Loulu, filha de João Gilberto, estreia na música, fala sobre pressão e lembra o pai: 'Era um doce'
Disco da filha do ícone da bossa nova apresenta 13 canções que traçam uma pequena história do gênero que seu pai ajudou a tornar célebre
É uma cena rara e tocante: João Gilberto (1931-2019), trajando pijamas e munido de violão, ensaia trechos de Garota de Ipanema, clássico da bossa nova, ao lado da filha Luisa Carolina, fruto do relacionamento com a jornalista Claudia Faissol. Ela canta e ele, claro, mostra um pouco da batida que o consagrou como um dos maiores nomes da música em todo o mundo. "Vamos ensaiar à beça", diz João, para depois ser informado de que a participação da menina será mínima - ao lado de um coral formado por estudantes da escola.
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O vídeo de 2015, divulgado à farta na plataforma de streaming YouTube, foi a primeira aparição, digamos, artística de Luísa, que hoje, aos 21 anos, assina como Loulu. Desde aqueles tempos que tem escutado - do pai, de amigos dele, da mãe - que o canto era sua verdadeira vocação. Mas nem sempre cravou que faria disso a sua profissão. "Tinha muito medo: era insegura e não achava que minha voz fosse boa o suficiente", diz ela, em entrevista ao Estadão. "Ser cantora é uma decisão que exige muita coragem porque a expectativa é grande e a pressão pode ser paralisante."
Loulu, o disco, que chega agora às plataformas de streaming, é fruto de uma rotina espartana, que incluiu aulas de canto, violão e quase um ano para seleção de repertório. E mostra que as preocupações dela eram um tanto infundadas. Dona de voz pequena, porém afinada e dotada de sentimento, Loulu apresenta 13 canções que traçam uma pequena história do gênero que seu pai ajudou a tornar célebre: de Anjos do Inferno, grupo do qual João era fã, e sambas-canções a homenagens de devotos confessos como Caetano Veloso e Arnaldo Antunes.
E algumas surpresas "A seleção foi buscada na minha memória: standards de jazz como Tea for Two e Mr. Sandman, que têm uma cara mais pop", diz, referindo-se a sucessos eternizados por, respectivamente, Doris Day (entre muitos outros) e The Chordettes - que aqui ganham versões "joãogilbertinizadas", claro. "Depois eu, Mário e Cézinha começamos a bater uma bola e botar as canções na mesa e decidir o que podia entrar, o que iria ficar de fora porque a letra era datada…. Foi um entra e sai de canções até os 45 minutos do segundo tempo", explica Loulu.
Uma das boas surpresas do repertório é Dorme que eu Velo por Ti, que fez parte do repertório de Nelson Gonçalves (1919-1998). "Sou apaixonada pelo samba-canção, Nelson e pelos cantores do rádio. Me encantei muito por isso durante a pesquisa e foi uma coisa que, assim, se tornou uma paixão minha", diz ela, que mantém essa turma em alta rotação no fone de ouvido. "Tive um grande encantamento pelo samba-canção e pelos cantores daquela época. São impressionantes, assim, os compositores são de uma qualidade poética incrível e criaram canções lindas que acabaram esquecidas. Temos de lembrar deles e mostrá-los para as novas gerações."
No caso de discípulos de João Gilberto, há pelo menos dois destaques. Uma delas é Avarandado, de Caetano Veloso, que o compositor registrou ao lado de Gal Costa no disco Domingo, de 1967 - e que João registraria no álbum que lançou em 1973. "Avarandado foi escolhida justamente para homenagear o disco Domingo, que é um dos meus preferidos de todos os tempos. Ele tem uma coisa que conversa muito com o álbum que gravei agora", comenta.
Loulu assume o posto de Gal Costa (1945-2022) num dueto com Tom Veloso, filho de Caetano. "Tom é uma pessoa por quem tenho muito carinho, um artista que admiro profundamente, uma pessoa extremamente musical." Os dois se conheceram enquanto tiveram aulas de violão com Cézar Mendes.
João, por sua vez, é um tributo do mesmo Cézar Mendes e que traz a letra de Arnaldo Antunes. Gravada inicialmente em O Real Resiste, que o ex-Titã soltou em 2020, ela ganhou uma versão delicada por parte da cantora. "Cézinha compôs a melodia e harmonia e pediu para o Arnaldo letrar. Ele mostrou essa canção para o meu pai ainda em vida. Meu pai ficou impactadíssimo", diz a cantora.
E o que dizer de Joujoux e Balangandans, de Lamartine Babo (1904-1963), que João gravou com Rita Lee (1947-2023) em seu especial de TV? "Descobri a canção lendo a autobiografia da Rita Lee porque ela conta a história dessa gravação. Aí corri para o YouTube, coloquei o especial da TV Globo e fiquei fascinada. Hoje é uma das minhas músicas preferidas e foi a única vez que ele apareceu cantando sem violão", alegra-se. "A Rita é uma das minhas referências e cheguei a mandar uma carta para ela, falando dessa música. Não sei se ela chegou a ler", lamenta.
As recordações de João Gilberto
Loulu tem boas recordações de João Gilberto. Da voz doce e do jeito delicado dele mesmo quando ela, criança inquieta, fazia das suas. "Ele nunca levantou a voz para mim. Uma vez eu tive um acesso de birra e empurrei o violão. Ele falou: 'Minha filha, respeite o instrumento'", lembra.
"Era um doce, um pai carinhoso e sentia muito zelo por mim. Ele me teve mais velho, né? Acho que uma criança nessa idade traz uma alegria muito grande", comenta.
Pelo fato de ser temporã, Loulu custou também a entender a importância de João. "Minha mãe me explicava: 'Seu pai é famoso, é muito querido pelas pessoas.' Mas eu não entendia muito bem a extensão disso. Assistia ao show e dizia: 'Mas, gente, toda quarta-feira ele está aqui comigo', sabe?", comenta. "Eu só fui entender muito mais velha, assim, quando entrei na faculdade, comecei a ouvir música e a escutar música por mim que fui entender o tamanho e a importância dele."
Loulu, o disco, chega num momento importante em que o gênero tem sido revisitado por meio de cantoras em ascensão, como Olivia Dean, e ícones do funk pop como Anitta. E às vezes em obras equivocadas, como o tributo da cantora Luísa Sonza.
Embora ressalte que a qualidade dos arranjos e a seleção passe longe da ortodoxia, não deixa de fazer referência às inovações trazidas pelos bossanovistas: a começar pela capa, que faz referência aos discos da Elenco, companhia que lançou algumas das obras-primas da bossa nova, e uma estética que lembra os trabalhos da cantora Sylvia Telles (1934-1966) e um quê de nouvelle vague (cortesia de João Paulo Daniel e Cecília Carvalhosa, que assinam o projeto gráfico).
Passadista ou não, traz qualidades de uma artista que tem talento de sobra para permanecer no campo da MPB. João Gilberto certamente aprovaria: Loulu ensaiou à beça para criar seu disco de estreia.
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