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Holden Caulfield, personagem de Salinger, permanecerá vivo

31 jan 2010 - 10h33
(atualizado às 11h35)
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Com a morte de J.D. Salinger, nos perguntamos se ele ainda é para uma nova leva de adolescentes o mesmo que foi para milhões que leram O Apanhador no Campo de Centeio desde 1951: alguém com quem nos identificamos.

O impacto de Salinger na cultura americana nos últimos 50 anos é imensurável. Ele nos ensinou a torcer pelo observador subversivo, sensível e autêntico, e até mesmo tornou esse papel estiloso. Foi Salinger que pairou sobre a canção Working Class Hero de John Lennon, não foi? Ele não estava em algum lugar atrás das lentes de Larry Clark em seu livro fotográfico Tulsa ou em seu filme Kids? E quanto a Kurt Cobain, Gus Van Sant e Wes Anderson?

Mas pense por um minuto em como nós mudamos, em Xanax, Baby Einstein e Extreme Makeover: Home Edition. Facebook, celulares e conectividade ilimitada com nosso círculo de amigos. Gostamos de abraços coletivos, finais felizes e terapeutas para superar o luto. Harry Potter sempre vence no final.

Salinger "incorporava o tipo de resistência americana da qual sentimos falta amargamente nos últimos anos e que agora sentiremos muito mais", o romancista Jonathan Safran Foer disse à Associated Press.

Autenticidade, espiritualidade

"Foram todas embora", escreveu Henry Allen no Washington Post de sexta-feira: os jovens conseguem se identificar com o personagem Holden Caulfield, de O Apanhador no Campo de Centeio?

"Na maior parte, os jovens realmente adoram Holden ou realmente o odeiam", diz Dominick Giombetti, 42, que leciona sobre O Apanhador no Campo de Centeio na aula de inglês de sua turma da nona série na Escola Preparatória Tampa. "Não existe um grande campo intermediário".

Aqueles que o odeiam, conta Giombetti, ficam fartos das reclamações do personagem.

"Eles meio que pensam, 'Já basta. Por que você não age mais ao invés de reclamar?¿ Eles querem que Holden assuma as responsabilidades'".

O mesmo ocorre na aula de inglês de Heather Ewing no colégio Admiral Farragut Academy em Saint Petersburg. Eles estão lendo o livro agora, e alguns de seus alunos se cansam da contínua busca por identidade de Caulfield e de suas reclamações. Eles veem isso como imaturidade. Mas ainda existem muitos jovens que se identificam com o livro.

"Muitas coisas que ele escreveu no romance ainda existem e acontecem hoje", disse Nick Guarcello, 14, aluno do primeiro ano do colegial da escola Admiral Farragut que leu o livro duas vezes. "Ainda existem jovens que se sentem sozinhos e abandonados".

Mesmo vivendo numa era pós-Columbine, na qual não há onde se esconder, e a tristeza e o pessimismo são identificados, diagnosticados e tratados, existem maneiras de continuar sendo um observador desapegado. Ainda é possível ser solitário.

Giombetti, da Escola Preparatória Tampa, diz: "Perguntei aos meus alunos, 'Nesse mundo de Facebook, mensagens de texto, mensagens instantâneas e conectividade ao alcance dos dedos, vocês ainda se sentem sozinhos?'. Eles dizem, 'sim. Sem dúvida.'" É uma surpresa e ao mesmo tempo não.

"Holden está buscando sua identidade, tem medo de crescer e não quer enfrentar a realidade do que está acontecendo", disse Melisa Mayuri, 18, do último ano do colégio Palm Harbor University. "Essas são coisas que os adolescentes ainda enfrentam." Bem, alguns deles.

"Minha irmã realmente não gostou", disse Ariana Lazzaroni, 16, do penúltimo ano do colégio Palm Harbor University, que leu o livro três vezes.

"Ela falou, 'é só ele falando sem parar o livro inteiro. Nada acontece. Ele só fala.'

"Ela tem um pouco de razão porque a história não se orienta muito através de um enredo. É mais como a vida real. E a realidade é que a maior parte da sua vida de adolescente não é realmente sobre o que está acontecendo com você ou o que você está realizando, é sobre o que se passa dentro da sua cabeça. E isso pode ser confuso às vezes."

E é com isso que nos identificamos. O desespero. A confusão. Holden Caulfield precisa de um abraço.

"Queria que Holden fosse uma pessoa de verdade porque eu seria amiga dele", disse Lazzaroni. "Eu adoro a honestidade dele. Ele não faz bajulações. Ele não tenta ser nada que ele não seja. Ele não entra em nenhum joguinho do mundo. Eu entro. Não acho que eu seja parecida com ele, mas gosto de algumas das coisas que ele representa".

Na classe de Giombetti, na Escola Preparatória Tampa, os alunos criaram uma página do Facebook para Caulfield. As criações dos alunos são diversas. Um aluno surpreendeu Giombetti. A página do Facebook criada pelo aluno não possuía fotos nem amigos, nada além do nome: Holden Caulfield.

Na classe de Ewing, do colégio Admiral Farragut, uma das tarefas é diagnosticar Caulfield. Ela dá aos alunos uma lista de problemas de saúde mental para eles escolherem: transtorno bipolar, transtorno negativista desafiante, estresse pós-traumático, transtorno de personalidade limítrofe.

Em 2010, os adolescentes se saem bem na identificação de problemas que Holden Caulfield nunca soube que tinha. No que seria o ato final de J.D. Salinger, ele fez o que os adolescentes fazem: ele foi para o quarto com raiva e bateu a porta em desobediência eterna. De vez em quando, ele colocava a cabeça para fora tempo suficiente para ver que nós não mudamos realmente.

JD Salinger deixa seu legado
JD Salinger deixa seu legado
Foto: Getty Images
The New York Times
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