Sandro Veronesi: 'Não confio em ninguém que diga que o romance está morto', diz autor de 'O Colibri'
Escritor italiano, que participa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta quinta, 31, fala sobre seus livros, se diz fã de Jorge Amado e explica por que vê um declínio no mercado editorial; veja vídeo
"Durante o dia, eu estava nesse estranho estado de graça, confiando na minha intuição. Mas durante a noite, eu não dormia". É assim que o escritor italiano Sandro Veronesi, de 66 anos, um dos principais convidados desta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), se recorda do período em que escrevia O Colibri, seu livro de maior sucesso no Brasil.
Ele escrevia com liberdade, sem se preocupar com a estrutura do texto: apenas colocava as palavras no papel. No meio da madrugada, acordava a mulher e dizia: "Você vai ter de trabalhar mais e ganhar mais dinheiro, pois estou acabado. Estou escrevendo um romance que não vai funcionar". Isso, é claro, como se viu, não se concretizou.
O livro tornou-se um fenômeno internacional e rendeu o Prêmio Strega a Veronesi, um dos mais importantes da Itália, pela segunda vez em sua carreira - ele já tinha conquistado a premiação em 2006, por Caos Calmo, que na época foi publicado no Brasil pela Rocco.
O Colibri, que chegou aqui pela Autêntica em 2022, acompanha quatro gerações de uma família italiana de Florença. O protagonista é Marco Carrera, um oftalmologista cuja trajetória é marcada por eventos que causam abalos sísmicos em sua vida aparentemente ordinária.
Nada é contado de forma linear. Encontramos Marco em seus 30 e poucos anos, depois voltamos à infância, à adolescência, à vida adulta de novo, lemos suas cartas, e-mails e mensagens de texto. Passamos pelos anos 1970 e, na página seguinte, estamos em 2010. Essa estrutura - ou falta dela - é o que tanto assustava Veronesi. "Sou arquiteto de formação. Sei que a estrutura é necessária."
"O romance não é editado, é escrito conforme você o lê. Os saltos cronológicos não são editados. Eu estava escrevendo este capítulo e então quis escrever outro capítulo que se passava 20 anos antes, e eu escrevi", explica ele, em conversa com o Estadão alguns dias antes da Flip.
Ele fala no evento nesta quinta-feira, 31, às 19h, em bate-papo dividido com o cearense Pedro Guerra e mediado pela jornalista Gabriela Mayer. O nome da mesa, "A extraordinária vida comum", remete ao que é geralmente associado a Veronesi: as matérias-primas de suas obras são o cotidiano, a família, nada que seria - à primeira vista - considerado extraordinário.
"Na minha opinião, você simplesmente tem que falar sobre pessoas comuns, porque não há nada além delas", diz. "Se você se lembrar da era clássica do romance, os personagens principais eram militares, príncipes, reis, não eram pessoas ordinárias. Mas as pessoas comuns não podiam ler. Eles não estavam escrevendo para essas pessoas."
Ele diz também que, se até a metade do século 20, a guerra era a experiência mais poderosa pela qual um menino passaria - ao menos na Europa -, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o ambiente familiar passou a ser o cenário ideal para todo tipo de história. "A experiência mais poderosa para um menino ou menina comum é a família", afirma.
"E eu acho que a única experiência excepcional é o amor. E a família é a zona de guerra do amor. O amor pode ser uma guerra, ele pode se tornar uma arma", continua. "Além disso, diferentemente da guerra ou de diferentes cenários, dentro da família é impossível ver o que acontece. Você não sabe o que está acontecendo na família do seu vizinho, é um mistério."
Paixão de infância e 'Setembro Negro'
Em antecipação à vinda do autor à Flip, a Autêntica publicou seu mais recente romance, Setembro Negro. Somados, ele e o Colibri já venderam cerca de 30 mil cópias no Brasil, entre edições físicas e e-books.
Em Setembro Negro, Veronesi virou seu interesse para a infância, período que ele chama de "o?mais negligenciado e subestimado da vida sentimental dos seres humanos."
O narrador é Gigio Bellandi, que vai contar ao leitor sobre o período em que tinha cerca de 12 anos e estava descobrindo o mundo durante um verão na Toscana, em 1972. Apaixonado pela sua vizinha Astel, o então garoto é afetado por um acontecimento familiar que faz com que ele seja inevitavelmente retirado da bolha de inocência que costuma cercar a infância.
"Acho que a coisa mais subestimada de todos os tempos é o amor entre crianças, entre pré-adolescentes", diz o autor. Ele afirma falar por experiência própria: "Quando tinha oito anos, eu amava uma menina na minha sala. Nunca conversava com ela, mas a simples presença dela era uma razão de grande felicidade para mim. De um ano para o outro, ela desapareceu porque o pai dela foi embora para outra cidade, e eu nunca mais a vi."
Veronesi se lembra de sentir uma grande tristeza com a partida da menina, mas não conseguia dizer isso aos pais, porque eles não compreenderiam. "Minha mãe nunca suspeitou que a razão fosse amor", conta. No caso de Gigio Bellandi, segundo ele, é diferente "porque ele está vivendo a infância com uma experiência quase adulta com a Astel".
"Para ele, é mais forte porque ele ama como uma criança, mas ele experimenta a correspondência como um garoto. Eu queria focar nisso porque quando uma família tem que se mudar, eles não consideram que um dos filhos possa estar apaixonado por um vizinho. E, se pensarem nisso, eles subestimam como se fosse uma forma menor de amor. Não é", completa.
'O romance não vai morrer'
O primeiro livro de Veronesi, publicado em 1984, era uma coletânea de poemas. Ele vê, desde então, um declínio na indústria do livro, mas não apenas pelo crescimento das redes sociais: "É uma mistura complexa de razões, mas a principal razão é que aqueles que representam as riquezas da indústria, todo o sistema de escrita e leitura, são menos fortes do que eram 50 anos atrás, muito menos fortes."
"Você tem que ser forte para ler 30 livros por ano. Você simplesmente tem que querer muito, porque há tantas alternativas e é muito tentador pensar: 'Ah, isso não tem utilidade''", continua. "Eles [as pessoas] não são curiosos. Eles leem por necessidade. Estou pensando até mesmo em educação e cultura. Eu estava conversando com minha mulher ontem sobre o fato de que Lolita [de Vladimir Nabokov], hoje em dia, não poderia ser publicado de jeito nenhum. Isso é sinal de fraqueza, não de força."
Para Veronesi, no entanto, não é o caso de dizer que a ficção ou o romance vão desaparecer. Ele afirma isso ao se lembrar de seu primeiro contato com a literatura brasileira. "Nos 1970, quando eu me tornei um adulto, eu li muitos mestres da literatura da América Latina, entre eles o Jorge Amado. Em tempos mais recentes, li Machado de Assis", conta.
O escritor diz que, naquele período, a Europa estava "totalmente dedicada à morte do romance." "Todas as mentes mais brilhantes da literatura estavam declarando que os romances estavam mortos e que tínhamos que superar o formato do romance. E eram pessoas brilhantes, então você ficava tentado a seguir na direção delas", diz eles.
Ele estava dividido, mas foi a partir de grandes obras de autores não europeus (durante a conversa, Veronesi também cita Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez) que retomou sua fé no romance. "Eles eram tão poderosos que eu fiquei realmente impressionado. Eu não confio mais em ninguém que me diga que o romance está morto", finaliza.