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Beth Goulart vive equilíbrio profissional aos 50 anos

29 jul 2011
09h32
atualizado às 09h34
Mariana Trigo

Beth Goulart contempla a Mata Atlântica que compõe a vista de sua casa em São Conrado, na Zona Sul do Rio, com a mesma serenidade que entrelaça personagens e recordações de diversas décadas de sua carreira. Nascida no Rio e criada em São Paulo dos cinco aos 18 anos de idade, a atriz se acomoda entre as almofadas da espaçosa sala de seu apartamento cercada de seus cães e muitos dos objetos religiosos que denotam seu sincretismo não só religioso, mas de ideias e ideais.

É com esta simplicidade e suavidade que a atriz de irretocáveis 50 anos de idade mostra que está no auge da maturidade física e artística ao viver sua primeira grande vilã humanizada na tevê, a conturbada Regina em Vidas em Jogo. Recém-contratada pela Record, Beth se delicia com os conflitos maternos e as audaciosas vilanias impulsionadas pela ambição da antagonista da trama de Christiane Fridman. "Ela é uma vilã, mas é guerreira, batalhadora. Todo personagem nos faz passar por processos de crescimento. Como atriz, posso alertar mentes, mostrar minha indignação sobre vários assuntos. Dessa forma, vale qualquer experiência", argumenta.

TV Press - Após um longo período na Globo, com papéis não muito relevantes, você assinou com a Record e estreou na emissora como a antagonista de Vidas em Jogo. Como aconteceu essa mudança?
Beth Goulart
- Acabou meu contrato com a Globo e imediatamente a Record me chamou. Claro que deu um susto por ser uma casa nova. Eu não sabia como seria. Mas, ao mesmo tempo, tive um estímulo para conquistar novas pessoas, ainda mais com uma proposta de trabalho muito interessante. A personagem era ótima. Uma vilã humanizada, cheia de conflitos.

TV Press - Você ainda não havia feito uma vilãzona com tanto destaque em uma trama na tevê como a Regina. Como tem sido?
Beth Goulart
- Ela é uma vilã humana, tem contradições, sofre, tem uma função forte como mãe. Isso traz uma identificação muito grande para nós, mulheres, que trabalhamos e temos a responsabilidade de criar um filho enquanto construímos uma carreira. Ela mexe com todas as mulheres. A Regina lutou muito para conquistar o que tem. É uma mulher com uma história de vida interessante, batalhadora, guerreira. Não é simplesmente uma vilã porque gosta de fazer maldades. Ela é ambiciosa, quer defender seus direitos e interesses. É inescrupulosa na maior parte de suas atitudes, mas tem um outro lado, que é maternal, de querer proteger os amigos. Ela tem uma ligação forte com o Maurício (vivido pelo Mário Gomes), uma amizade de uma vida inteira.

TV Press - Essa humanização da personagem absolve parte da vilania dela na história?
Beth Goulart
- Acho que sim. Ela se preocupa com quem está próximo. Talvez nem tivesse sido levada a cometer maldades se não estivesse passando por uma situação tão desesperadora. Ela corre o risco de perder tudo o que conseguiu financeiramente. Isso faz a pessoa perder seus referenciais. A novela começou com ela totalmente ameaçada nos negócios. Ela se associou a pessoas do mau, como o Cléber (interpretado por Sandro Rocha). Com isso, o lado sombrio da Regina começa a aparecer com mais força. A ambição vai sendo aguçada.

TV Press - A ambição é o sentimento que direciona grande parte dos personagens na trama. Como ela influencia a Regina?
Beth Goulart
- Ela vai ficando mais ambiciosa com a proximidade do Cléber, que é um verdadeiro vilão. Ele é o personagem que talvez tenha realmente o perfil de psicopata. A ambição dela é não perder tudo que já conquistou com tanto esforço, mesmo que tenha de cometer maldades. Mas ela sofre quando pratica o mal, não fica tão confortável com isso. Já o Cléber passa por cima de tudo. Ela não percebe o lado ruim dele ainda porque ele é útil para ela, impressiona com viagens de jatinho, passeios de lancha. Entre eles existe um certo risco. São personagens misteriosos. Ela se sente provocada como mulher por ele. Ela tem um lado lavadeira e barraqueira, tem uma certa atração por cafajestes (risos).

TV Press - A Regina foi uma personagem que exigiu de você que tipo de composição?
Beth Goulart
- Eu não busquei referências externas para encontrá-la, mas na própria personagem. Eu e parte dos atores da trama tivemos um encontro com um preparador de elenco que nos proporcionou dimensões para os personagens. Nos levou a um prédio realmente abandonado, com pessoas morando. Aquilo deu uma outra qualidade a tudo aquilo que a gente estava fazendo. Ter estado ali modificou a minha maneira de viver a personagem. Você passa a vivenciar aquela realidade. Foi muito interessante.

TV Press - Você parece estar tendo muito prazer nesse trabalho.
Beth Goulart
- Muito! É uma personagem rica. Com ela, penso em várias possibilidades de fazer cada cena. Ela não me deixa acomodar. Se você liga a chavinha e faz tudo que sabe que vai funcionar em um papel, faz um bom trabalho, mas não atua de forma excelente. O muito bom provoca um incômodo, faz você ir atrás de uma solução não previsível para fazer aquela cena sem ser de forma óbvia. Fazer vilã não é interpretar uma mulher má de sorrisinho no canto da boca.

TV Press - Seu último papel de mais destaque na tevê foi a Neli, de Paraíso Tropical, que também era ambiciosa, mas não chegava a ser uma vilã. Você diria que suas personagens que mais se sobressaíram ultimamente na tevê são nessa linha?
Beth Goulart
- Ah, acho que sim. Mas a Neli não tinha traços de vilania. Tinha ambição, queria manipular as filhas, mas nunca chegou lá como a Regina. Não conseguiu passar da classe média (risos). A Regina é uma vitoriosa, só entrou nessa situação difícil por causa de um funcionário. Assumiu as responsabilidades do erro desse empregado. Ou seja, uma edificação da construtora dela caiu porque um funcionário usou material de segunda linha e não o que deveria ser utilizado na obra. Com isso, a Regina teve de pagar todas as indenizações e isso causou um rombo na empresa.

TV Press - A que você atribui sempre ser escalada para personagens com personalidade forte?
Beth Goulart
- Talvez seja pela minha própria personalidade forte. Consigo imprimir isso nos papéis, mesmo quando eles são completamente diferentes de mim. Eu não tenho nada a ver com a Regina. Isso fica ainda mais interessante. Mas, personagens fortes pedem intérpretes fortes. Talvez por aí tenham me dado alguns papéis que a gente costuma dizer que são difíceis, com densidade, um pouco de humor, um lado humano, vilania, ambição. São personagens que têm uma certa inteligência. O subtexto que eles trazem às vezes fala mais que o próprio texto. Isso pede uma sutileza na interpretação. Talvez a bagagem de experiência que tenho no teatro, me dê um estofo suficiente para fazer personagens que não são fáceis. A Regina, por exemplo, poderia cair facilmente no estereótipo da vilã das gargalhadas "hahaha". Esse não é o caso dela. Pode até ser que ela venha a virar isso. Ela também é vítima das coisas que arma. Ela também sofre com o que está fazendo. Não faz por prazer.

TV Press - Que avaliação você faz destes 35 anos de carreira na tevê, como foi fazer parte de uma família com pais atores, sendo filha de Paulo Goulart e Nicete Bruno e crescendo nos bastidores da televisão, com todas essas referências como matéria-prima?
Beth Goulart
- Brinco de atuar desde que me entendo por gente. Temos de observar muito as crianças porque nessa fase manifestamos o mais genuíno nas nossas brincadeiras. Nisso realmente aparece nossa vocação. Eu brincava de fazer teatro, de escrever, montar espetáculos. Hoje dirijo, escrevo, coisas que já fazia criança. Meus pais observavam aquilo e mostravam as qualidades e dificuldades da profissão que é sazonal, cheia de altos e baixos. Tinha a visão muito clara do que era ser ator no Brasil, mas a paixão era mais forte com toda a minha família. Isso é missionário. Às vezes você tem de criar profissões paralelas para sobreviver nessa carreira. Você não vai ser eternamente bonitinho e novinho para ter um trabalho. Tevê vive muito desse momento e nem sempre o que conta é o talento, mas um carisma e uma cara bonita. Rosto jovem passa rápido. Você tem de saber se quer construir uma carreira para dar uma contribuição artística para o cenário cultural do seu país. Eu escolhi esse caminho. Talvez seja o caminho das pedras, o mais difícil, mas é o mais duradouro, é aquele que ninguém me tira.

Pura sintonia

Nem só como atriz os palcos acolheram Beth Goulart. Durante muitos anos, ela foi bailarina clássica. Atualmente, para manter a forma aos 50 anos de idade e a postura ereta de quem sempre foi adeptas de pliês e piruetas, a atriz não descuida do corpo. Pelos menos duas vezes por semana faz corridas ou caminhadas pela Praia de São Conrado, bairro onde mora, na Zona Sul do Rio. "Preciso me exercitar olhando o mar. Vejo o horizonte e esqueço de tudo. Trabalho o corpo e a mente. Coloco tudo em ordem. Só não faço musculação porque ganho massa muscular muito rápido", explica.

Além das caminhadas, ainda pratica alongamento, aulas de pilates e controla a alimentação. Há 20 anos sem ingerir carne vermelha, a carioca evita doces e se alimenta de grãos, saladas, legumes e muitas frutas. "Também costumo meditar sempre que posso. Sou espírita kardecista, mas também sou adepta do budismo e minha mãe é presidente de um centro espírita em São Paulo. Para mim, religião é uma religação com Deus, é uma conexão íntima, que me faz bem e me mantém saudável", observa.

Memória em capítulos,

Beth Goulart viveu diversos papéis de destaque na tevê desde sua estreia, em 1976, na telenovela Papai Coração. Mas os preferidos da atriz passam pela Leopoldina de O Primo Basílio, a Marina de O Outro e até a Débora, de Baila Comigo. Por incrível que pareça, até hoje muitas pessoas chamam a atriz de Débora nas ruas. "Foi a novela na Globo que praticamente me lançou na emissora para o grande público!", lembra a atriz, que também não se esquece da ambiciosa Neli, de Paraíso Tropical, do Gilberto Braga. "Foi a que mais me trouxe reconhecimento nos últimos tempos", reconhece.

Em entrevista, a atriz Beth Goulart fala sobre sua vida e carreira
Em entrevista, a atriz Beth Goulart fala sobre sua vida e carreira
Foto: Jorge Rodrigues / TV Press
Fonte: TV Press
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