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O segredo por trás do dia do Orgulho Nerd

Aproveito sempre esse dia para convidar as pessoas a expandirem seus horizontes, seus gostos, sua consciência.

25 mai 2018
11h59
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No século 20, não existia esse negócio de nerd nem geek. Muito menos de orgulho de ser nada disso. E eu fui adolescente nessa época: fiz 15 anos em 1980.

Contei essa história quase uma década atrás, em 2009, em um texto que deu muito assunto, chamado "Eu Nunca Fui Nerd". E nunca fui. E não sou. E não comemoro do Dia da Toalha. E tenho ótimas razões para isso.

Recapitulando: comecei a ler HQ em 1970, cinco anos, por causa da série do Batman. Em 78 vi Star Wars, Superman e meu primeiro 007 no cinema. Com quinze anos seguia lendo gibi etc., mas também bebia, fumava, namorava, ouvia rock, tinha amigos maconheiros, arriscava umas reuniões de movimento estudantil, fabricava lança-perfume para vender em festinhas do colégio etc. Com 17, tudo isso e ainda era presidente do centro cívico.

Só que não achava que ser tudo isso aí e ler, digamos, Denny O’Neil, Isaac Asimov, Jorge Luis Borges e Dante Alighieri fossem coisas excludentes. Em 1982 minha luz-guia era a “Heavy Metal”, revista americana de quadrinhos que considerava HQ, rock, filmes underground, drogas, alta e baixa literaturas, design e videogames tudo parte do mesmo balaio, um balaio muito cool chamado “cultura pop que importa”.

Foto: Kreg Steppe | Visualhunt.com | CC BY-SA

Nunca tive o menor complexo de inferioridade por gostar do que gosto ou não ter lido isso ou aquilo. Continuo não tendo.

Fiz minha parte para popularizar o termo Nerd. A capa da revista “General” nº 3, em 1994, era uma pauta intitulada “A vitória dos nerds”, e entrevistei para ela o VJ Luiz Thunderbird, então recém transferido da MTV para a Globo.

Fui criador e editor da revista Herói durante séculos. A Herói era uma revista para fãs - hoje, seria para nerds ou geeks, gente apaixonada por quadrinhos, animação, ficção-científica, seriados, terror, cultura pop japonesa. E muitos fãs, hoje adultos, se lembram dela com muito carinho. Existe um livro que conta toda a história da Herói, todos os bastidores, com todas as capas e tal, e sou co-autor ― se você era leitor, recomendo!

Quando escrevi esse meu texto em 2009 explicando porque não sou Nerd, a palavra Nerd queria dizer essa coisa boba de “sou um gordinho espinhento, antisocial e rancoroso porque não consigo namorada, mas como sei tudo sobre Marvel / Tatsunoko / filmes de Kung Fu / a série do momento / games obscuros da Sega etc., sou superior a estes plebeus populares.” É estereótipo, mas muita gente se acomodou nele.

Mas de 2009 para cá, muita coisa mudou. Para melhor. A internet mudou para melhor, e oferta de tudo. Hoje temos múltiplos serviços de streaming e assinaturas, inclusive de livros e quadrinhos (assino gibis americanos que aparecem automaticamente no meu tablet semanalmente). O cinema e as séries abraçaram definitivamente os gêneros fantásticos, em toda sua diversidade. E as redes sociais aproximaram fãs de diferentes gerações, gostos, continentes. São o lugar por definição da discussão infinita entre fãs, inclusive, claro, das tretas.

Quem fuça a internet à procura de novidades vai ser apresentado a outras coisas que têm a ver com seu gosto, e assim os repertórios vão se expandindo. Essa questão do repertório é fundamental.

Eu sei um trilhão de coisas sobre quadrinhos e cinema e outras várias coisas que  fazem automaticamente parte do “universo geek”. Mas sou crítico, o que para mim é a única diferença que importa. Esse negócio de gostar das coisas de maneira babona, acrítica, cega me enoja. E não sou crítico somente no sentido de criticar “por dentro”, como alguém que conhece profundamente aquela saga ou aquele gênero. Mas crítico no sentido de conseguir olhar de fora.

Você sorriu ao ver a foto dessa estante? Você é um geek!
Você sorriu ao ver a foto dessa estante? Você é um geek!
Foto: Barwickdp | Visualhunt.com | CC BY-NC-SA

É perfeitamente possível gostar de alguns filmes de Star Wars e outros não; ou de Tarkovski; ou de Chabrol; ou gibis do Batman; ou livros do Philip Roth; ou qualquer coisa. Me irrita trombar jovens que acham que a vida se resume a ler gibis da Marvel, jogar Fortnite , assistir anime etc.

Tem muito mais coisa interessante por aí. Assistir 200 episódios de seriados por mês, quando você podia estar assistindo um filme do Mario Monicelli, é coisa de retardado mental e emocional. Paixão, sim. Visão estreita, não, por favor.

Vou mais longe: quem só lê gibi não entende o que está lendo. Porque os caras que escrevem gibi leem outras coisas, e os caras que desenham são interessados em arte em geral, não só em quadrinhos. Se você tem um repertório mais variado, vai fruir de uma maneira muito mais profunda seu artefato pop predileto.

O exemplo mais na cara é A Liga dos Cavaleiros Extraordinários, de ― sempre ele ― Alan Moore. Cada página faz alusão a algum universo ficcional, a maioria literários. Se você não pesca as referências, a Liga perde 90% da graça.

Vale para gibi e para quase tudo na vida. Quem nunca tomou uma margarita não sabe que gosto tem um burrito. Você pode perfeitamente se divertir com as novas aventuras de Han Solo, e ponto final.

Mas se por acaso sabe que o diretor do novo filme, Ron Howard, fazia o nerdinho protagonista da série Happy Days (74), e seu ídolo era o roqueiro Fonz, e Fonz é uma das matrizes de Han Solo ― uau! Surpresa!

Sem falar que você vai curtir muito mais Star Wars se ler a obra de Joseph Campbell, e sua série O Poder do Mito. E ler Carl Jung, e assistir os filmes de Kurasawa, e por aí vai.

Luke, claro, é o estereótipo do geek, por excelência: sozinho, durango, incompreendido pelos mais velhos, sem amigos nem namorada. Sonhando com aventuras distantes, impossíveis. Que virão - se você se abrir para elas.

Uma versão revisada de Peter Parker. Uma versão de cada um de nós, no começo da Jornada do Herói. Por isso é tão justo que o Dia do Orgulho Geek, ou Nerd, ou o Dia da Toalha, seja comemorado no dia que Star Wars estreou, 25 de maio, lá em 1977. Mesmo que eu não celebre a festa.

Não sou nerd, nem geek, mas não implico mais com as palavras. Quando implicava, explicava para os incautos que nerd é um cara que gasta mais dinheiro e mais tempo que a média com coisas em que as massas normalmente não gastam dinheiro nem tempo. Por exemplo, é de se esperar que um homem de 25 anos de idade gaste muito tempo e dinheiro com, digamos, carro e futebol, e saiba tudo sobre carburadores e escalações.

Mas hoje é raro quem estranhe que um cara (ou, aliás, uma mulher) dessa idade curta filmes de super-herói, passe horas no PlayStation ou vá anualmente à Comic Con Experience. O mundo nerd faz parte do mainstream, talvez a principal parte.

O Geek virou o novo normal. O que é ótimo. E por um outro lado, convida todos nós a sermos mais fuçadores, mais abertos, mais esquisitos. Se o mundo geek agora é tão acessível, cabe a alguns de nós procurar estímulos no que está mais escondido.

Hei, que tal esse mês assistir 3 séries da Netflix por mês e só? E no restante do tempo assistir filmes produzidos antes de 1980, e de preferência metade falados em línguas que não o inglês? Aposto que vais ficar surpreso com tanta variedade. Que tal ler alguns dos autores favoritos de Tolkien, em vez de mais uma fantasia com elfos e trolls, mais versão aguada de sua saga?

Digo mais: tem nerd que simplesmente não entende o que está assistindo, lendo, curtindo. Simplesmente por ignorância, por falta de repertório e reflexão. Quando vejo fãs de Star Wars pedindo a volta da ditadura militar e aplaudindo seus defensores, repito o que li outro dia por aí: tem gente que acha que faz parte da Aliança Rebelde, mas na verdade é Stormtrooper.

Em qualquer saga que se preze, o inimigo é sempre o autoritário, o fundamentalista, quem quer restringir nossas liberdades, e quer homogenizar nossas diferenças. Na vida real, também.

Ficou louco pra ter essas canecas? Bem-vindo ao clube!
Ficou louco pra ter essas canecas? Bem-vindo ao clube!
Foto: Jimmy Tyler | VisualHunt.com | CC BY-NC-SA

Se você se sente meio incomodado ou atacado quando lê essas linhas, saiba que te falo isso de coração porque me importo. Quero o seu bem. Você é um dos meus. Te admiro porque já trabalhei com gente que parecia o mais fechado, acrítico e recalcado nerd por fora; e por dentro era de ouro.

E porque já trabalhei com gente que tinha desprezo por nerds e fãs e todo mundo que tem paixão infantil e teen e pura no coração. Gente que achava que a única coisa a fazer com essa nerdaiada era tirar o máximo de dinheiro dos trouxas. Assim tratava a quase todos com quem convivia, e assim tratava a mim. Aturei mais que devia. Não ature.

Eu sei que o mundo não se divide entre nerds e normais, ou geeks e populares. O mundo se divide - para efeito deste texto, pelo menos - entre gente interessante e desinteressante (e se você sabe tudo sobre suas nerdices, mas se coloca ao lado do Darth Vader e do Thanos, sinto muito, mas você não é interessante).

Para mim, saber quem é Jim Steranko, Carl Stalling, Ken Adam ou Flávio Colin - de uma lista interminável de ícones geeks - faz uma pessoa ser instantaneamente digna de atenção (e saber quem é Montaigne, Bakunin, Orwell e Hitchens, para citar quatro que li essa semana, idem).

Se você leu esse texto até aqui, já merece a minha atenção. E meu muito obrigado, claro.

Agora: se a figura conseguir conectar Conan com Alice no País das Maravilhas via pintores pré-rafaelitas e socialismo fabiano, estamos falando de uma pessoa interessante. Que não lê só gibi. Mas lê gibi.

Quer ter orgulho de ter nerd, tenha. Quer ter orgulho de não ser nerd, não tenha. Ou tenha orgulho de ser ambos, conforme a hora, conforme o momento. Como dizia Walt Whitman: eu sou muitos, contenho multidões.

Eu não tenho orgulho de ser nerd, nem geek, porque essas coisas não existiam quando eu era moleque. Só amo o que amo, com fidelidade e infidelidade, sem preguiça nem preconceito.

Eu leio gibi. Você não? Que dó. E leio livros também, e vou a museu, e à Comic Con Experience, ouço música que nunca fez nem fará sucesso e ouço música hits também. Eu não como só feijoada, nem só sashimi.

Eu não comemoro o Dia da Toalha, mesmo tendo lido todos os livros de Douglas Adams. Porque acho que a maioria dos fãs entende essa data como uma oportunidade para celebrar os aspectos mais bobocas da nerdice. Pô, mas você é um velho ranzinza, hem?

Mais ou menos. Curto um outro lado do Dia da Toalha, que é a parte mais provocante, mais arriscada do Mochileiro das Galáxias. Esse é o verdadeiro significado do dia do Orgulho Nerd: a toalha não é pra você se enrolar nela e ficar assistindo série em casa. A toalha é para o mochileiro cair na estrada, pegar carona, se aventurar por aí.

Por isso aproveito sempre esse dia para convidar as pessoas a expandirem seus horizontes, seus gostos, sua consciência. E não ter vergonha de gostar do que gostam, seja oficialmente parte do mundo dos geeks, ou completamente distante dele.

A Jornada do Herói é, literalmente, uma jornada: exige iniciativa, movimento, despreendimento, abandonar o confortável, a certeza.  Aprendemos nos arriscando, convivendo com diferentes, praticando a curiosidade e a tolerância. Somos melhores quando somos diversos.

A vida é uma viagem... e se você quiser levar uma toalha, fique à vontade.

Geek

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