Game Over Para Todos!
Nesta crônica reflexiva, o escritor Magno Ribeiro parte da lógica dos jogos multiplayer para desmontar a ilusão da vitória permanente. Ao lembrar que a vida não permite reinício nem ranking final, ele afirma que o verdadeiro sentido não está em vencer, mas em viver com inteireza, porque, no fim, é game over para todos
Sempre gostei de metáforas que aproximam a vida de algo concreto, porque elas funcionam como um teste de verdade: se a imagem encaixa, é porque havia ali algo real esperando para ser entendido. Metáforas não são ornamento, são pensamento em forma de linguagem. Elas organizam a experiência quando a experiência é grande demais. E num mundo em que tudo acelera, onde a rotina não dá tempo de sentir, comparar é uma maneira de parar e enxergar.
Hoje escolhi os jogos. Não porque eu seja um jogador, mas porque observo quem joga. Observo a tensão, a estratégia, a queda, a tentativa seguinte. E dessa observação foi se desenhando um cenário que, pouco a pouco, deixou de ser apenas entretenimento e passou a parecer espelho.
Nos jogos de batalha multiplayer, há sempre os que caem cedo, os que resistem até o fim, e ao final da partida, alguém permanece de pé. Um sobrevivente. Um vencedor. O sistema reconhece esse mérito: estatísticas, ranking, skins, recompensas. E mesmo para os que se depararam com o game over, uma nova rodada começa. Tudo recomeça.
Afinal, cada partida é mais do que um combate: é uma aventura em miniatura, com riscos, descobertas, alianças, reviravoltas e finais imprevisíveis. Nos jogos, a graça está na jornada: a cada fase, algo novo; a cada derrota, uma chance de tentar de novo.
Mas a vida não é assim.
A vida é o único jogo em que todos morrem no final, e ninguém joga duas vezes. Não há salvamento automático, não há tutorial, nem segunda rodada. Só um caminho, contínuo e irreversível.
Nela, não há campeões eternos. Não importa a estratégia, o desempenho, o nível alcançado, o desfecho é o mesmo. O corpo falha, o tempo vence, o processo se encerra. Um a um, todos os jogadores são desconectados.
Por isso, viver não é um duelo pela supremacia, mas uma travessia pela consciência. É a chance rara de experimentar a existência em estado bruto: errar, recomeçar, amar, romper, construir, falhar, e ainda assim seguir. O objetivo não é durar mais que os outros, mas dar sentido à própria jornada enquanto ela pulsa.
Há quem permaneça parado no primeiro nível, temendo o mundo lá fora. Outros disparam em velocidade máxima, como se pudessem ultrapassar o fim. Mas tanto os imóveis quanto os frenéticos descobrem, cedo ou tarde, o cansaço inevitável de estar vivo. Porque viver exige fôlego, mas também exige pausa.
A vida não é sobre ganhar. É sobre significar. É sobre ser inteiro na presença, profundo no instante, lúcido no percurso. E quando, enfim, a última fase terminar, que o fim não seja uma derrota, mas o encerramento de uma história plenamente jogada.
Porque, diferente dos jogos, aqui não há reinício para corrigir escolhas apressadas, nem atualização que apague excessos, nem nova rodada para refazer o que foi negligenciado. Cada gesto é definitivo no seu tempo. Cada palavra ecoa além do instante. Cada silêncio também conta.
Nos jogos, arrisca-se para vencer. Na vida, arrisca-se para viver. E viver exige consciência nas jogadas: exige intenção, presença, responsabilidade e, sobretudo, humanidade. Não se trata de acumular pontos, mas de construir sentido. Não se trata de sobreviver aos outros, mas de atravessar o próprio tempo com dignidade.
No placar final, não haverá ranking. Não haverá medalhas. Haverá apenas a memória do que fomos enquanto estivemos aqui.
E se o desfecho é inevitável, se ao final todos ouvirão o mesmo anúncio silencioso, que as nossas escolhas sejam inteiras, que nossas partidas sejam corajosas, que nossas pausas sejam conscientes. Porque, ao contrário dos jogos, a vida não permite ensaio.
No fim, não importa quem chegou primeiro, quem durou mais ou quem brilhou mais alto. Importa ter vivido de verdade.
Porque, inevitavelmente, é Game Over. Para todos.
Magno Ribeiro