Marcio Rosario comenta realidade do brasileiro em Hollywood e desafios de filmar no Brasil
Artista envolvido em diferentes produções como ator, diretor e produtor fala ainda de projetos no teatro
Marcio Rosario está relacionado na plataforma IMDB a 70 produções de cinema e TV.
Várias no mercado norte-americano, como a novela ‘Days of our Lives’, o filme ‘Os Mercenários’ e a série ‘The Shield: Acima da Lei’.
No Brasil, foi visto em ‘Belíssima’, ‘I Love Paraisópolis’, ‘Fina Estampa’ e outros sucessos de audiência.
Nos últimos anos, prioriza o trabalho atrás das câmeras, como produtor e diretor.
Em entrevista à coluna, ele comenta os desafios de tirar uma produção do papel.
A projeção internacional de ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’ ajuda toda a comunidade cinematográfica brasileira ou isso é uma ilusão?
Sem dúvida nenhuma, as indicações desses filmes ao Oscar e a presença em grandes festivais de cinema no mundo, fortalecem a nossa indústria. Mesmo ainda sendo modesta, ela tem potencial cada vez maior de contar nossas histórias peculiares. Acredito que o cinema nacional voltou a ter o respeito que merece, tanto no campo político como na sociedade, depois do brutal e injusto desmonte realizado no governo passado.
Você teve longa experiência em Hollywood. Era muito mais difícil se destacar lá décadas atrás?
Vou dizer que foi mais difícil, pois entre o final dos anos 1990 e 2010, o Brasil era menos conhecido pelo seu potencial em cinema do que hoje. Nós, atores brasileiros, éramos colocados na categoria geral dos latinos. Isso nunca me incomodou porque pude fazer personagens de diferentes nacionalidades. Mesmo nossa grande estrela pioneira, Sônia Braga, só foi fazer personagens brasileiros depois de muito tempo por lá. Hoje isso mudou. Atualmente, tenho sido chamado para projetos que me veem como brasileiro, para representar meu país, e isso me deixa feliz. Vencemos mais um degrau nessa escada longa da vida profissional.
Quais seus recentes lançamentos e os principais prêmios em festivais?
Eu tive grandes conquistas em 2025 e já no início deste ano. Fiz minha estreia como diretor no documentário ‘Brinquedoteca, a Oficina Mágica do Seu Mauro’, que já conseguiu 4 prêmios internacionais, sendo em Angeles, Ahmedabad, Toronto e San Diego. O filme continua inédito no Brasil. É um documentário feito sem incentivos fiscais, que retrata a trajetória da ONG Brinquedoteca Eco, instituição sediada em Santos, no Litoral Paulista. Eles reaproveitam brinquedos descartados, fazem o restauro e destinam a crianças em situação de vulnerabilidade social. A obra apresenta o trabalho de voluntários dedicados à causa da ONG, além de destacar a importância da economia circular, da educação ambiental, da solidariedade e da sustentabilidade regional. Também produzi o curta-metragem de suspense ‘Hannah’, vencedor de 18 prêmios nos 28 festivais em que foi exibido.
E a carreira do curta ‘Bergamota’?
Após dois anos, o filme continua a conquistar prêmios mundo afora. De 169 festivais, conseguiu 129 prêmios em várias categorias, sendo 22 prêmios de melhor ator. Neste trabalho, pude mostrar uma atuação diferente do que normalmente faço em televisão e no cinema. Foi um investimento particular que trouxe um resultado lindo para mim e toda a equipe. Este filme lembra um longa que fiz no Japão em 2000, ‘Hyôryû-gai’ (The City of Lost Souls), dirigido pelo grande cineasta japonês Takashi Miike, que me levou a visitar mais de 60 festivais. Usei o mesmo modelo de produção para ter sucesso com ‘Bergamota’, e deu certo.
Como está o financiamento público/estatal para filmes?
Mais difícil do que nunca, e olha que o governo Lula tem criado mecanismos para fortalecer a indústria do audiovisual. Porém, existe ainda um favoritismo para as grandes produtoras. As de pequeno e médio porte, como a minha, Três Tons Visuais Filmes, acabam morrendo na praia. Precisamos melhorar isso, fazer os produtores menores terem mais acesso às verbas. Além disso, defendo a regulamentação das plataformas de streaming.
A Lei Rouanet funciona?
Na minha experiência, tem funcionado melhor do que a Lei do Audiovisual. Estou envolvido agora em um média metragem documental chamado ‘História Infinita’, dirigido pelo mesmo diretor do nosso premiado ‘Hannah’, o Thomas Mehler. Aprovamos na Rouanet e fui atrás da captação de recursos. Levamos doze meses no desenvolvimento e na estruturação do filme. Esse roteiro apresenta protagonistas da terceira idade.
Verdade ou mito que apenas produções com elenco de atores famosos consegue altos patrocínios?
Para responder isso, preciso explicar que os departamentos de marketing das empresas e seus diretores detêm o poder de escolher em qual projeto aportam seus incentivos fiscais. As produtoras que conseguem a aprovação da Rouanet têm o trabalho árduo de fazer chegar o projeto às mãos dessas pessoas. A maioria das grandes empresas prefere realmente usar o dinheiro em filmes com atores mais conhecidos. Falta uma democratização, com recursos aplicados a elencos sem nomes da TV. Produtores menores são ignorados e acabam bancando suas produções, como eu fiz ao longo de muito tempo.
Quais são seus próximos projetos?
Como produtor, estou captando recursos para um filme chamado ‘De Tanto Amar’, dirigido pelo Daniel Ghivelder. Terá Lucinha Lins e Mel Lisboa como protagonistas em cenas que queremos rodar na Serra Gaúcha. E estou à frente de uma excelente comédia romântica que será dirigida pelo Raphael Alvarez, um dos diretores do premiado documentário ‘Dzi Croquetes’. Como ator, tenho três projetos já filmados. Um deles é ‘Ecos Sob a Pele’, dirigido por John Christian e Gabriella Katz. Trata-se de um filme forte e atual, feito com orçamento pequeno, de 75 mil reais. O outro se chama ‘YAWÓ’, do cineasta santista Fabricio de Lima Luiz. E faço uma participação na minissérie ‘Emergência Radioativa’, dirigida pelo fantástico Fernando Coimbra, sucesso atual na Netflix.
Pensa em voltar a fazer novelas?
Amo fazer novelas, acho um dos melhores exercícios para o ator. No ano passado, cheguei a negociar com dois projetos, mas, infelizmente, tive problema de agenda. Na minha fase atual, as produções mais curtas são prioridade, pois, além de serem filmadas mais rapidamente, oferecem personagens mais polêmicos. Um dos meus objetivos é voltar ao teatro, não só como diretor, mas também como ator. Estou com dois textos potentes do Vitor de Oliveira, um dos autores de ‘Bruta Flor’, espetáculo que dirigi em várias temporadas de sucesso. Quero montar essas peças em breve.
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