Teto e Wiu provam que trap pode ser muito mais em Colapso Global
Álbum colaborativo mistura house, jazz, bossa nova e funk carioca sem perder a pegada — e mostra que artistas não cabem em caixinhas
Quando WIU e Teto lançaram "ISSO AQUI É BRASIL" como single de Colapso Global, a internet fez o que faz de melhor: reclamou. "Isso não é trap de verdade", disseram. "Perderam a essência", escreveram. A faixa dançante incomodou quem esperava 808s pesados e hi-hats acelerados do começo ao fim. Mas quem apostou que o álbum inteiro seria uma traição ao trap quebrou a cara — e feio. Colapso Global é, na sua essência, um disco de trap. Mas é também house music, jazz, bossa nova, funk carioca e tudo que WIU e Teto quiseram experimentar. Porque antes de serem trappers, eles são artistas.
O disco não esconde suas intenções. O próprio nome — Colapso Global — já anuncia o que viria: a mistura proposital de referências que não deveriam funcionar juntas, mas funcionam. A capa reforça: colagens, sobreposições, universos diferentes colidindo num mesmo espaço. Onze faixas refrescantes que falam de tudo um pouco. É um projeto que vem do experimento, que brinca com sonoridades e ritmos, feito pra satisfazer o prazer artístico da dupla.
Em relação as faixas, "ISSO AQUI É BRASIL" continua sendo um dos pontos altos. O beat dos Deekapz é dançante, solar, quase suingado — longe do peso sombrio que domina boa parte do trap brasileiro. WIU e Teto surfam na batida com naturalidade, provando que conseguem rimar em qualquer clima. "LENTO", com produção 100% assinada por WIU, mostra outro lado da conquista. "Bebidas no meu copo vem me deixando lento, lento, lento", ele canta. Em outro verso, diz: "Trampo muito e tudo que eu queria eu já conquistei", ele resume. É trap? É. Mas é trap feito por quem já pode desacelerar.
"CULPA DO FUSO" fala sobre desencontros causados pela fama e Franco, The Sir! rouba completamente os holofotes, com um verso técnico e suave, que deixa claro por que ele é um dos nomes promissores da cena. WIU e Teto seguram a onda, mas é Franco quem leva a faixa nas costas.
O álbum não abandona o trap tradicional. "PANELA SUJA", com Mirella Costa, traz narrativas sobre lealdade e irmandade com beat pesado de Cheek e Jordan. "FACECARD", com Yuri Redicopa, é pura ostentação. "Amo viver essa vida e trap", cantam. E "À BEIRA" encerra o disco com Don L entregando um dos melhores versos.
Mas a melhor faixa do disco é "O CARA". O beat de Stuani segue aquela linha que está cada vez mais presente na cena brasileira. É um som que mistura tranquilidade com gingado, numa batida que faz sua cabeça balançar, nem que seja de forma discreta. WIU e Teto navegam nesse clima com maturidade, falando sobre desejo, caos, vida na estrada, tudo sem forçar barra. A produção é limpa, os flows encaixam perfeitamente, e a música gruda na memória.
Colapso Global vai dividir opiniões — aliás, já dividiu. Afinal, sempre tem aqueles que torcem a orelha quando artistas se recusam a ficar na zona de conforto. Tem gente que vai estranhar "AMARGO & DOCE" com os vocais de Melissa Hartman, tem gente que vai torcer o nariz pra "MEDICINA", mas eles já responderam esse pessoal no material de divulgação do projeto. WIU e Teto não fizeram um disco pra agradar purista de trap — fizeram um disco pra eles mesmos, e tiveram a sorte (ou a competência) de fazer algo que funciona pra quem quiser ouvir sem preconceito. A cena brasileira precisa ser mais receptiva com rappers experimentando outras sonoridades. Se não for, vai continuar presa nos mesmos beats, nas mesmas fórmulas, no mesmo lugar.