Quem foi Orides Fontela? Conheça a trajetória da autora homenageada da Flip 2026
Poeta chamou a atenção da crítica e ficou conhecida pela atualização que levou ao movimento modernista, abrindo caminhos para a poesia contemporânea
A poeta Orides Fontela (1940-1998) será a autora homenageada da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorre de 22 a 26 de julho de 2026. Nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, ela ficou conhecida pelas atualizações que levou ao movimento modernista, abrindo caminhos para o que hoje é entendido como poesia contemporânea.
Orides publicou seu primeiro livro, Transposição, em 1969, já perto de completar 30 anos, com a ajuda do crítico literário e seu conterrâneo Davi Arrigucci Júnior, que havia lido um poema dela publicado no jornal O município.
Publicou poemas no Suplemento Literário do 'Estadão'
Transposição continha poemas escritos durante sua infância e a adolescência e ganhou destaque entre entusiastas da poesia. O trabalho chamou a atenção de críticos como Antonio Candido (1918-2017) e Décio de Almeida Prado (1917-2000) e, com isso, Orides chegou a publicar poemas no icônico Suplemento Literário do Estadão.
A publicação de seu primeiro livro permitiu que a escritora se mudasse para a capital paulista para estudar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), onde teve aulas com a filósofa e escritora Marilena Chauí, que acabou tornando-se sua amiga. Ela também foi professora e bibliotecária.
Nos anos seguintes, Orides publicou livros como Helianto (1973), Rosácea (1986) e Alba (1983), que acabou lhe rendendo um Prêmio Jabuti. O envolvimento de Orides com a filosofia e com o zen-budismo, do qual ela foi praticante por muitos anos, tiveram grande influência em sua obra.
"Era difícil classificar a Orides porque ela juntava traços de várias vertentes poéticas. Tinha um rigor construtivo. Ao mesmo tempo que execrava poesia confessional, ela construía versos com estilo muito próprio e de uma depuração profunda. São poemas muito concisos no geral", diz Rita Palmeira, curadora literária da Flip 2026, ao Estadão.
Problemas financeiros e dificuldade para encontrar editoras
O caminho de Orides nem sempre foi simples: ela falou abertamente sobre ter enfrentado dificuldades financeiras e empecilhos para encontrar editoras para a publicação de seus livros. Também teve problemas com a imprensa, que a taxou como difícil e irritadiça.
"Essa é uma oportunidade de colocar em destaque a obra da Orides, que sempre foi ofuscada pela vida dela, pela precariedade material e instabilidade emocional dela, que compõem uma dobradinha que costuma cobrar um preço bem caro quando é associada a mulheres", explica Rita sobre a escolha.
Em 1996, Orides foi premiada pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) pelo livro Teia, sua última publicação em vida. "Teia é, de fato, meu livro mais sofrido, porque foi escrito em um período muito difícil de minha vida e essas coisas não podem ser escondidas. Há um seção, O Antipássaro, em que estão apenas poemas do tipo bronca. Esse meu lado não aparece em livros anteriores e talvez surpreenda os críticos. Meu melhor livro é Alba e não tem nenhum sofrimento, eu o escrevi sem nenhuma dor", disse ela ao Estadão, numa entrevista publicada em junho daquele ano.
Ela morreu pouco depois, em 1998, aos 58 anos, vítima de insuficiência cardiopulmonar, provocada por uma tuberculose. Em 2007, a autora foi laureada postumamente com a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, na categoria Grã-Cruz, do Ministério da Cultura. Sua prima, Maria Helena de Oliveira, foi a responsável por receber a honraria.
A obra da autora foi compilada em três publicações e ocasiões distintas: Trevo (1988, Livraria e Editora Duas Cidades), Poesia reunida (2006, Cosac Naify) e Poesia Completa (2015, Hedra). Esta última trouxe, além de seus livros conhecidos, mais de 20 poemas até então inéditos, escritos entre 1997 e 1998. A mesma casa editorial publicou O Enigma Orides, biografia da poeta escrita pelo jornalista e antropólogo Gustavo de Castro.
A Editora Hedra atualmente detém os direitos da obra de Orides e planeja relançar seus livros entre abril e maio deste ano. A escolha da poeta como autora homenageada e o relançamento de suas obras devem ajudar em um renascimento de sua poesia entre os leitores.
Leia o poema 'Memória', de Orides Fontela
A cicatriz, talvez/não indelével
o sangue/agora/estigma.
Nunca amar/o que não/vibra
nunca crer/no que não/canta.
O espelho dissolve/ o tempo
o espelho aprofunda/o enigma
o espelho devora/a face.
Livros de Orides Fontela
- Transposição (1969, Instituto de Espanhol da USP)
- Helianto (1973, Livraria e Editora Duas Cidades)
- Alba (1983, Roswitha Kempf)
- Rosácea (1986, Roswitha Kempf)
- Trevo (1988, Livraria e Editora Duas Cidades)
- Teia (1996, Geração Editorial)
- Poesia reunida (2006, Cosac Naify)
- Poesia completa (2015, Hedra)