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Aguinaldo Silva: "está tudo muito chato e politicamente correto"

4 nov 2011 16h28
| atualizado às 16h30
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Geraldo Bessa

Está cada vez mais difícil abordar temas contundentes, de forma realista, na televisão brasileira. Com o fim da ditadura e da censura dos militares, as telenovelas produzidas a partir de 1985, como Roque Santeiro e Vale Tudo, pegaram carona no movimento em prol da liberdade de expressão e conseguiram tratar de assuntos como sexualidade, drogas e política. Menos de 30 anos depois do fim do governo militar, observa-se um retrocesso nesse discurso. "Seria quase impossível fazer Vale Tudo nos dias de hoje. A censura vem de todos os lados", admite o diretor Dennis Carvalho. Atualmente, os agentes da censura são representados pelas regras da classificação indicativa da TV, definidas pelo Ministério da Justiça, e entidades sociais que ficam de olho em todos os passos dos autores. "Está tudo muito chato e politicamente correto. Sou um grande defensor da livre criação e do respeito ao próximo. Mas, se escrevo uma vilã disfarçada de qualquer profissão, corro o risco de ser processado pelos sindicatos que defendem essa classe", conta Aguinaldo Silva, autor que participou da criação de Roque Santeiro, de 1985, e de Vale Tudo, de 1989.

Ao lado de outros autores de novelas, como Gilberto Braga e Silvio de Abreu, Aguinaldo, que atualmente está no ar com Fina Estampa, vem adotando uma postura mais cautelosa ao montar as tramas de suas novelas, com receio de uma possível reclassificação ou processos jurídicos que poderiam manchar a obra. Em Duas Caras, de 2007, o autor teve de explodir o cenário da uisqueria - um eufemismo para prostíbulo - Cincinatti, por problemas com o Ministério Público Federal, que acusou a novela de ter conteúdo excessivo de consumo de drogas, atos criminosos, erotismo e promiscuidade. "A equipe levou um susto pois a novela poderia ser mudada de horário. Para mim, não existia nada vulgar e agressivo na minha personagem", defende Flávia Alessandra, intérprete da dançarina Alzira, personagem central na queixa do MPF sobre a temática sexual da novela. A despeito de trabalhar na tal uisqueria, a pudica Alzira sequer fazia programa.

Para quem está dentro dos bastidores da TV, não são apenas os órgãos do Judiciário ou os grupos sociais que reclamam de qualquer detalhe um pouco mais ousado. O grande público também encaretou. "Estamos regredindo. A luta era pela opressão da ditadura e agora todo mundo só quer parecer legal, correto, puro e perfeito. O sexo faz parte da dramaturgia e o horário permite", analisa Marco Ricca, o Samir, de O Astro, minissérie que recebeu muitas críticas em sites, blogs, redes sociais e na Central Globo de Atendimento ao Telespectador. O incômodo foi causado pelas cenas de sexo e nudez dos primeiros capítulos, envolvendo seus personagens principais. Com 50 anos de carreira e também do elenco de O Astro, Regina Duarte participou de produções corajosas nos anos 80, como o seriado Malu Mulher. Por isso, não esconde a frustração com o esvaziamento de algumas tramas do remake, além da reedição que suavizaram as cenas de alguns capítulos. "A pressão pública encaretou demais a TV. Essa coisa do politicamente correto faz com que seja difícil ser criativo. É muito sutil a linha que separa o que é agressivo, da audácia criativa que pode levar as pessoas a se emocionarem", opina Regina.

Ao longo de 2011, além das cenas omitidas de O Astro, assuntos polêmicos de outras tramas também foram amenizados, como a questão homoafetiva dos personagens de Insensato Coração, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, e Amor e Revolução, novela do SBT, escrita por Tiago Santiago. "Eu e Gilberto queríamos fazer uma abordagem natural da temática gay. Polêmicas à parte, não fizemos cenas mais ousadas, que pudessem causar desconforto em alguns telespectadores", explica Ricardo Linhares. Já no SBT, Tiago Santiago também teve alguns personagens e sequências censuradas, mas foi um pouco mais além, com a exibição do alardeado beijo protagonizado por Marcela e Marina, de Luciana Vendramini e Gisele Tigre, respectivamente. "O beijo foi um detalhe. Acho que a coragem do autor está em abordar o homossexualismo no contexto da novela, que se passa durante a ditadura", acredita Gisele Tigre.

Riso oprimido
A comédia é um dos alvos preferidos de quem está em sintonia com o politicamente correto. O papel do humor sempre foi afinetar a realidade. No entanto, o conteúdo e o tom de algumas piadas podem trazer problemas para quem as escreve ou fala. No ar no CQC e no Agora é Tarde, da Band, Danilo Gentili e seu humor ferino já foram vítimas de agressão verbal e física. "Já fui expulso do Planalto por causa de uma entrevista, e no quadro Proteste Já eu e a equipe do programa fomos agredidos", enumera o comediante. Atualmente, Rafinha Bastos, companheiro de Gentili no CQC, está dividindo a opinião pública depois de fazer uma piada sobre a gravidez da cantora Wanessa Camargo. "Comediantes só querem fazer rir. Se, em algum momento a piada não tem graça, peço desculpas e tento de novo fazer algo engraçado", ameniza Danilo.

Mesmo sem ser comediante, a porção autor de Miguel Falabella tem forte ligação com a ironia. E algumas ousadias de Miguel não passaram despercebidas pela "censura", como Latoya e Whitney, as irmãs negras de A Lua Me Disse, de 2005, que negavam a origem de sua cor, interpretadas por Zezeh Barbosa e Mary Sheyla, respectivamente. Ou a Índia, empregada de origem indígena, interpretada pela atriz Bumba, que era maltratada e humilhada pelas patroas. "Fui acusado de difundir preconceitos. Mas, na verdade, eu estava era mostrando que esses preconceitos deveriam ser combatidos. Depois disso tudo, comecei a encarar essa chatice com mais leveza. Hoje digo apenas que é brincadeira e ficção. E pronto!", argumenta Miguel.

Instantâneas
Na novela Suave Veneno, de 1999, por causa do personagem gay e atrapalhado Edilberto, de Luís Carlos Tourinho, o Grupo Gay da Bahia chegou a entrar com uma representação no Ministério Público e outra na Secretaria Nacional dos Direitos Humanos contra Aguinaldo Silva e à Globo, alegando atitude discriminatória da classe.

Um dos episódios da segunda temporada do seriado Toma Lá, Dá Cá teve de ser editado para ir ao ar. No episódio, Copélia, de Arlete Salles, se envolveria com Deise, de Norma Bengell. O Ministério da Justiça não permitiu a exibição do episódio original, já que no elenco havia um integrante menor de idade: Daniel Torres, na época com 14 anos, interpretava o jovem Adonis.

Exibida, atualmente, no Vale a Pena Ver de Novo, a abertura de Mulheres de Areia, de 1993, teve de ser reeditada para disfarçar a nudez da atriz Mônica Carvalho. Esta é a terceira vez que a novela é exibida, mas só agora a abertura sofreu alteração.

Em América, de 2005, Glória Perez escreveu a cena de beijo entre Junior, de Bruno Gagliasso, e Zeca, de Erom Cordeiro. A sequência foi gravada pelos atores, mas por pressão do público e da emissora, não foi ao ar. "A história gerou uma repercussão imensa. É claro que ficamos frustrados com o corte da cena. Mas não é uma decisão que cabe aos atores", acredita Erom Cordeiro.

Autores de novela e atores reclamam da patrulha do politicamente correto na TV brasileira
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Foto: Afonso Carlos / Divulgação
Fonte: TV Press
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