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Jorge Drexler sobre música, sonhos, Bad Bunny e não ter vergonha de ser feliz: 'Ato de resistência'

Cantor e compositor uruguaio, um dos grandes nomes da música ibero-americana contemporânea, fala sobre suas raízes e conexões brasileiras; ele faz show em SP no sábado, 23

23 mai 2026 - 02h26
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Jorge Drexler é uruguaio, mas quase brasileiro. Fala português fluentemente, e é mais fácil citar os grandes nomes brasileiros com quem o cantor, um dos grandes nomes da música ibero-americana contemporânea, ainda não colaborou do que com quem ele já colaborou.

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Agora, ele até tem uma versão de um clássico da música brasileira em espanhol: O Que É o Que É?, de Gonzaguinha, virou Qué Será Que Es? nas suas mãos. E, em abril, a versão foi até tocada no Samba do Trabalhador, uma das rodas de samba mais tradicionais do Brasil, no Rio de Janeiro. Na mesma época, Drexler também deu um pulo em São Paulo e concedeu esta entrevista na redação do Estadão.

Agora, ele volta à capital paulista para se apresentar no Espaço Unimed no sábado, 23. Drexler tem um álbum recém-lançado, Taracá, com faixas inspiradas pelo candombe, ritmo tradicional do Uruguai reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade, ao qual o artista dedica a apresentação.

Mas o cantor também é muito aberto ao passado e ao futuro. Mantém uma amizade com Walter Salles: foi por uma música em um filme do diretor, Al Otro Lado del Río, em Diários de Motocicleta, que Drexler foi o grande vencedor da categoria de Melhor Canção Original no Oscar em 2005.

Também tem uma relação com Bad Bunny, a quem chama de "gênio", e costuma tocar um cover de Yo Perreo Sola, do porto-riquenho, em suas apresentações. Por causa dele, Drexler brinca, "nem na época do Dom Quixote a língua espanhola chegou a tantos lugares".

Na conversa com o Estadão, o cantor analisou a abertura mundial para a música latina - fenômeno pelo qual também tem grande mérito -, elogiou o funk carioca e citou seus três álbuns brasileiros favoritos. A entrevista foi condensada e editada para melhor compreensão.

Como veio essa vontade de fazer 'Taracá', um disco que é, ao mesmo tempo, tradicional e moderno.

Faz 30 anos que estou morando na Espanha. Sou uruguaio. Ano passado fiz 60 anos de idade e senti que precisava — embora sempre estivesse em contato com o Uruguai — voltar e me sentir de novo em casa. Foi um processo que me fez enormemente feliz e minha relação com o próprio país cresceu muito afetivamente.

Aconteceu também que perdi os meus pais. No momento em que seus pais vão embora, você sente a mesma necessidade de quando tem um filho: são dois processos extremos que te levam a reconectar com a sua raiz. Eu sempre tive relação com o candombe, mas achei um grupo novo no Uruguai chamado "Rueda de Candombe", que levou o ritmo para um formato derivado da roda de samba brasileira. Achei o formato adequado para o que eu esperava para o disco.

Falando em escola de samba, você esteve no Samba do Trabalhador e cantou 'Qué Será Que Es?', versão sua para um clássico de Gonzaguinha. Como foi essa experiência?

Foi um ato corajoso. Chegar em um samba como o Samba do Trabalhador, que muita gente fala que é o mais autêntico do Rio de Janeiro, com o Moacyr Luz como anfitrião e com todos os músicos lá, que foram muito generosos, para cantar um clássico do Gonzaguinha em versão espanhola... Eu pensei nesse formato sem ensaiar. Eu estava pensando que o Gonzaguinha é um patrimônio muito importante do Brasil e do mundo do samba. Quando você entra em coisas patrimonialmente importantes, dá um pouco de medo de alguém dizer que não precisa traduzir a música.

Mas essa música maravilhosa diz "viver e não ter a vergonha de ser feliz". Em um momento em que a celebração e a felicidade parecem dar vergonha diante de um mundo com conflitos horríveis, eu acho celebrar uma necessidade e um ato de resistência contra a polarização e contra o horror. Eu queria levar essa mensagem para fora do âmbito da língua portuguesa, então fiz essa dupla adaptação do português ao espanhol, com permissão da família de Gonzaguinha, que aceitou generosamente. E fiz uma adaptação do samba ao candombe com o maior amor e respeito. Toda vez que eu ia para uma roda de samba e chegava essa música, a grande catarse acontecia. Ela tem estrofes em tonalidade menor, mais reflexivas e filosóficas, até que desemboca no refrão feliz e celebratório. Acho essa música uma obra de engenharia de canção perfeita.

Jorge Drexler faz show em São Paulo neste sábado, 23
Jorge Drexler faz show em São Paulo neste sábado, 23
Foto: Manuel Velez/Sony Music/Divulgação / Estadão

'Qué Será Que Es?' é realmente uma homenagem muito bonita para a música brasileira... O Brasil te recebeu, mas tem gente que fala que somos culturalmente isolados na América Latina pela língua e estilo. Você concorda?

Eu concordo. O Brasil, pela sua dimensão gigantesca e isolamento linguístico, tem o costume de ser autorreferencial e olhar para a sua própria música. Dá para entender, porque o Brasil tem seu próprio Olimpo... Mas o Brasil também ouve muito os Estados Unidos e se identifica com essa oxigenação afro-americana e afro-brasileira.

Eu me sinto enormemente honrado de dizer que me sinto em casa no Brasil, mas isso não é habitual para cantores em espanhol que não têm sucesso nos Estados Unidos. Shakira e Bad Bunny entraram no Brasil pelo norte. Eu entrei pelo sul, por meio dos músicos, quando Paulinho Moska me convidou em 2003 para vir ao Rio de Janeiro. Eu me senti recebido pela minha geração como se fosse um brasileiro. Fiz uma lista das colaborações brasileiras que fiz e é mais fácil dizer quem ainda não colaborou ou interagiu comigo.

E, em 2005, você até estava no Oscar ganhando Melhor Canção Original por um filme do Walter Salles ['Al Otro Lado del Río', em 'Diários de Motocicleta']. Vinte anos depois, estamos vivendo um momento bonito no cinema brasileiro, inclusive com o próprio Walter. Como você tem visto essa presença do Brasil no Oscar?

Estou muito feliz porque estou muito vinculado ao Walter. Quando eles ganharam o Goya e o Walter não pôde assistir, ele me pediu para subir ao palco e ler o discurso dele [Ainda Estou Aqui venceu o prêmio de Melhor Filme Ibero-Americano]. Sinto-me parte disso, porque, na época do Oscar, aquilo foi vivido no Brasil como uma vitória nacional. O filme Ainda Estou Aqui é incrível e muito comovente para mim. Eu sou dessa geração: nasci em 1964 e vivi a ditadura nos anos 1970.

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O clipe que lançamos para a música do Gonzaguinha é uma coleção de filmes em Super-8 que meu pai fez exatamente entre 1973 e 1978. A cor, a roupa e a atitude me pareceram muito familiares quando vi o filme do Walter. No vídeo do meu pai, aparece uma família muito prejudicada pela ditadura, com muitos indo para o exílio, mas o clima para as crianças era de brincadeira. Eles tentaram nos manter fora desse ambiente opressivo e do medo. Você vê uma vida aparentemente feliz, mas saber o que acontecia no background é muito comovente.

Na cerimônia do Oscar, você foi impedido de cantar 'Al Otro Lado del Río'. Hoje vemos nomes como Bad Bunny falando abertamente sobre questões sociais, como ele fez na cerimônia do Grammy. Por que você acha que agora o mundo está se abrindo mais para os latinos?

Isso tem a ver, primeiro, com a qualidade artística de Bad Bunny e da sua geração. Às vezes, o talento se concentra em personalidades, como aconteceu na década de 1960 na música popular brasileira com Chico Buarque, João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil. São milagres pessoais que acontecem a cada 100 anos. Na música em espanhol, há uma concentração de muito talento hoje em dia.

Mas também os Estados Unidos continuam sendo o distribuidor hegemônico de cultura no mundo. O reggaeton, originário de Porto Rico, utiliza a logística norte-americana para entrar no mundo inteiro. Hoje você ouve música de Porto Rico em todos os lugares, de Amsterdã a Dublin. Acho que nem na época do Dom Quixote a língua espanhola chegou a tantos lugares.

Você costuma ouvir Bad Bunny? Qual é a sua opinião sobre a música dele?

Adoro Bad Bunny faz muito tempo e sou muito fã dele. Na pandemia, fiz uma versão de Yo Perreo Sola, que canto ao vivo sempre que posso. Ele é um gênio e um músico importantíssimo. Mostrei para ele minha versão em milonga, só com violão, e ele gostou.

Adoro essa música porque o personagem feminino que ele descreve é forte e independente, ela quer dançar sozinha sem ser molestada. Os personagens femininos dele são muito fortes. Fala-se muito do machismo no gênero urbano, mas isso se perde quando você chega ao Bad Bunny. As mulheres se sentem representadas. Tem que diferenciar sexualização de discriminação. Uma música muito sexual não é o mesmo que uma música discriminatória. Também sou fã do funk carioca, como do MC Kevin o Chris, e adoro o minimalismo desse gênero. Meu problema não é com a sexualidade, é com a falta de empatia.

@movistararenaes

Increíble. Jorge Drexler canta "Yo Perreo Sola" de Bad Bunny en el concierto de Rawayana en Madrid #yoperreosola #jorgedrexler #badbunny #rawayana #conciertos

sonido original - Movistar Arena España

Agora falando sobre a língua portuguesa, você já sentiu vontade de lançar um álbum em nosso idioma? Ou há algum brasileiro com quem você sempre quis cantar junto, mas nunca conseguiu?

Eu gostaria de lançar um álbum em português, mas com minhas próprias versões, como milongas e candombes em português. Não faria algo mimético, mas aportaria minha visão, como Caetano fez em Fina Estampa. Ainda sonho em fazer algo com Gilberto Gil e Maria Bethânia.

Último álbum de Jorge Drexler é 'Taracá', com faixas que exploram o candombe, ritmo tradicional no Uruguai.
Último álbum de Jorge Drexler é 'Taracá', com faixas que exploram o candombe, ritmo tradicional no Uruguai.
Foto: Manuel Velez/Sony Music/Divulgação / Estadão

Quais são seus três álbuns brasileiros preferidos?

Começo por Chega de Saudade (1959) [álbum de estreia de João Gilberto], que mudou minha relação com a música ao mostrar que dava para juntar música instrumental de alto nível com poesia e precisão harmônica. Outro é Totalmente Demais (1986), do Caetano Veloso, que foi minha entrada no violão brasileiro e me fez entender seu mundo harmônico. E Construção (1971), do Chico Buarque. Também cito Quanta (1997), do Gilberto Gil, que me permitiu misturar meu lado científico com a música e falar de coisas que vão além dos temas habituais. O Gil é um mestre nisso.

Há algum tema sobre o qual você nunca conseguiu encontrar palavras para cantar?

Praticamente toda a realidade da vida. Eu não escrevo sobre o que eu quero, escrevo sobre o que eu posso. Temas importantes como a violência contra a mulher, por exemplo, eu já escrevi, mas sinto que não é suficiente. É preciso procurar a excelência artística para tratar temas assim. Muitas vezes volto ao mesmo tema, como o amor, mas mudo o "como" conto isso, já que o prisma vai girando ao longo da vida.

Serviço - Jorge Drexler em São Paulo

  • Quando: 23/5, sábado.
  • Onde: Espaço Unimed. Rua Tagipurú, 795, Barra Funda.
Estadão
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