Felipe Camargo diz que papel em 'Tempos Modernos' é uma "novidade"
- Arcângela Mota
- Direto do Rio
Felipe Camargo parece carregar consigo o divertido Portinho, seu personagem em Tempos Modernos. Com o cabelo esvoaçado e um semblante despreocupado, o ator de 49 anos se porta com a mesma simplicidade do astrônomo da novela das sete. Mas bastam poucos minutos de conversa para deixar evidente toda a maturidade alcançada ao longo de uma carreira de 24 anos de tevê, repleta de altos e baixos. Agora, após mais de 10 anos fazendo personagens pouco expressivos nas tramas globais, o ator comemora a oportunidade de voltar com um papel de destaque. "A questão não é fazer protagonistas, e sim sentir que você tem muito mais para dar do que os personagens que são oferecidos. O Portinho, para mim, é uma novidade. Completamente diferente do que já fiz", avalia.
A retomada da carreira de Felipe começou com a minissérie Som & Fúria, de Fernando Meirelles, exibida pela Globo no ano passado. E foi na pele do protagonista Dante, um indócil diretor teatral, que Felipe acredita ter vivido o grande personagem de sua carreira. "Sem dúvida, foi o melhor papel que já interpretei. O Dante é um personagem de uma riqueza tão grande que eu nunca tive, e nem sei se vou ter de novo, um papel na tevê com a mesma complexidade", derrete-se.
Após o sucesso na minissérie Som & Fúria no ano passado, Tempos Modernos marca seu retorno às novelas da Globo. Você já consegue definir o peso do Portinho na sua carreira?
A princípio, o Portinho representa uma volta às novelas, no sentido de começar um personagem. Há bastante tempo, na Globo, eu vinha apenas fazendo participações. Isso me deixava um pouco fora, pois tinha de entrar com o bonde andando nessa velocidade que a tevê tem. De certa maneira foi muito bom porque me deu rapidez para pegar os personagens. Mas existe um processo, uma ambientação, que eu nunca pegava e agora voltei a ter. Ganhei um tempo de elaboração maior, o que é muito bom. E o Portinho é um personagem diferente e que me empolga. Neste momento, me sinto realizado.
Como é estar de volta às novelas?
É um prazer. Durante os três anos em que não participei de novelas na Globo fiz outras coisas das quais gostei muito, como teatro, séries e cinema. Mas acho importante fazer novela porque é o feijão com arroz do ator. Se você não capricha no tempero, fica muito sem graça. A gente tem de fazer com cuidado porque é a comida de todo dia. Ninguém aguenta viver só à base de caviar.
O convite para fazer Tempos Modernos veio após sua atuação em Som & Fúria. O que a minissérie representou para você?
Foi o terceiro divisor de águas da minha carreira. O primeiro foi minha estreia no teatro, depois veio minha estréia na tevê em Anos Dourados, já como protagonista, e, mais tarde, Som & Fúria surgiu como uma retomada, uma volta a Globo de uma forma bacana, com espaço para mostrar meu trabalho. Fiquei uns treze anos batalhando por um personagem realmente bom, como é o caso do Dante. A oferta de um papel como esse é um prêmio para qualquer ator. É claro que todo o meu processo de recuperação me deu muita maturidade e vontade de mostrar um trabalho. Mas eu jamais poderia esperar que viesse um personagem da grandeza dele. Foi além das minhas expectativas.
Você passou a receber um tratamento diferente depois da minissérie?
Sem dúvida, passei a ser mais respeitado como ator. Quando o diretor Fernando Meirelles me ligou para fazer o convite, achei que eu era o bagaço da laranja. Depois fui perguntar para ele se vários atores já tinham recusado o papel, e ele disse que o meu nome foi o primeiro no qual ele pensou. Então isso já gera um respeito, uma admiração. E veio em consequência dos anos que tenho de profissão. O Fernando é um grande mestre. É uma pessoa por quem tenho uma gratidão enorme e com quem aprendi bastante durante quatro meses.
Mas você sentiu diferenças dentro do meio artístico?
Acho que sempre tive o respeito dos meus colegas de profissão. Até porque entrar em uma novela no meio e conseguir seguir até o fim com sintonia e integração com o elenco não é fácil. Com certeza tive um respeito maior da imprensa e, consequentemente, do público. Anos Dourados, por exemplo, fiz há 23 anos atrás. Tem gente que nem me viu trabalhando em um papel realmente importante. O Portinho é um personagem que tem um destaque bem legal na trama e, com isso, um novo público pode aprender a me admirar.
Em algum momento você pensou em desistir da carreira de ator?
Nunca. Antes de Som & Fúria aparecer, eu estava de malas prontas para os Estados Unidos. Mas não para desistir. Queria abrir o leque, tentar uma carreira lá fora, por não achar que estava sendo aproveitado aqui. As pessoas não estavam me chamando para trabalhos que acho que poderia encarar. Às vezes via um ator interpretando um papel e olhava sem acreditar. Pensava: "numa boa, acho que eu janto esse rapaz". Parece pretensioso, mas não é. Tenho anos de profissão, gosto de fazer, estudo, trabalho e tenho certo talento. Tem muita gente que eu olho e tenho vontade de mandar ir estudar, fazer teatro, aprender... Para fazer personagenzinhos aqui, preferi ir para o exterior. Pelo menos estaria em um mercado internacional, falando inglês e ganhando em dólar.
Quando essa decisão foi tomada?
Entre Paixões Proibidas, que protagonizei na Band em 2006, e Som & Fúria, fiquei um ano sem trabalhar. Não existe nada pior do que ficar sem fazer nada. Eu ia atuar em uma novela na Record, mas foi adiada e fiquei sem trabalho. Nisso eu já estava há uns quatro, cinco meses sem trabalho. Foi quando fiquei sabendo do adiamento e resolvi sair do Brasil.
Mas você chegou a recusar alguns papéis...
Me chamaram para fazer coisas que não estava mais querendo, como malucos e drogados. Não que eu não goste. Acho muito bacana. Só que eu estava querendo fazer algo diferente. Então declinei algumas propostas. O ator tem de tomar muito cuidado para não ficar estigmatizado com um tipo de personagem. E isso pode acontecer de uma forma muito sutil. Quando vê, só está sendo chamado para fazer papéis de um tipo. Cheguei a ligar para alguns diretores e tentar conseguir algo, mas quando você vê que não dá não adianta ficar forçando.
Hoje em dia, o que mais te preocupa quanto à sua carreira?
Minha maior preocupação é quanto a me acomodar em uma situação ou em uma maneira de interpretar. Se puder, estarei sempre mudando. Talvez a minha primeira ação nesse sentido seja me desmitificar a todo tempo. Acabar com essa imagem de Felipe Camargo que as pessoas criam e olhar sempre para mim. Acho que meu lado profissional melhora, fica mais verdadeiro. O ator, quando cria uma atmosfera hollywoodiana em torno de si, acaba virando um pavão. Acho isso muito perigoso. Gosto de fazer meu trabalho e viver. Não preciso mais provar nada a ninguém.
Tempos Modernos - Globo - De segunda a sábado, às 19h.
Passado burocrático
Felipe Camargo tinha 26 anos quando fez sua estreia na tevê como o protagonista Marcos da minissérie Anos Dourados, exibida em 1986 pela Globo. O interesse pela carreira de ator, no entanto, aconteceu aos 20 anos, na época em que ele trabalhava em Furnas, empresa de geração e transmissão de energia, onde fez pela primeira vez um curso de teatro. "Foi lá que descobri que queria ser ator. Eu era auxiliar de pessoal, fazia os pagamentos de funcionários do Brasil inteiro. Se saiu alguma coisa errada entre 1979 a 1981, a culpa é minha", brinca.
Desde que estreou nos palcos, aos 21 anos, Felipe teve a certeza de que queria seguir a carreira de ator. E garante que, até hoje, mantém o mesmo fôlego de quando começou. "Não tenho medo de procurar trabalho. Já fiz testes em várias fases da minha vida e vou continuar fazendo", afirma. O ator confessa que, como espectador, a área que mais desperta sua paixão é o cinema. Mas garante que, ao interpretar, não faz distinção entre os veículos. "Na hora de fazer gosto de todos, teatro, cinema e tevê. Tudo depende do personagem e da proposta", assegura.
Gênio incompreendido
Felipe Camargo gosta de definir o atrapalhado Portinho, de Tempos Modernos, como um personagem extremamente concentrado, e não um distraído, como ele costuma ser classificado. Na opinião do ator, essa é uma das principais características do papel. "Coloquei essa distração extrema do Portinho como uma concentração excessiva em outra coisa, no caso, o trabalho como cientista. Isso tudo cria nele uma maneira de ver a vida muito diferente", argumenta.
Para alcançar o tom cômico do personagem, Felipe garante que não precisou ir muito longe. Com experiência na comédia, ele garante que se sente à vontade com o gênero. "Volta e meia faço personagens engraçados no teatro. É algo que gosto muito e é ótimo poder fazer em uma novela", diz.
Trajetória Televisiva
# Anos Dourados (Globo, 1986) - Marcos.
# Roda de Fogo (Globo, 1986) - Pedro Garcez.
# Mandala (Globo, 1987) - Édipo Junqueira.
# O Sexo dos Anjos (Globo, 1989) - Adriano.
# Despedida de Solteiro (Globo, 1992) - João Marcos.
# Pátria Minha (Globo, 1994) - Inácio Fonseca.
# A Idade da Loba (Band, 1995) - Otávio.
# Corpo Dourado (Globo, 1998) - Tadeu.
# Andando Nas Nuvens (Globo, 1999) - Bob Lacerda.
# Malhação (Globo, 1999) - Professor Beto.
# Um Anjo Caiu de Céu (Globo, 2001) - Josué.
# A Padroeira (Globo, 2001) - Frei Tomé.
# Senhora do Destino (Globo, 2004) - Dr. Edmundo Cantareira.
# Alma Gêmea (Globo, 2005) - Dr. Julian Enck.
# Cobras & Lagartos (Globo, 2006) - Sidney.
# Paixões Proibidas (Band, 2006) - Alberto de Miranda.
# Filhos do Carnaval (HBO, 2006) - Anesinho.
# Som & Fúria (Globo, 2009) - Dante.
# Tempos Modernos (Globo, 2010) - Portinho.