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Romance de Murakami revela o lado cansativo e autocondescendente do autor que já foi melhor

O que 'A Cidade e Suas Muralhas Incertas' tem de melhor pode ser encontrado em outras obras do escritor japonês; e o que o livro tem de ruim acaba por amesquinhar seus bons momentos

24 ago 2026 - 11h48
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Resumo
Em "A Cidade e Suas Muralhas Incertas", Haruki Murakami revisita ideias de obras anteriores ao narrar a busca de um homem por uma paixão juvenil em uma cidade fantástica. Dividido em três partes, o romance alterna entre a melancolia e o realismo mágico, alcançando bons momentos na dinâmica de novos personagens. Contudo, a trama de 500 páginas perde força pelo sentimentalismo excessivo e repetições cansativas, resultando em uma obra autocondescendente que empalidece frente ao passado do autor.

Em 1985, o japonês Haruki Murakami publicou seu quarto romance, O Fim do Mundo e o Impiedoso País das Maravilhas, uma narrativa dividida entre uma aventura cyberpunk e a viagem até uma cidade fantástica, onde encontramos de unicórnios a pessoas separadas de suas sombras.

O livro antecipava o vigor imaginativo que encontraria total expressão em obras como Crônica do Pássaro de Corda e Kafka à Beira-mar. A origem de O Fim do Mundo é um conto publicado em 1980 na revista Bungakukai, intitulado A cidade, as muralhas incertas, e que também serve de ponto de partida para o novo romance, do qual nos ocupamos aqui.

Segundo conta Murakami em um posfácio, ele começou a sentir, em meio à recente pandemia, que aquele conto ainda renderia "uma resposta paralela e, se possível, complementar". E foi graças a essa inquietação que escreveu A Cidade e Suas Muralhas Incertas. A cidade fantástica continua lá, mas as vias de acesso e saída mudaram um pouco — o problema é que não mudaram tanto assim, não ao ponto de justificar as 500 páginas da nova investida.

No tal posfácio, Murakami também comenta que sentiu um "grande alívio" ao término da escrita do romance, pois aquele conto foi, por muito tempo, "motivo de preocupação, como se fosse uma pequena espinha de peixe espetada na garganta". Agora, essa espinha foi transferida para a garganta do leitor.

O escritor japonês Haruki Murakami, um dos principais nomes da literatura contemporânea
O escritor japonês Haruki Murakami, um dos principais nomes da literatura contemporânea
Foto: Companhia das Letras/Divulgação / Estadão

A Cidade e Suas Muralhas Incertas é dividido em três partes: a primeira oscila entre um estranho namoro adolescente e uma passagem pela tal cidade, o Fim do Mundo; na segunda, o protagonista, ainda preso à memória daquela paixão, abandona um bom emprego em Tóquio para assumir uma biblioteca no interior, onde lidará com um fantasma e também com um garoto com síndrome de Savant que, ouvindo-o falar da tal cidade, fará de tudo para se transferir para lá; a última parte fecha o círculo dessas meias existências, mas de forma rebarbativa e sentimentalista.

Como nos melhores e piores livros de Murakami, algumas coisas são deixadas sem explicação, o que, em princípio, não é um problema. Aqui, cabe detalhar melhor o enredo. A cidade é evocada pela imaginação da namorada do (então) adolescente, uma pessoa cindida: "Há uma distância entre minha mente e meu corpo. Estão em locais um pouco diferentes".

A certa altura, ela desaparece, e a dor da perda, a saudade e a memória dessa cidade que recriaram imaginativamente levam o protagonista, anos depois, a "cair" no Fim do Mundo, onde assume a função de "leitor de sonhos". Nisso, é auxiliado pela própria garota (ou por outra parte dela), que não se lembra do namorado. Equilibrando-se mal em circunstâncias difíceis, ele decide resgatar a sombra (a entrada na cidade pressupõe a cisão) e fugir com ela, isto é, voltar para o nosso mundo. No entanto, apenas a sombra retorna.

A segunda parte é a melhor, talvez pela introdução de dois personagens interessantes: Koyasu, um misterioso ricaço que emprega o protagonista em sua biblioteca, e o garoto com sua indefectível parca estampada com o Submarino Amarelo dos Beatles. As melhores passagens dizem respeito a esses dois: quando Soeda (uma funcionária da biblioteca) conta a trágica história familiar de Koyasu; os diálogos entre este e o protagonista, quando alguns mistérios são revelados para que outros se intensifiquem; e as conversas com o pai e os irmãos do garoto.

As coisas voltam a degringolar após um encontro onírico entre o protagonista e o garoto (ou algo simbolizando o garoto) no capítulo 60. A partir daí, o autor investe em uma reiteração cansativa de situações e "soluções" que são não apenas explicadas e reexplicadas como reencenadas.

Há, também, a injeção de um sentimentalismo — sempre à espreita, dada a extrema simplicidade da prosa de Murakami — que nada acrescenta e muito empobrece, sobretudo quando, ainda na segunda parte, a narrativa se fixa no relacionamento assexuado (que reitera e enfraquece o relacionamento assexuado da primeira parte) do protagonista com outra personagem, a dona do café.

No fim das contas (mas não no Fim do Mundo, por favor), o que A Cidade e Suas Muralhas Incertas tem de melhor pode ser encontrado, com maiores força e elegância, em outras obras de Murakami, incluindo naquele primeiro esforço de retrabalhar essas ideias; e o que o romance tem de ruim acaba por amesquinhar seus bons momentos, revelando o lado cansado, cansativo e autocondescendente de um escritor que já ofereceu jornadas melhores.

'A Cidade e Suas Muralhas Incertas', o novo livro de Murakami
'A Cidade e Suas Muralhas Incertas', o novo livro de Murakami
Foto: Companhia das Letras/Divulgação / Estadão

A Cidade e Suas Muralhas Incertas

  • Autor: Haruki Murakami
  • Tradução: Jefferson José Teixeira
  • Editora: Companhia das Letras (504 págs.; RS$ 80 e R$ 39 o e-book)
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Estadão
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