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Lou Lou Gilberto lança álbum com gravações não lançadas do pai: 'Como se ele tivesse voltado para me ensinar'

Filha de João Gilberto lança álbum de estreia aos 21 anos e reencontra o pai através de músicas raras encontradas na internet

20 mai 2026 - 09h21
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Lou Lou Gilberto estava montando o repertório do primeiro álbum quando encontrou gravações antigas do pai no YouTube. João Gilberto cantando músicas que ela não sabia que conhecia, mas conhecia. Músicas que estavam guardadas num lugar muito particular da memória, num canto da infância onde ainda era possível ouvir o violão dele na sala. "Foi uma coisa muito importante, muito impressionante. Era como se ele mesmo, no outro plano, tivesse voltando ou de certo nunca tivesse ido, pra me ensinar essas músicas", conta a cantora de 21 anos em entrevista à Rolling Stone Brasil.

Foto: Divulgação / Rolling Stone Brasil

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Foi um processo muito bonito de aprendizado. Reencontrar as gravações, reconhecer as melodias, lembrar da voz dele. "O Amor Nos Encontrou", "Qui Nem Jiló", "Manias", "Duas Contas", "Beija-me". Canções que ele cantava e ela ouvia, pequena, sem entender ainda que aquilo era um presente. "Essas músicas estão num lugar da minha memória. Ele cantava e eu ouvia. Quando encontrei as gravações, pra montar o repertório, soaram familiares".

E agora essas canções voltam ao mundo através dela. No álbum Loulu Gilberto, que chega em maio, ela canta o que aprendeu com o pai, o que o pai cantava pra ela, o que ficou guardado todos esses anos. É memória individual virando memória coletiva. É infância virando arte. É luto virando música.

Quando João Gilberto faleceu, em 2019, Lou Lou tinha uns 14 anos, quase 15. E parou de cantar completamente. "Porque eu cantava com ele. E aquilo foi me fazendo uma falta tremenda". Foi aos 16 que ela percebeu que queria — ou precisava — voltar. A pandemia tinha acabado, tudo voltando à normalidade. E ela sentiu muita saudade de cantar.

"Cantar foi a forma que eu encontrei de estar perto do meu pai, de cultivar a memória dele. Então foi muito importante essa volta pra mim".

E estar perto do Cézar Mendes também era, de certa forma, estar perto do pai. Porque eles eram grandes amigos. E "Cezinha" sempre vinha com muitas histórias dele. "É legal continuar".

Mas tinha um problema: Lou Lou tinha medo. Não achava que a voz era boa o suficiente, essas coisas. E fazia birra. Quando a mãe mandava cantar, ela fazia charme. A grande virada de chave foi o estudo. "Porque eu acho que é só isso que traz a confiança. Você aprender, estudar música, estudar canto. Isso é que mune a gente".

Memória do Brasil

Loulu Gilberto não é só um disco sobre a memória pessoal dela. É sobre a memória coletiva também. "Esse disco fala com a memória inconsciente que formou a identidade cultural do Brasil. Então, é uma coisa… é um dos grandes pilares dele é esse: é a memória".

O repertório reflete isso. Tem as canções aprendidas muito cedo em casa, como "Tea for Two" e "Mr. Sandman", clássicos do jazz americano que o pai tocava. Tem "Jou Jou e Balangandans", "Cuidado com o Andor", "Dorme Que Eu Velo por Ti". E tem as canções que ela encontrou nas gravações raras do YouTube ou registradas por amigos e familiares.

"O Amor Nos Encontrou" é especial. Existia só numa gravação privada do pai. É uma música linda, melodia incrível e letra maravilhosa: "Ela foi registrada com uma outra letra, porque na época o pessoal teve um desentendimento. E a letra que foi registrada foi outra, que ele provavelmente não gostou, porque de certo ia gravar. Não gravou". Então a música tinha ficado praticamente esquecida no tempo. "Muito legal que eu tenha feito isso e gravado ela pra que agora todo mundo possa ouvir".

E tem as cantigas populares "Cavalo-Marinho" e "Bicho Curutú", que o pai cantava pra niná-la. "São canções muito lindas, elas são as canções mais simples, que têm um ar mais simples do disco. E fecham a homenagem".

Sobre as faixas

"João", de Cézar Mendes e Arnaldo Antunes, foi a que mais demandou emocionalmente. Abre o álbum. É uma canção muito bonita que dimensiona o pai dela pro mundo. "E aquela coisa da nação. Então, é muito doido pensar, né? Porque pra mim é meu pai. Mas é muito doido dimensionar dessa forma".

"Manias", de Flavio Cavalcanti e Celso Cavalcanti, gravada por Dolores Duran em 1955, Lou Lou descreve como canção-cinema. "É uma canção que provoca imagens muito fortes. A coisa da tinta fresca. Quem pode ver tinta fresca antes de passar o dedo. Essa imagem é tão forte que ela tem até um cheiro. É muito cinema isso".

"Avarandado", de Caetano Veloso, pontua a admiração dela pelo álbum Domingo (1967), de Gal Costa e Caetano. "É um dos meus discos preferidos de todos os tempos. Ele fala muito comigo porque eu acho que é um disco que é muito novo pra época. Pra mim hoje em dia, até hoje, é novíssimo, moderníssimo". E tem as canções lindas: "Vamos Embora pra Candeias", "Avarandado", "Nenhuma Dor". E os arranjos do Dori Caymmi. "O Dori com 23 anos, estreando de maestro nesse disco. É muito impressionante. É um disco muito jovem, mas que fala muito do passado. Então por isso eu me identifico bastante com ele, por isso que eu quis prestar essa homenagem".

Na faixa, Tom Veloso participa. "É uma honra muito grande poder estar com ele nessa faixa. Porque é um cantor e compositor que eu admiro profundamente, uma pessoa extremamente musical".

Equilibrar tradição e vontade

Como equilibrar toda essa tradição que o pai carrega com as coisas que ela quer colocar nas músicas? "Olha, eu acho que isso aconteceu de uma forma muito natural". Porque os arranjos do Mario Adnet têm um pouco das vontades dela. "Eles são arranjos que não necessariamente conversam com o minimalismo da Bossa Nova. São arranjos grandiosos, uma coisa mais big band".

Foi o que ela mostrou pro Mario quando disse que gostava. O disco da Silvia Telles, Amor em Hi-Fi (196), foi referência. Os Anjos do Inferno foram referência. Os conjuntos vocais dos Estados Unidos também. O disco da Nara (1967) também. "Esse disco foi referência. Os arranjos, acho que do Lincoln Olivetti".

E ficou balanceado. "É um disco que ele fala de memória, fala do passado, mas também fala muito do futuro também".

2026 e próximos passos

Falando em futuro, questionada sobre como é ser uma artista nova, em 2026, com redes sociais, algoritmo, várias trends, e fazer um disco tão único, tão atemporal, fora do tempo, Lou Lou sorri e respode: "Olha, eu acho que… eu não tenho muito… eu não sou uma pessoa muito das redes, do algoritmo. Então, eu acho que essa é uma linguagem que eu ainda tô aprendendo. Mas vai ser uma jornada".

"Fico muito feliz de ter conseguido fazer um disco tão verdadeiro, tão bonito, foi um sentimento de muita gratidão".

E esse é o disco. Memória individual virando memória coletiva. João Gilberto ensinando as filhas através de gravações no YouTube, como se nunca tivesse ido embora. Lou Lou aos 21 anos, cantando o que aprendeu, o que ouviu, o que ficou guardado. "Se meu mundo tivesse um som, seria o som desse disco".

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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