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“Quanto mais você vê arte, mais apura o olhar sobre a vida”

Eduardo Semerjian estreia ‘Aula Magna com Stalin’ com reflexão sobre manipulação política

2 mai 2018
14h13
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Um governante tenta cooptar artistas com a intenção de doutrinar o povo para se perpetuar no poder. Essa premissa tão atual e temerosa está num espetáculo que mostra a ação do sanguinário líder da União Soviética Josef Stalin (1878-1953).

Em ‘Aula Magna com Stalin’, o ditador pressiona compositores a usar a música como ferramenta de manipulação da massa. O Czar Vermelho é interpretado por Eduardo Semerjian, ator conhecido do público de TV por produções como a minissérie ‘Maysa’ (Globo, 2009) e a série ‘O Negócio’, da HBO, que está em sua quarta e última temporada.

O ator Eduardo Semerjian em ‘Maysa’, ‘Rotas do Ódio’ e ‘O Negócio’
O ator Eduardo Semerjian em ‘Maysa’, ‘Rotas do Ódio’ e ‘O Negócio’
Foto: Divulgação

Em breve, ele será visto na novela ‘As Aventuras de Poliana’, com estreia marcada para o dia 16, no SBT.

O artista conversou com o blog a respeito da peça, da carreira e de sua visão de mundo:

O espetáculo aborda a relação entre arte e política. Acha que o brasileiro em geral consegue enxergar o contexto político da arte e, especificamente, do teatro?

O que eu percebo é que o brasileiro tem se despolitizado, de uma forma geral. E é um paradoxo, pois ao mesmo tempo todos falam de política. Mas a forma como falamos hoje do assunto é esvaziada de ideologia. Tudo na conversa sobre política, atualmente, se refere mais a estereótipos, como corrupção, ser de esquerda ou direita. Mas ninguém se aprofunda nas questões que realmente interessam na formação da identidade de um povo, como políticas sociais, ambientais e culturais. Dito isso, e respondendo agora diretamente à sua pergunta, a arte, e especificamente o teatro, são fustigadores de reflexão, não propaganda. Ninguém te obriga a pensar algo. Você individualmente que deve refletir e ter sua própria forma de pensar.

Hoje há uma divisão no pensamento popular sobre a função que a arte vem exercendo. Uma parte acha q ue é reflexão, mas outra bem grande acha que é propaganda. E não é o caso. Mesmo quando a arte que você assiste é declaradamente partidária. Você pode refletir e discordar. E ponto. Quanto mais você vê arte, teatro, mais você apura seu olhar sobre as coisas da vida e refina seu pensamento crítico. Precisamos restabelecer essa comunicação, e isso é responsabilidade de todos: artistas e público.

Na sua opinião, todo artista deve expressar posição política e militar por causas sociais?

Cada um deve se manifestar como sua consciência mandar. Essa é minha visão das coisas. Liberdade! Inclusive na arte acredito nessa liberdade. Artistas, antes de o serem, são pessoas, com pensamentos, sentimentos e consciências próprios. Cada um deve se responsabilizar por aquilo que manifesta. Eu, por exemplo, acho que a função militar num País tem limites definidos ligados à segurança, e que são importantíssimos, mas gerir um País não está entre essas funções. Deve haver sempre uma cabeça independente e civil comandando as Forças Armadas.

Aspectos do totalitarismo da União Soviética de 1948, onde e quando a peça se passa, se assemelham ao período atual no Brasil?

No todo, eu diria que estamos longe do que se passava naquela época na URSS. Mas nos detalhes, sim, existem semelhanças, e essa é a razão principal dessa peça estar em cartaz nesse momento. Veja: a peça é centrada na interferência de quem tem o poder local (Stalin) sobre a criação artística na música (Shostakovich e Prokofiev). A intenção é fazer com que os grandes artistas, que esses dois são, sirvam como meios para uma propaganda política do Governo da época, para que o povo se alie ao Governo e haja de forma não-crítica, cega, a favor daquele Governo. Isso se funde ao que acontece aqui nos dias atuais através de vários fatores e os principais na minha visão são a diminuição do orçamento para a cultura; mudanças nas regras de leis e políticas para a cultura, que dificultam a execução de um projeto artístico e limitam seu alcance; colocar a decisão do ‘patrocínio’ de uma peça na mão de um empresário, que quase nunca pensa no fazer artístico, e sim, na divulgação da sua empresa; assim, assuntos mais polêmicos, raramente ou nunca terão apoio da maioria das empresas; manifestações de grupos, pessoas independentes ou até da Justiça querendo afirmar o que é e o que não é arte (invasão de museus, proibição de peças de teatro e exposições etc). Nesses sentidos, a peça é metaforicamente muito semelhante ao que temos visto neste momento do Brasil.

O ator caracterizado como Stalin e em cena da peça com o colega Luiz Damasceno
O ator caracterizado como Stalin e em cena da peça com o colega Luiz Damasceno
Foto: Marcos Frutig / Divulgação

Como foi o processo de composição de seu personagem? Como é interpretar figura real tão polêmica como Stalin?

Infelizmente, não tive muito tempo. Foi um mês e meio de ensaios, mais uma semana de estudo em casa antes, em meio às gravações da novela que estou fazendo no SBT, ‘As Aventuras de Poliana’ e, pra dificultar ainda mais, o meu texto na peça é enorme. Gastei muito tempo decorando. Isso também contribuiu para dedicar menos tempo à construção do personagem. Porém, temos que se virar com o possível, então li parte da biografia do Stalin, principalmente até sua ascensão ao poder. Assisti a dois documentários falando dele e da época, e um filme em que Robert Duvall faz o Stalin (‘Stalin’, de Ivan Passer).

A partir dessas informações e de imagens dele se movimentando fui percebendo coisas pessoais que me ajudaram a compor, dentro do que a peça e o diretor me pedem. Interpretar Stalin é muito rico, pois ao mesm o tempo que ele teve a capacidade inegavelmente fantástica de se manter no poder da gigantesca URSS por quase 30 anos; por outro, humanamente falando é um personagem terrível, que foi responsável por milhões de mortes do seu próprio povo, alegando a unidade e sobrevivência da Nação e de uma ideia, o comunismo. Ele matava seus próprios aliados e generais de tempos em tempos, era muito pesado. O grande desafio que temos como atores – artistas em geral, mas atores no próprio corpo – é descobrir como ser Stalin de forma viva no palco, mesmo discordando de tudo aquilo que ele poderia fazer, ser ou pensar. E por isso eu gosto tanto de fazer esse personagem.

Em quais critérios baseia suas escolhas artísticas? Tem a carreira que idealizou ao se iniciar na arte dramática?

Escolhas artísticas, como para qualquer pessoa em suas respectivas profissões, estão atreladas a escolhas financeiras, pessoais, familiares; e hoje, aos 52 anos e com uma filha de oito, não posso mais escolher o risco a qualquer custo. No início da minha trajetória de ator, em 1990 e até final da década, ou seja, dos 25 aos 35 anos, eu praticamente só escolhi o risco artístico. Deixei de lado a questão financeira, as questões familiares e de relacionamento que isso trazia, e enfrentava minhas próprias questões pessoais, pra me conhecer melhor a cada personagem. Isso trouxe boas e complicadas consequências. Bom, porque aprendi o ofício do ator na sua mais pura ânsia de profundidade, e isso reverbera em tudo que faço até hoje. Por outro lado, nunca tive estabilidade financeira, porque minha juventude, que poderia ser mais ligada à TV e garantindo uma segurança maior de sobrevivência, nunca existiu. Hoje, vejo que mudei muito, mas não perdi meu frescor de sentir-me divertindo em meu trabalho, e as coisas também mudaram: o próprio teatro, a TV, e felizmente, acho que para melhor.

A qualidade da teledramaturgia hoje é maior que quando comecei. Logo depois que fiz ‘Maysa’ dei uma entrevista a um colega seu em que criticava as novelas como sendo exercícios de repetição. Os autores estão se mexendo hoje em relação a isso, e as séries que estamos criando são completamente diferentes do modo de fazer novelas de antes, que, aliás, virou um padrão e que por um tempo foi fantástico. Então hoje temos roteiros de séries maravilhosas aqui. Quanto ao teatro, minha gama de possibilidades sempre tem aumentado, e espero que assim continue. Não imaginava minha vida como ator exatamente c omo é hoje, mas imaginava o cerne dela: vivo, excitado com o que faço, e isso eu consegui. Então estou muito satisfeito até agora.

O que acha dos atores que desprezam a televisão por não enxergar qualidade artística no veículo?

Eu comecei em teledramaturgia com 40 anos. Já era um homem, não mais um garoto. Isso facilitou minha relação com o ambiente, com a câmera, e meu gosto pelo jogo com ela. Tive participações que não me fizeram brilhar os olhos, mas todas, sem exceção, me trouxeram lições.

Além das lições, há as que me trouxeram mais prazer: ‘O Negócio’, da HBO, é sem dúvida, meu trabalho mais longevo e que me deu, por isso, a chance de desenvolver mais o personagem e as relações com os outros, além da equipe fantástica que me deu toda base pra isso. Além de ‘O Negócio’, há outras que amei fazer, e me deram muito prazer, como ‘Rotas do Ódio’, no Canal Universal, e a participação em ‘Sense8’, da Netflix, do qual já era fã antes de fazer. Há outras que posso dizer que gostei muito de estar presente, mas a lista seria grande.

Quanto a atores que desprezam a TV, eu acho que tem conexão com uma visão antiga, de um produto apenas pra criar audiência. Mas hoje em dia temos muita qualidade em várias séries, e se alguém me perguntasse, eu diria que deve experimentar pra ver como é. Mas jamais julgaria quem não gosta. Respeito demais quem se dedica de corpo e alma ao teatro, que eu também amo profundamente.

Como tem sido gravar ‘Poliana’? Como avalia estar em uma produção popular voltada principalmente para o público infantil?

‘Poliana’ é uma enorme diversão. Eu corria o risco de fazer outro personagem na trama, que prefiro não dizer qual é. E no fim das contas, me escalaram pra fazer esse Professor de Artes, chamado Salvador. Ele é doido! (risos). E eu me divirto demais fazendo a novela. Confesso que estou surpreso, porque se eu tinha um preconceito (momento ‘mea culpa’), era o de fazer qualquer produção para jovens ou crianças. Sempre achei que não tinha nada a ver comigo. E estou pagando a língua! Obrigado, SBT! (risos). Na verdade, é meu segundo grande preconceito que cai por terra, porque em 2010 fiz um musical (‘O Despertar da Primavera’, de Charles Möeller e Cláudio Botelho), que teoricamente era um gênero que eu também não gostava. E saí amando as pessoas, a produção... e cantar.

Sobre a relação com o público infantil, acho que pelo fato de a novela não ter estreado ainda, não tenho a noção do que é este contato com eles, mas todos meus colegas que já fizeram produções assim afirmam que é uma loucura e, ao mesmo tempo, também é muito gostoso ter o carinho de crianças e adolescentes. Creio que em breve vou saber, não é? Aí depois te conto.

Eduardo Semerjian defende que cada um deve se responsabilizar por aquilo que manifesta
Eduardo Semerjian defende que cada um deve se responsabilizar por aquilo que manifesta
Foto: Heloisa Bortz / Divulgação

Pingue-pongue:

O que assiste na TV aberta? “Só aos jogos do Palmeiras, minha paixão alviverde”.

O que vê em canais pagos ou serviços de streaming? “Séries e filmes. Amo fantasia e suspense”.

Personagem de teatro que ainda quer interpretar? “Willy Loman, de ‘A Morte do Caixeiro Viajante’, da autoria de Arthur Miller”.

Um dramaturgo admirado e uma obra dele? “Contemporâneo, ‘O Fingidor’ de Samir Yazbek. Clássico, “Dança da Morte”, de Strindberg”.

Um conselho a jovens atores? “Amem o que vocês fizerem. Sempre valerá a pena, independentemente do resultado”.

Serviço

‘Aula Magna com Stalin’, de David Pownall
Espetáculo de William Pereira
Elenco: Eduardo Semerjian, Luiz Damasceno, Carlos Palma e André Garolli

Teatro João Caetano (25/5 até 17/6)
Rua Borges Lagoa, 650 - Vila Clementino
Sextas e sábados às 21h, e domingos às 18h
Inteira: R$20,00. Meia: R$10,00

Teatro Arthur Azevedo (22/06 até 1/7)
Av. Paes de Barros, 955 – Mooca
Sextas e sábados às 21h, e domingos às 18h
Inteira: R$20,00. Meia: R$10,00

Teatro Paulo Eiró (6 a 15/7)
Av. Adolfo Pinheiro, 765 - Santo Amaro 
Sextas e sábados às 21h, e domingos às 18h 
Inteira: R$20,00. Meia: R$10,00



 

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