Museu no sul da França abriga coleção excepcional da brasileira Cérès Franco
A Cooperativa-Museu Cérès Franco, no sudoeste da França, abriga a coleção de arte única e excepcional da crítica de arte, curadora e galerista brasileira. Depois de três anos fechada para reforma, a instituição, instalada em uma antiga cooperativa vinícola de Montolieu, reabre a partir de 20 de junho.
Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Montolieu
A gaúcha Cérès Franco (1926-2021) foi uma pioneira. Ela inovou a cena artística parisiense depois de se instalar na França nos anos 1950, inicialmente como crítica de arte. Ao organizar uma primeira exposição, em 1962, intitulada "L'oeil de Boeuf", ou Olho de Boi, ela pediu aos artistas que realizassem somente obras em formato redondo ou oval, rompendo com o padrão quadrado vigente e desafiando a estética burguesa.
O princípio norteou o seu percurso. Em 1972, ela foi a primeira brasileira a abrir uma galeria de arte em Paris, batizada naturalmente de L'Oeil de Boeuf. Cérès Franco, que conhecia e frequentava todos os grandes artistas da época, de Picasso a Cocteau, defendia uma arte sem fronteiras. Ela também foi uma das primeiras a divulgar na França a arte bruta e naïf brasileira, na época ainda pouco conhecida e marginalizada.
A galerista estabeleceu um diálogo entre artistas populares e autodidatas com as vanguardas artísticas do Brasil, da Europa e de outras regiões. Para o diretor da Cooperativa-Museu Cérès Franco, Maximilien Fortier, a "liberdade" define a singularidade da colecionadora brasileira.
"O destino de Cérès Franco é particular e muito pessoal. Raramente uma pessoa na história da arte misturou tanto o pessoal e o profissional, especialmente no que diz respeito aos seus amigos, que eram quase todos artistas, para os quais ela solicitava produções com muita frequência. O que também é bastante original é o fato de ela apreciar muito a figuração, a cor e o aspecto internacional. Um termo que a define, e com o qual ela mesma se definia, é, acima de tudo, a liberdade", afirma Fortier.
Em 1995, a brasileira fechou a galeria em Paris e instalou sua vasta e singular coleção de arte moderna e contemporânea em duas casas em Lagrasse, no sudoeste da França, que abriu ao público. Seis anos antes de morrer, ela doou, em 2015, a coleção de 1763 quadros, de artistas de 39 nacionalidades, a Montolieu, um vilarejo de apenas 800 habitantes, mas com 16 livrarias, conhecido como cidade do livro e das artes. A coleção foi instalada em uma antiga cooperativa vinícola. O belo prédio, em estilo art déco, passou por reformas durante três anos para melhorar sua acessibilidade. Antes da reabertura, a instituição ganhou, em dezembro de 2025, o selo de Museu da França.
"Integrar a grande rede dos 1.200 museus da França, presentes em todo o território francês, era algo que Cérès Franco desejava conceder à sua coleção para poder preservá-la, especialmente garantindo sua transmissão às gerações futuras", salienta o diretor. "Temos também a missão de dinamizar a cultura no meio rural e mostrar que todas as nossas regiões possuem pequenos tesouros, como o nosso museu", acrescenta.
Duas exposições na reabertura
A Cooperativa-Museu Cérès Franco reabre com duas exposições. A mais importante delas, "Les aventuriers de l'oeil-de-boeuf" ou Os aventureiros do Olho de Boi, reúne 185 obras, de 100 artistas, para retraçar parte de seu percurso e homenagear a colecionadora brasileira.
"'Les aventuriers de l'œil-de-bœuf' é uma exposição que reconstrói a trajetória de Cérès Franco entre 1962 e 1972, ou seja, o período em que ela foi curadora e em que vemos que, partindo da crítica de arte e da escrita, ela acabará se tornando galerista", explica Maximilien Fortier.
Artistas de 25 nacionalidades estão representados nessa primeira mostra, entre eles cerca de vinte artistas de origem brasileira. "Essa é uma característica da Cérès Franco, que expôs bastante a arte naïf brasileira e buscou, por meio do 'L'œil de bœuf' e de diversas outras exposições, valorizar as obras de seu país natal", detalha o diretor do museu.
Entre os brasileiros expostos ou que integram a coleção estão Frans Krajcberg, Flávio Shiró, Waldomiro de Deus, Eli Heil, Pedro Paulo Leal e Gontran Netto, que fez o retrato de Cérès Franco no círculo central da bandeira do Brasil. Gontran era um exilado político brasileiro e, assim como ele, outros artistas refugiados da América do Sul ou da Europa do Leste também integram a coleção eclética de Cérès Franco.
"Corneille, Chaïbia, Cérès Franco des poèmes pour le monde" ou poemas para o mundo é a segunda exposição montada para a reabertura da Cooperativa-Museu de Montolieu.
Desconhecida no Brasil
"Estou bastante surpresa e bastante feliz com essa visita", comentou a jornalista brasileira e editora da revista francesa "Beaux Arts" Débora Bertol, que não conhecia muito bem o trabalho de Cérès Franco.
"Ela foi uma pioneira da crítica de arte aqui na França, e mesmo na história da crítica de arte, essa galeria L'Oeil de Boeuf foi realmente um lugar superimportante para as vanguardas artísticas da escola de Paris, nos anos 70 e 60", ressalta a jornalista.
Débora Bertol acredita que a reinauguração do Museu Cérès Franco irá contribuir para o devido reconhecimento da brasileira.
"Eu acho que a gente vai ouvir falar bastante dela agora, nesses próximos meses. É interessante porque os franceses também vão redescobrir essa personalidade que é interessante não só para o Brasil, em termos de história da arte, da crítica de arte brasileira, mas da França e internacional também, porque ela trabalhava com artistas do mundo todo", espera.
A jornalista, que estudou história da arte e crítica de arte, é categórica ao afirmar que nem no Brasil, onde fez exposições importantes na época da Ditadura Militar, Cérès Franco "é tão conhecida como deveria ser. E talvez esse seja o primeiro passo para restabelecer o papel dela na crítica de arte mundial, como uma brasileira", torce.
Mulher e brasileira
Cérès Franco também foi singular ao se impor como mulher e estrangeira em um meio artístico ainda dominado por homens franceses, ressalta Maximilien Fortier.
"O fato de ela ser uma mulher extraeuropeia em um ambiente masculino e francês, na Paris dos anos 1960, entre 1962 e 1972, marcou profundamente sua trajetória e fechou muitas portas. No entanto, podemos dizer que tudo terminou bem, já que hoje sua coleção está preservada e integra o patrimônio francês, acessível a todos", relativiza.
Para Débora Bertol, a curadora e galerista brasileira teve uma coragem extrema "porque realmente se lançar numa aventura dessas, sendo estrangeira, sendo mulher, é muito corajoso, é bastante impressionante o percurso dela. Ela deve ter batalhado muito para se impor e conseguir fazer valer a visão dela. Mas ela conseguiu e construiu uma coleção excelente".
As duas exposições de reabertura da Cooperativa-Museu Cérès Franco em Montolieu ficam em cartaz de 20 de junho de 2026 a 3 de janeiro de 2027, quando outras mostras, revelando novos aspectos da coleção e do percurso singular da galerista e curadora brasileira, serão montadas.
Para saber como chegar e visitar o Museu Cérès Franco clique no link. A descoberta da região e do museu vale a pena.
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