justifica.
Na pele do "predador" Ramiro, como o ator mesmo gosta de classificar, Humberto tende a se mostrar como um profissional em processo de descoberta, que gosta de entender todos os pontos de seu personagem. Mas não chega a defendê-lo.
Acha uma atitude normal que um pai cobre uma vida de trabalho do filho, porém não admite que uma família renegue um membro por conta de uma doença, como acontece em Caminho das Índias.
"Sei todas as problemáticas do Ramiro. Ele faz manobras, é capitalista. Mas não quero defender ninguém nessa história. Podem falar mal dele sem problemas", afirma Humberto, que acrescenta que tem ouvido bastantes reclamações para que seja bom com o filho da ficção.
O Ramiro é um personagem com uma carga muito dramática forte. E você já vem desenvolvendo personagens assim nos últimos anos...
Digo sempre que o Ramiro é um mistério a ser descoberto. E a cada leitura que faço dele, vou descobrindo uma nova história, um novo sentimento, o que é maravilhoso em um personagem. Essa postura autoritária e arrogante é difícil de ser trabalhada. Ainda estava interpretando o Renato em Beleza Pura quando soube do Ramiro epensei: "Ah, é só eu tirar o lado humano todo" (risos). Não é fácil. Mas esse momento da história da loucura do filho é o caos dele. E é isso que tenho de mostrar na novela, é o ponto alto do personagem, com um drama puramente verdadeiro.
E esse momento do personagem e seucomportamento na trama é o que tem motivado você?
Com certeza. Pessoalmente fico gelado na hora em que estou gravando. Chega a me dar sono de tanto que me concentro. Já pensei que isso poderia acontecer com um filho meu e é uma dor muito grande. A própria Glória Perez me definiu que o personagem acha que o mundo está pronto para ele. Utilizo o texto dela como referência, faço uma visão da cena e vejo se a visão que escolhi está dentro do contexto, no ritmo da trama. Isso é uma história de vida, que muitos devem ter por aí. Não pode ser feita de qualquer jeito. Fico imaginando quantos Ramiros e Tarsos têm no mundo. Não é superficial. Preciso trabalhar muito para que tudo saia do jeito que quero. Sou um pouco crítico comigo no trabalho, mas sem ser massacrante ao mesmo tempo.
Nos início dos anos 90, você ficou marcado por personagens descamisados e metidos a galã. Como foi sair desta fase?
Foi uma mudança natural na minha carreira, que teria de acontecer mais cedo ou mais tarde. Fiz cenas de drama nessa época, mas as pessoas e a mídia só focavam no meu corpo, no físico. Rotulavam a coisa da sensualidade, em uma época que o "fitness" e o corpo estavam em evidência. Mas vejo que isso era uma identificação da época, por isso o lado dramatúrgico não era muito visto.
Mas não procuram mais para fazer tipos assim?
Não. Acho que existem épocas e isso tudo se modifica. Vejo que a minha transição na carreira existiu na emissora também, em termos de escalação. Já estava indo para uma idade que não tinha mais condições de me botarem de camiseta ou sem ela. E para que quero isso? Para me chamarem de coroa exibido? Estou fora mesmo. Já passou.
E se aparecesse algum personagem assim daqui para frente?
Só se for na temática do "coroa exibido" mesmo para eu mostrar novamente o físico. Se fosse uma proposta cênica interessante, tudo bem. Mas ando meio traumatizado com isso, vai ser difícil me convencer agora. Não por conta do meu corpo, mas por um contexto de carreira e de enfoque, dos meus objetivos. Esta agora é mais uma etapa, mais um período. O que eu fiz já foi.
Você chega a assistir novelas antigas das quais participou?
Tenho vários trabalhos guardados e assisto para poder entender a época, lembrar qual era minha maneira de trabalhar, minha maneira de pensar. Faço isso como uma análise profissional e crítica. Me interessa ver em que estágio estava. E isso serve até para que eu entenda um ator jovem que trabalha do meu lado. É quase um estudo. Sei que existem estilos, épocas e isso tudo se modifica. Não cobro nada de mim em relação ao passado.
E nesses 20 anos na TV, o que mudou profissionalmente?
Não conto nem quantos anos tenho de carreira. Mas acho que passei a ser mais respeitado, pois já fui tratado de maneira muito desigual. Tive de mostrar do que eu era capaz. Eu vou levando, não é um costume meu contabilizar nada. Falo que minha vida é um barco a vela. Vejo o que vai chegando até mim. O que me preocupa é ter um bom trabalho, fazer um trabalho em equipe, ao lado da autora, da produtora, da maquiadora. Sempre fiz tudo em conjunto, desde que cheguei aqui.
E com esse personagem atual, foi assim também?
Lógico. Não consigo ver um personagem de maneira simplista. Antes de ir para o camarim, tracei um perfil psicológico dele e fiz anotações de como ele se vestiria. Fui até a figurinista e fiz prova de mais de 40 peças até acharmos o estilo do personagem. Escolhi linhas retas, relógios quadrados, sapatos quadrados. Trabalho com todo o mundo, cada um vai fazendo sua parte e achando o seu. As pessoas tem de ser assim, é o que soma para a carreira.
Já passou pela sua cabeça trabalhar atrás das câmaras?
Por muitas e muitas vezes pensei em ser diretor. Acho que tenho de medir o lado positivo e o negativo. Na verdade, já era para eu estar dirigindo. Até porque, tem tantos diretores por aí e que talvez não tenham a metade da experiência que já tive. Em trabalhos de experimentos mesmo. Mas não sei. Gosto muito de estar com os meus filhos. Querer ser diretor demanda muito mais tempo e responsabilidade do que ser ator. Se for dirigir, não será para fazer qualquer coisa.
Como assim?
Em termos de dedicação pessoal. Se topar um trabalho, tenho de buscar o melhor e fazer o possível para botar tudo de mim no projeto. Isso é o que mais demanda tempo, responsabilidade, disciplina, sobre todos os itens envolvidos. Já rolou convites aqui mesmo na emissora, mas não aceitei. Deixa eu ficar no meu canto, por enquanto. Tenho muito o que aprender também. Minha carreira ainda está na metade.
Nos mínimos detalhes
Humberto Martins diz sentir-se mais do que seguro em sua profissão. Em 20 anos de carreira, tem o hábito de pesquisar tudo sobre o seu personagem. Em Caminho das Índias procurou por Glória Perez e pediu explicações para que entendesse Ramiro. "Ela me disse que o mundo estaria pronto para ele. Um ser capitalista e ponto final", relembra o ator, que recebeu o convite da própria autora para participar da trama.
A explicação é simples. Desde que estreou na TV, em Guerra dos Anjos, em 1989, tem a mania de levar idéias de seu personagem para a gravação, onde pretende que o diretor o ajude, vendo sua voz, sua expressão corporal. O mesmo aconteceu quando interpretou o médico Renato, em Beleza Pura. "Cheguei a dar um tom metálico minha voz, para que ficasse condizente ao personagem e suas características. Acho que pesquisar os mínimos detalhes é o jeito certo de se trabalhar na dramaturgia", afirma.
Parceria reforçada
Autores e diretores sempre têm um elenco de preferência. E, por vezes, Humberto Martins foi o "queridinho" entre alguns como Carlos Lombardi, Benedito Ruy Barbosa e Glória Perez. O ator estava em Beleza Pura, da iniciante Andréa Maltarolli quando recebeu o chamado de Glória Perez, com quem já havia trabalhado em O Clone, Amazônia e América. "Iria de olhos fechados em qualquer ocasião que a Glória me chamasse. Aceito fazer qualquer trabalho junto dela", afirma.
Mas Humberto garante que se encaixa em todos os ambientes de trabalho e não tem predileções com autores. "Lombardi, Benedito são pessoas que acreditaram que eu poderia levar personagens à frente. Com o tempo e com o trabalho feito de maneira responsável, fui mostrando que podia fazer coisas diferentes e consegui respeito", completa.
Trajetória Televisiva
# O Sexo dos Anjos (Globo, 1989) ¿ Otávio.
# Barriga de Aluguel (Globo, 1990) ¿ João dos Santos.
# Pedra Sobre Pedra (Globo, 1992) ¿ Iago.
# Mulheres de Areia (Globo, 1993) ¿ Alaor.
# Quatro por Quatro (Globo, 1994) ¿ Bruno.
# A Madona de Cedro (Globo, 1994) ¿ Maneco.
# Vira-Lata (Globo, 1996) ¿ Lenin.
# Corpo Dourado (Globo, 1998) ¿ Chico.
# Chiquinha Gonzaga (Globo, 1999) ¿ Artur.
# Uga Uga (Globo, 2000) ¿ Bernardo Baldochi.
# O Clone (Globo, 2001) ¿ Aurélio.
# O Quinto dos Infernos (Globo, 2002) ¿ Francisco Gomes.
# Kubanacan (Globo, 2003) ¿ General Carlos Camacho.
# América (Globo, 2005) ¿ Laerte.
# Sinhá Moça (Globo, 2006) ¿ Bruno.
# Pé na Jaca (Globo, 2007) ¿ Merlin.
# Amazônia, de Galvez a Chico Mendes (Globo 2007) ¿ Augusto.
# Beleza Pura (Globo, 2008) ¿ Renato Reis.
# Caminho das Índias (Globo, 2009) ¿ Ramiro Cadore.