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Épico de Hollywood nasce ameaçado de boicote por rejeição a uma negra e um trans

‘A Odisseia’, de Christopher Nolan, gera debate sobre ‘wokismo’, liberdade criativa e preconceitos enraizados

10 jul 2026 - 10h59
(atualizado às 10h59)
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Muito antes de chegar aos cinemas brasileiros, na próxima quinta-feira (16), ‘A Odisseia’ já se tornou um dos filmes mais controversos da década.

Baseada no poema homônimo de Homero, escrito há cerca de 2.700 anos, a nova superprodução de Christopher Nolan, diretor cultuado por sucessos como ‘Oppenheimer’, ‘Interestelar’ e ‘A Origem’, está na berlinda.

Enfrenta uma onda global de críticas, campanhas de boicote e intensos debates nas redes sociais por escolhas de elenco interpretadas como militância em prol da agenda ‘woke’.

No centro da polêmica está a escalação da atriz queniana-mexicana Lupita Nyong’o (Oscar de Coadjuvante por ‘12 Anos de Escravidão’) para interpretar Helena de Troia.

A personagem se consolidou no imaginário ocidental como uma mulher branca associada ao ideal europeu de beleza. É como aparece em pinturas, esculturas e filmes.

No cinema, justamente, essa imagem foi sedimentada pela alemã loira de olhos claros Diane Kruger em ‘Troia’ (2004).

Outro foco de controvérsia envolve o ator transexual Elliot Page, indicado ao Oscar por ‘Juno’ quando ainda se apresentava no gênero feminino e usava o nome Ellen Page.

Apressadamente, o tribunal da internet concluiu que ele faria Aquiles, o grande guerreiro dos gregos, descrito na obra original como alto, forte, veloz e com cabelos dourados, personalizado por Brad Pitt também em ‘Troia’.

Surgiu um tsunami de críticas e deboches sobre colocar um homem trans de estatura baixa e franzino (1,55 m de altura e cerca de 50 kg) para viver o herói símbolo da masculinidade.

Esta semana, a exibição de ‘A Odisseia’ a jornalistas e influenciadores esclareceu que o papel de Page no longa é Sínon, o astuto guerreiro grego que convence os troianos a aceitar como presente o Cavalo de Troia.

Para os opositores, personagens da Grécia Antiga deveriam ser retratados com as características físicas tradicionalmente vinculadas ao biotipo europeu.

Atacam Nolan por ele supostamente promover o ‘wokismo’, ou seja, uma abordagem que busca ampliar a representatividade de grupos historicamente sub-representados (como negros e transexuais), por meio de reinterpretações.

É um reflexo de uma disputa ideológica também presente no Brasil, especialmente entre setores radicais da direita e da esquerda, em torno do identitarismo.

Ou seja, da corrente de pensamento que enfatiza a valorização de questões ligadas à raça, gênero, orientação sexual e pertencimento cultural.

Já os defensores da produção afirmam que a obra de Homero nunca foi um documento histórico, mas uma narrativa permeada por elementos mitológicos e alegóricos. 

Para eles, a promoção da diversidade e da inclusão em ‘A Odisseia’ corrige décadas de invisibilidade e marginalização no cinema.

Lupita Nyong’o e Elliot Page se tornaram alvo de ódio por fazer parte do elenco de 'A Odisseia'
Lupita Nyong’o e Elliot Page se tornaram alvo de ódio por fazer parte do elenco de 'A Odisseia'
Foto: Fotomontagem: Sala de TV

Mudar ou não mudar, eis a questão

A crítica literária canadense Linda Hutcheon afirma em seu livro ‘A Theory of Adaptation’ que “o processo de adaptação sempre envolve (re)interpretação e (re)criação”. 

Na opinião dela, adaptar uma obra significa necessariamente fazer escolhas e oferecer uma nova leitura, e não apenas reproduzir literalmente o texto original.

Sob essa perspectiva, os simpatizantes de Nolan sustentam que sua função não é atuar como um arqueólogo da literatura clássica, e sim um artista que dialoga sob as influências do presente com um registro literário de quase três mil anos.

Quem discorda argumenta que a tradição sustentada por séculos deveria ser respeitada, sem alteração de elementos considerados essenciais à identidade dos personagens, como a cor da pele e o sexo biológico.

O que está exposto, na verdade, é a ideia de que uma mulher negra não pode representar um padrão admirável de beleza feminina e um homem transexual seria incapaz de refletir uma virilidade convincente.

Caberá ao público pagante de ingressos fazer o julgamento e dar a sentença. Os filmes de Christopher Nolan geralmente se tornam grandes acontecimentos. Será diferente com ‘A Odisseia’ por essa polêmica?

Chama a atenção que ‘He-Man’, também marcado por personagens cuja aparência ficou cristalizada na cultura popular, alterou em recente filme algumas características étnicas sem provocar uma fúria semelhante.

Branca no desenho animado, Teela foi interpretada pela norte-americana de pais brasileiros Camila Mendes, uma mulher de aparência latina. Igualmente branco na animação da TV, Mentor surgiu na pele negra de Idris Elba.

Enquanto algumas mudanças passam despercebidas, sem suscitar questionamentos, outras inflamam a internet e desviam a atenção da questão mais importante: ‘A Odisseia’ é, afinal, um grande filme?

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