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O Nascimento de uma Nação: do sucesso estrondoso à infâmia histórica

O filme O Nascimento de uma Nação, com direção de David W. Griffith em 1915, costuma ser lembrado por dois aspectos que se chocam entre si. Saiba por que hoje a produção é rejeitada.

29 jan 2026 - 10h01
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O filme O Nascimento de uma Nação, com direção de David W. Griffith em 1915, costuma ser lembrado por dois aspectos que se chocam entre si. De um lado, é frequentemente apontado como o primeiro grande fenômeno de bilheteria do cinema e uma obra que ajudou a consolidar a linguagem cinematográfica moderna. De outro, aparece como um dos filmes mais problemáticos da história. Isso deve-se à forma como retrata pessoas negras, à defesa aberta da supremacia branca e à reabilitação do grupo racista Ku Klux Klan.

Essa combinação de impacto estético e violência ideológica faz com que o longa-metragem seja tema recorrente em análises históricas, debates acadêmicos e discussões públicas sobre racismo nas artes. Por isso, para compreender por que o mesmo título pode ocupar um lugar de destaque na história do cinema e, ao mesmo tempo, ser classificado como infame, é necessário observar não apenas sua trama. Mas também o contexto político, os símbolos que mobiliza e as consequências que produziu fora das telas.

O filme de 1915 apresenta pessoas negras, muitas vezes interpretadas por atores brancos em blackface, como ameaças à ordem social, associando-as à criminalidade, à violência sexual e à incapacidade política – Domínio Público/Wikimedia Commons
O filme de 1915 apresenta pessoas negras, muitas vezes interpretadas por atores brancos em blackface, como ameaças à ordem social, associando-as à criminalidade, à violência sexual e à incapacidade política – Domínio Público/Wikimedia Commons
Foto: Giro 10

Por que "O Nascimento de uma Nação" foi pioneiro no cinema?

Antes de abordar os motivos que levaram o filme a ter fama de repugnante, muitos estudos destacam que O Nascimento de uma Nação introduziu e popularizou técnicas que moldaram o cinema narrativo. Afinal, Griffith utilizou montagem paralela, planos de diferentes distâncias, enquadramentos complexos e cenas de massa coordenadas em larga escala. Ademais, elementos como a alternância entre diferentes espaços para criar suspense e a organização dramática em três atos ajudaram a consolidar uma gramática visual que seria amplamente copiada ao longo do século XX.

O lançamento em 1915 também inovou no modelo de distribuição. Houve campanhas de marketing agressivas, sessões com ingressos mais caros que o padrão da época e apresentações em grandes salas, com acompanhamento musical sofisticado. Assim, a obra recebeu o tratamento de um evento cultural de grande porte, aproximando o cinema da lógica de espetáculo antes associada à ópera e ao teatro. Porém, esse sucesso de público veio acompanhado de um conteúdo político que, à luz dos valores e estudos atuais, é visto como profundamente racista.

Por que "O Nascimento de uma Nação" é considerado um filme racista?

A principal razão para que O Nascimento de uma Nação tenha, hoje, ampla rejeição é o modo como constrói sua narrativa sobre a Guerra de Secessão e o período da Reconstrução nos Estados Unidos. Afinal, o filme apresenta pessoas negras, muitas vezes interpretadas por atores brancos em blackface, como ameaças à ordem social, associando-as à criminalidade, à violência sexual e à incapacidade política. Em contraste, os personagens brancos sulistas aparecem como vítimas de uma suposta desorganização causada pelo fim da escravidão.

Essa visão distorcida não surge de forma sutil. Afinal, a obra parte de uma leitura abertamente racista da história, baseada no romance "The Clansman", de Thomas Dixon Jr. O livro defendia a tese de que a população negra liberta seria incapaz de conviver em igualdade de condições com a população branca. Assim, ao transformar essa narrativa em espetáculo de massa, o filme amplia e reforça estereótipos já presentes na sociedade da época. Ou seja, funcionando como um instrumento de legitimação de práticas discriminatórias e de violência racial.

Que papel a Ku Klux Klan desempenha no filme e por que isso é tão grave?

Outro ponto central para a reputação infame de O Nascimento de uma Nação é a representação da Ku Klux Klan. O grupo, responsável por atos de terror racial, linchamentos e intimidação de comunidades negras e aliadas, aparece como uma espécie de força salvadora da civilização branca. Assim, as cenas em que cavaleiros mascarados surgem para "restaurar a ordem" funcionam como apoteoses visuais, com uso de música, montagem rápida e enquadramentos que exaltam essas figuras.

Essa glorificação tem consequências históricas documentadas. Pesquisas apontam que o filme contribuiu para a revitalização da Klan nos anos 1910 e 1920, quando o grupo voltou a ganhar membros, poder local e visibilidade pública. Em algumas cidades, sessões do longa eram usadas como ferramenta de recrutamento. O cinema, nesse caso, não apenas reflete um preconceito existente, mas participa ativamente da reorganização de um movimento supremacista branco, transformando entretenimento em propaganda ideológica.

Quais elementos tornam seu conteúdo especialmente repugnante hoje?

Em 2025, o filme é visto de forma crítica devido à combinação de fatores narrativos, visuais e históricos. Alguns elementos costumam ser destacados em análises especializadas:

  • Desumanização de pessoas negras: os personagens negros aparecem como caricaturas, com trejeitos exagerados, fala infantilizada e motivações reduzidas a instintos primários.
  • Naturalização da violência racial: linchamentos, perseguições e ameaças são enquadrados como ações necessárias para "proteger" a sociedade branca.
  • Estupro como justificativa de terror: a narrativa sugere que a violência sexual seria um risco constante vindo de homens negros contra mulheres brancas, argumento historicamente usado para legitimar agressões e assassinatos.
  • Apagamento de vozes negras reais: não há espaço para experiências, perspectivas ou humanização de personagens negros; o filme fala sobre eles sem lhes conceder agência.

Esses recursos não funcionam de forma isolada. A força estética da obra aumenta o alcance de sua mensagem, transformando estereótipos em imagens marcantes, facilmente memorizadas e repetidas. Em vez de questionar preconceitos, o longa reforça hierarquias raciais e legitima estruturas de dominação herdadas da escravidão.

A discussão em torno de O Nascimento de uma Nação continua relevante porque mostra como uma obra audiovisual pode atuar no imaginário coletivo em larga escala – D. W. Griffith Corp. / Epoch Prod.
A discussão em torno de O Nascimento de uma Nação continua relevante porque mostra como uma obra audiovisual pode atuar no imaginário coletivo em larga escala – D. W. Griffith Corp. / Epoch Prod.
Foto: Giro 10

Como o filme é alvo de análises atualmente em estudos de cinema e história?

Atualmente, O Nascimento de uma Nação costuma ser abordado em ambientes de pesquisa, cinematecas e cursos de cinema com forte contextualização crítica. Programações que exibem o filme geralmente incluem debates, apresentações de especialistas e materiais explicativos sobre racismo, supremacia branca e o impacto social dessa produção. A ideia é evitar que a obra seja vista apenas como marco técnico, sem levar em conta as implicações éticas de seu conteúdo.

Em muitas instituições, o filme é estudado como exemplo de como a arte pode ser usada para fortalecer ideologias de opressão. Ele aparece em diálogos sobre propaganda, discurso de ódio e responsabilidade cultural. Ao mesmo tempo, seu papel na história do cinema é analisado de maneira separada do juízo moral sobre a mensagem. Essa abordagem permite reconhecer avanços formais e, paralelamente, examinar criticamente as estruturas de poder e desigualdade que esses avanços ajudaram a difundir.

Por que ainda é importante falar sobre "O Nascimento de uma Nação" em 2026?

A discussão em torno de O Nascimento de uma Nação continua relevante porque mostra como uma obra audiovisual pode atuar no imaginário coletivo em larga escala. Ao estudar o filme, pesquisadores e educadores observam como narrativas visuais constroem identidades, legitimam preconceitos e influenciam políticas públicas. Em tempos de plataformas digitais e circulação massiva de imagens, esse tipo de reflexão ganha ainda mais peso.

Ao longo de mais de um século, o longa deixou de ser apenas um sucesso comercial de 1915 para se tornar um caso emblemático de como um marco artístico também pode carregar um legado de violência simbólica. Essa combinação explica por que, hoje, o título é citado ao mesmo tempo como um divisor de águas na linguagem cinematográfica e como um dos trabalhos mais infames e repulsivos já realizados, especialmente pela maneira agressiva com que promove a supremacia branca e desumaniza pessoas negras.

Giro 10
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