Autor ressuscita gays de outras novelas para atormentar o homofóbico Ferette
Aguinaldo Silva, de ‘Três Graças’, foi militante da causa LGBT+ e sempre enquadrou o preconceito em suas obras
Primeiro, o tresloucado Crô (Marcelo Serrado) saiu direto de ‘Fina Estampa’ (2011) para visitar — e aterrorizar — Ferette (Murilo Benício) no leito do hospital.
Agora, ressurge o colunista fofoqueiro Téo Pereira (Paulo Betti), vindo de ‘Império’ (2014), a fim de provocar um escândalo ao publicar sobre o flagra de traição do empresário com sua sócia Arminda (Grazi Massafera).
Assumidamente homofóbico, Ferette, o vilão de ‘Três Graças’, se vê encurralado por gays trazidos de novelas de sucesso também escritas por Aguinaldo Silva. Saborosa metalinguagem.
Será que outros vão aparecer?
A lista é extensa: o místico Uálber (Diogo Villela) de ‘Suave Veneno’ (1999), o carnavalesco Bira (Luiz Henrique Nogueira) de ‘Senhora do Destino’ (2004), o cozinheiro Bernardinho (Thiago Mendonça) de ‘Duas Caras’ (2007), e segue.
Há, ainda, a transexual Marco Paulo (Nany People), de ‘O Sétimo Guardião’ (2019), que renderia ao confrontar o magnata supostamente hétero top.
Aguinaldo Silva acerta ao usar o bom humor para provocar um personagem homofóbico. Ferrete não disfarça a insegurança diante desses ‘pintosos’ que não têm medo dele, suscitando suspeita sobre sua próxima sexualidade.
O autor, hoje com 82 anos, fez parte da equipe do jornal independente ‘Lampião da Esquina’, uma das primeiras publicações brasileiras voltadas ao leitor LGBT+ (sigla que nem existia na época). Foi publicado de 1978 a 1981, em plena ditadura militar.
“Os gays de agora não sabem o que os da minha geração tiveram que enfrentar para que hoje eles possam falar livremente dos seus namoros, noivados, casamentos e filhos sem que ninguém ouse alçar sequer uma sobrancelha: levamos muitas pedradas”, escreveu no Twitter em 2021. “Nessa luta fomos pioneiros.”