Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Ifá e Lukumí: O Chamado dos Orixás que é enredo nos desfiles das escolas de samba do Rio

Ao se falar em Lonã Ifá Lukumi, tratamos de um universo que reúne história, rituais e memória de uma tradição afro‑cubana.

11 fev 2026 - 14h02
Compartilhar
Exibir comentários

Ao se falar em Lonã Ifá Lukumi, tratamos de um universo que reúne história, rituais e memória de uma tradição afro‑cubana. Essa tradição dialoga com o candomblé, a santería e outras expressões da diáspora africana nas Américas. Esse caminho religioso nasce do encontro entre povos iorubás e o contexto colonial em Cuba. Hoje, ele ganha visibilidade no Brasil, especialmente a partir de pesquisas acadêmicas, do intercâmbio entre casas religiosas e, mais recentemente, do interesse despertado pelo enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti.

O termo Lonã, que significa "caminho" ou "via", somado a Ifá, sistema oracular e de conhecimento sagrado, e a Lukumi, nome que designa em Cuba os descendentes de povos iorubás, aponta para uma tradição específica. Essa tradição preserva mitos, liturgias e códigos éticos de origem africana em solo caribenho. No Brasil, esse legado recebe cada vez mais atenção. Pesquisadores, religiosos e artistas se aproximam das casas de santería em Cuba e, assim, estabelecem pontes entre práticas brasileiras e cubanas.

O que é Lonã Ifá Lukumi e qual a sua origem?

Lonã Ifá Lukumi define um caminho espiritual ligado ao oráculo de Ifá dentro do universo religioso lukumi, que se consolidou em Cuba a partir do século XIX. Essa tradição nasce com a chegada forçada de africanos escravizados, em grande parte de povos iorubás. Esses grupos recriam suas práticas religiosas em um contexto de repressão colonial. Em vez de desaparecerem, esses conhecimentos se adaptam. Desse modo, eles incorporam elementos locais e estratégias de disfarce, inclusive por meio da associação com santos católicos.

No centro dessa vertente está o culto a Orunmilá (ou Orula, na grafia cubana), divindade ligada à sabedoria e ao destino. O sistema oracular de Ifá media essa relação. Através de jogos de búzios, ikins (sementes sagradas) ou opelé (corrente divinatória), o sacerdote de Ifá, chamado de babalaô, interpreta signos. Esses signos orientam decisões, rituais e correções de desequilíbrios espirituais. Famílias e linhagens preservam essa estrutura em cidades cubanas como Havana, Matanzas e Santiago. Assim, elas formam uma rede de casas de santo e casas de Ifá que permanece ativa até o século XXI.

Por que Lonã Ifá Lukumi está chamando atenção no Brasil?

No Brasil, o interesse por Lonã Ifá Lukumi cresce por diferentes motivos. De um lado, pesquisadores de religiões afro‑atlânticas identificam na santería cubana e no Ifá lukumi um espelho histórico das próprias formações brasileiras, como o candomblé e a umbanda. De outro lado, sacerdotes e casas brasileiras criam vínculos com babalaôs cubanos. Eles participam de iniciações, estudos e intercâmbios rituais. Dessa forma, surge um fluxo constante de ideias, cantos, toques de tambor e formas de culto.

Além disso, esse movimento ganha um palco de grande visibilidade quando uma escola de samba como o Paraíso do Tuiuti transforma Lonã Ifá Lukumi em enredo. Ao levar esse tema para o desfile, a escola coloca na avenida elementos da cosmologia iorubá, da história dos lukumi em Cuba e da circulação desses saberes pela diáspora africana. Fantasias, alegorias, samba‑enredo e coreografias funcionam como ferramentas de divulgação de um patrimônio espiritual que, até recentemente, circulava principalmente entre terreiros e círculos de pesquisa especializados.

Como se estrutura o culto de Ifá na tradição lukumi?

Na prática religiosa de Ifá lukumi, a organização gira em torno de uma hierarquia de sacerdotes, rituais de iniciação e um vasto corpo de conhecimentos transmitidos de forma oral. O babalaô consulta o oráculo, interpreta os odu (conjuntos de signos) e indica sacrifícios, rezas e obrigações. Esses procedimentos buscam harmonizar a vida da pessoa que procura orientação. O processo inclui várias etapas rigorosas, desde a escolha do local de culto até o preparo dos objetos sagrados.

Uma visão geral dessa estrutura aparece esquematizada em etapas:

  1. Formação do sacerdote: longo período de aprendizado com um babalaô experiente, que inclui cantos, rezas, mitos e técnicas de jogo oracular.
  2. Iniciação em Ifá: rituais específicos estabelecem o vínculo do iniciado com Orunmilá/Orula e autorizam sua atuação como sacerdote, de acordo com as normas da linhagem.
  3. Consulta oracular: uso de ikins ou opelé para identificar o odu que rege a situação apresentada, sempre com cânticos e rezas.
  4. Prescrição de ebó: indicação de oferendas, obrigações e mudanças de conduta que visam corrigir desequilíbrios apontados pelo oráculo.
  5. Registro e memória: transmissão contínua dos itans (narrativas sagradas ligadas aos odu), o que garante a preservação do conhecimento entre as gerações.

Quais são os principais elementos simbólicos de Lonã Ifá Lukumi?

O universo de Lonã Ifá Lukumi reúne símbolos e objetos rituais que carregam significados específicos. Entre eles, destacam-se os colares consagrados, as pulseiras de contas de Orula, os opás (báculos), os tambores batá e os assentamentos dos orixás. Cada peça passa por um preparo cuidadoso, que segue rezas, oferendas e segredos preservados pelas famílias religiosas. Assim, esses elementos atuam como suportes concretos da força sagrada, ou axé.

Alguns desses elementos se agrupam da seguinte forma:

  • Instrumentos oraculares: ikins de dendezeiro, opelé, tabuleiros, búzios e pós sagrados que auxiliam na leitura dos odu.
  • Objetos de poder: ferramentas metálicas, pedras de fundamento e recipientes de barro ou madeira que abrigam a energia das divindades.
  • Paramentos pessoais: colares, pulseiras e vestimentas rituais que indicam o grau de iniciação e o vínculo com determinados orixás.
  • Música e linguagem: toques de tambor, cânticos em língua ritual lukumi e fórmulas de saudação que reforçam a sacralidade dos atos.

Como o enredo do Paraíso do Tuiuti contribui para essa redescoberta?

Quando o Paraíso do Tuiuti escolhe Lonã Ifá Lukumi como eixo do desfile, a escola abre um espaço de divulgação que ultrapassa o círculo dos terreiros. O samba‑enredo, os carros alegóricos e as fantasias transformam temas como escravidão, resistência, ancestralidade africana e circulação atlântica de saberes em imagens de grande impacto. Essas imagens dialogam com um público amplo e diverso. Desse modo, essa exposição estimula a curiosidade, incentiva pesquisas e amplia o repertório de debates sobre religiões de matriz africana no Brasil contemporâneo.

Ao mesmo tempo, essa abordagem levanta questões sobre representação, respeito e escuta das lideranças religiosas envolvidas. Muitas escolas de samba dialogam com sacerdotes e estudiosos para evitar simplificações ou distorções de conteúdos sagrados. No caso de Lonã Ifá Lukumi, a tendência aponta para um diálogo ainda mais intenso entre comunidades brasileiras e cubanas. Esse contato fortalece a circulação de saberes afro‑atlânticos, assim como o reconhecimento da importância histórica e cultural de Ifá e da tradição lukumi.

Lonã Ifá Lukumi – Riotour
Lonã Ifá Lukumi – Riotour
Foto: Giro 10
Giro 10
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade