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Rememorar o drama da Aids é um acerto de Os Dias Eram Assim

A doença é pouco discutida na TV enquanto cresce o número de jovens contaminados

22 ago 2017
19h38
atualizado em 23/8/2017 às 10h57
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A supersérie ‘Os Dias Eram Assim’ é exitosa no Ibope, com média de 21 pontos nos 73 capítulos exibidos desde abril, ainda que não seja um sucesso de repercussão.

No chamado ‘boca a boca’, quase não se comenta a respeito da trama densa e tensa protagonizada por Alice (Sophie Charlotte), Renato (Renato Góes) e Vitor (Daniel de Oliveira).

Nanda (Julia Dalavia) acamada após sentir os primeiros sintomas do HIV: personagem com valioso papel social
Nanda (Julia Dalavia) acamada após sentir os primeiros sintomas do HIV: personagem com valioso papel social
Foto: Rachel Cunha/TV Globo / Sala de TV

As muitas voltas em torno do triângulo amoroso, sem que nada novo aconteça, deixou a produção repetitiva e sem gerar expectativa. O formato de minissérie seria mais adequado para valorizar o produto.

Mas no capítulo de segunda-feira (21), a introdução de novo tema injetou dose de energia ao enredo: a jovem Nanda (Julia Dalavia) recebeu com desespero o diagnóstico de que é portadora do vírus HIV.

Àquela altura, início dos anos 1980, ter Aids era uma irreversível sentença de morte. Cientistas e médicos estavam atônitos com o avanço rápido da doença recém-descoberta e sem perspectiva de controle e cura.

O medo, a desinformação e o preconceito envolviam quem carregava a síndrome. As novas gerações não têm ideia do estigma imposto aos ‘aidéticos’ (termo pejorativo que, felizmente, deixou de ser usado).

O episódio de ‘Os Dias Eram Assim’ exibiu trechos de reportagens reais daquele período: os jornalistas Leilane Neubarth e Caco Barcellos apareceram dando explicações a respeito da doença.

A supersérie presta um relevante serviço à teledramaturgia e à sociedade ao introduzir a Aids na trama. O Brasil vive um momento preocupante, com aumento do número de infectados, principalmente entre os jovens.

De acordo com o Ministério da Saúde, a taxa de pessoas com o HIV entre 15 e 19 anos subiu 187% de 2006 a 2015. Na faixa de 20 a 24 anos, o aumento foi de 108%. E de 21% entre os que estão entre 25 e 29 anos.

A maioria desses novos portadores do HIV nasceu após a morte de Cazuza, o primeiro artista brasileiro que desenvolveu Aids a se expor abertamente na mídia – dos primeiros sinais físicos até o falecimento, aos 32 anos, em julho de 1990.

Cito-o como exemplo para ressaltar que essa geração não testemunhou o horror – e não é exagero usar essa palavra – sofrido pelas vítimas da doença daquela fase anterior ao surgimento dos coquetéis.

A aparência frágil dos doentes chocava. Doenças associadas ao vírus, como os sarcomas (tumores), provocavam sofrimento e isolamento aos pacientes, e serviam como uma propaganda terrível da necessária prevenção.

Com a eficácia dos tratamentos, aquelas imagens assustadoras de pessoas magérrimas à beira da morte tornaram-se raras.

Resultado: deixou-se de ter tanto medo da Aids, como se fosse apenas mais uma doença crônica controlada com medicação.

Contudo, a realidade dos portadores não é uma novela. Na vida real, os remédios provocam efeitos colaterais, acontecem frequentes casos de discriminação e há o risco de a saúde deteriorar.

Por isso, quando uma atração exibida em horário nobre como ‘Os Dias Eram Assim’ nos faz lembrar o lado dramático da Aids, dá a oportunidade de a sociedade ampliar a discussão imprescindível sobre como evitar a contaminação.

Lamentavelmente, a TV – tão influente em milhões de lares brasileiros – oferece pouco espaço para um assunto tão importante chegar até o telespectador.

Cabe às emissoras repensar essa omissão. Afinal, a Aids é um assunto que precisa ser conversado na sala de estar das famílias.

(‘Os Dias Eram Assim’ é escrita por Ângela Chaves e Alessandra Poggi, com colaboração de Guilherme Vasconcelos e Mariana Torres. Carlos Araújo e Gustavo Fernandez assinam a direção geral. A supersérie da Globo vai ao ar às segundas, terças, quintas e sextas.)
 

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