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Exposição leva 148 artistas latino-americanos a cinco andares do Masp

Mostra 'Histórias latino-americanas' fica aberta ao público até janeiro de 2027 e tem obras de Diego Rivera, Cecilia Vicuña e Damián Ortega

7 set 2026 - 06h06
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Resumo
O Masp inaugurou a exposição coletiva "Histórias latino-americanas", que reúne 187 obras de 148 artistas de 20 países no novo edifício Pietro Maria Bardi. Em cartaz até janeiro de 2027, a mostra divide-se em cinco núcleos e explora narrativas coloniais, disputas territoriais e a identidade da região a partir de uma perspectiva trans-histórica, com trabalhos que vão do século 16 à contemporaneidade, incluindo obras inéditas no país e peças criadas especialmente para o evento.

Nada menos do que 148 artistas expõem na coletiva internacional Histórias latino-americanas que o Masp (Museu de Arte Moderna de São Paulo) inaugurou na última sexta-feira, 4. Cinco andares do novo edifício Pietro Maria Bardi exibem 187 obras de artistas vindos de 20 países, entre os quais Peru, Argentina, Chile, Colômbia, México e Porto Rico, além do Brasil. Histórias latino-americanas estará aberta ao público até 31 de janeiro de 2027.

Essa exposição nasceu a partir do programa Histórias, idealizado pelo diretor artístico Adriano Pedrosa, que anualmente propõe um novo diálogo. Foram organizadas Histórias da infância (2016), Histórias da sexualidade (2017), Histórias afro-atlânticas (2018), Histórias das mulheres, histórias feministas (2019), Histórias da dança (2020), Histórias Brasileiras (2021-22), Histórias indígenas (2023), Histórias da diversidade LGBTQIA+ (2024), Histórias da ecologia (2025) e, agora, Histórias latino-americanas.

Mostra coletiva do Masp é centrada em artistas latino-americanos; na foto, 'Ch'umil kaj/Estrelas na Via Láctea', do artista Manuel Chavajay
Mostra coletiva do Masp é centrada em artistas latino-americanos; na foto, 'Ch'umil kaj/Estrelas na Via Láctea', do artista Manuel Chavajay
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Segundo Amanda Carneiro, curadora da mostra, ao lado de Julieta González, curadora-adjunta, fazia sentido neste momento pensar na América Latina. "Queríamos reunir e rever muitas das questões que essas exposições já haviam colocado, como a formação das narrativas coloniais ou nacionais, as diásporas e as disputas pela terra, por exemplo", ela explica. E acrescenta: "Além disso, há também uma pergunta-guia muito específica: como pensar a América Latina a partir do Brasil, um país que pertence à região, mas que historicamente muitas vezes se imaginou separado dela? Partindo dessa tensão, investigamos como essa região foi imaginada por meio de imagens, narrativas, projetos políticos, formas de violência, circulação, resistência e comunidades."

Foram cerca de dois anos e meio para que a mostra fosse concretizada. Um primeiro seminário preparatório aconteceu em março de 2024, e a partir daí um extenso trabalho de pesquisa ganhou corpo com mais seminários, viagens, reunião de extensa bibliografia, visitas a coleções e conversas com artistas e instituições. "Mas o fechamento da lista de obras não ocorreu de uma só vez. Os pedidos de empréstimo a museus e coleções internacionais precisavam ser encaminhados com cerca de um ano de antecedência, envolviam aprovações institucionais, contratos, seguros, transporte internacional e, em alguns casos, procedimentos alfandegários", lembra Amanda.

Histórias latino-americanas está organizada em cinco núcleos: "O mundo ao revés", "Retórica do progresso", "Sociedades americanas", "Estamos em salsa" e "A queda do céu". E embora não seja tarefa fácil eleger as obras mais importantes da exposição, o público deve ficar atento a alguns nomes, como menciona a curadora.

"Em 'O mundo ao revés', destacaria Cecilia Vicuña, com um empréstimo do MALBA (Museu de Arte Latin-Americana de Buenos Aires), além de Sandra Gamarra Heshiki e Marcia X. Em 'Retórica do progresso', temos Juan O'Gorman, obra do Museo de Arte Moderno da Cidade do México, e Xul Solar. Em 'Sociedades americanas', reunimos Diego Rivera, um empréstimo do Museu de Belas Artes de Houston, Tina Modotti, do Museu Nacional de Arte do México, além de Firelei Báez, Daniel Lind-Ramos, Oscar Murillo e Belkis Ayón. Em 'Estamos em salsa', Antonio Caro, do Museu de Arte Moderna de Bogotá, Damián Ortega, do Museu Universitário de Arte Contemporanea da Cidade do México, Teresa Margolles, da Coleção Jumex, e Pepón Osorio, do Museu del Barrio de Nova York. Por fim, em 'A queda do céu', temos Germán Venegas, do Museu Amparo, também no México, bem como Wifredo Lam e Guadalupe Maravilla".

'A bordadeira', do artista Diego Rivera, é um dos destaques da exibição 'Histórias latino-americanas', no Masp
'A bordadeira', do artista Diego Rivera, é um dos destaques da exibição 'Histórias latino-americanas', no Masp
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Amanda enfatiza que a presença dessas obras mostra como uma exposição dessa dimensão depende de uma ampla rede de colaboração. "Muitos desses empréstimos são particularmente complexos, seja pela importância histórica das obras, por suas condições de conservação, pela escala ou pelas exigências de transporte e instalação, e reuni-los em uma mesma exposição permite estabelecer relações que dificilmente poderiam ser vistas em outro contexto".

Entre as mais de 180 obras reunidas, sete foram comissionadas. Elas são assinadas pelos brasileiros Marcela Cantuária, Marcelo Cidade, Podeserdesligado, pseudônimo de Guilherme Ferreira, e pelo coletivo JAMAC — Jardim Miriam Arte Clube, e pelos latinos Mariana Castillo Deball, Manuel Chavajay e Maurício Lupini. "O comissionamento aconteceu nos casos em que a prática do artista, ou um trabalho específico de sua trajetória, estabelecia uma relação muito precisa com as questões da exposição e pedia uma realização concebida especialmente para aquele contexto", conta Amanda. "Em alguns casos, isso resultou em uma obra inteiramente nova. Em outros, em um desenvolvimento ou em uma nova configuração de uma pesquisa já existente", completa.

Alguns artistas que expõem na mostra Histórias latino-americanas o fazem pela primeira vez no Brasil, como Maripaz Jaramillo, Fermín Revueltas e a Asociación de Artistas Populares de Sarhua. Outros, como Diego Rivera e Juan O'Gorman, nomes importantíssimos, têm obras inéditas no País. "Muitos dos artistas na exposição já tiveram trabalhos apresentados no Brasil, o que reflete a importância histórica de plataformas como a Bienal de São Paulo, a Bienal do Mercosul e o Videobrasil para a circulação da produção latino-americana. Importante também destacar que a mostra permite ao público brasileiro conhecer obras fundamentais de museus e coleções privadas que nunca haviam sido apresentadas no país", diz a curadora.

A obra 'Diorama penetrável (4 florestas tropicais)', do artista venezuelano Mauricio Lupini, é parte de nova exposição do Masp
A obra 'Diorama penetrável (4 florestas tropicais)', do artista venezuelano Mauricio Lupini, é parte de nova exposição do Masp
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Duas referências ajudam a entender como a exposição foi pensada: os livros Tempo espiralar, da brasileira Leda Maria Martins, e O jogo da amarelinha, do argentino Julio Cortázar. "A mostra tem uma sequencia proposta, que vai de 'O mundo ao revés' a 'A queda do céu'. Mas os núcleos podem ser relacionados de outras maneiras, invertidos ou reorganizados pelos visitantes. Por exemplo, 'O mundo ao revés' conversa diretamente com 'A queda do céu' e 'A queda do céu' também responde à 'Retórica do progresso'. Não acreditamos em uma única cronologia, ou divisão por países ou uma única chave formal para organizar a complexidade dessas histórias. Mudar a ordem também produz outras leituras", ela sugere.

River Claure, nascido na Bolívia em 1997, é o artista mais jovem, e Olga de Amaral, nascida na Colômbia em 1932, a artista com mais décadas. Mas a exposição traz nomes de outros séculos, como Théodore de Bry, que nasceu em 1528, além de objetos pré-coloniais e trabalhos de autoria desconhecida. "É uma mostra trans-histórica, com produções separadas por séculos e também diferentes gerações e contextos de produção. Certas questões reaparecem e se transformam em condições históricas muito diferentes ao longo do tempo", lembra Amanda Carneiro.

O porto-riquenho Daniel Lind-Ramos também tem obra exposta na mostra do Masp
O porto-riquenho Daniel Lind-Ramos também tem obra exposta na mostra do Masp
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Dias antes da inauguração, alguns artistas circulavam pelas galerias do museu montando suas obras, fazendo ajustes. E cada um à sua maneira espera provocar uma troca com o público. O venezuelano Mauricio Lupini trouxe uma obra inédita, uma reconstrução do Penetrável de Jesús Rafael Soto a partir da obra do arquiteto venezuelano C.R. Villanueva. "Eu procuro estabelecer uma relação dialética com o espectador. Proponho um desafio, que ele complete a obra", diz o artista, que participou de várias exposições no país, entre elas, do Panorama da Arte Brasileiro do MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo.

O porto-riquenho Daniel Lind-Ramos também já esteve no Brasil e expôs na Bienal de São Paulo. "Minha intenção é criar um símbolo visual que dialogue com as nossas experiências compartilhadas, como nossas histórias, culturas e espiritualidades".

Além de provocações, Histórias latino-americanas, através de instalações, pinturas, documentos, mapas, esculturas, fotografias, têxteis e vídeos, quer revelar países, mais do que um continente. "Partimos da ideia de que América Latina não produz um pertencimento estável nem é uma identidade natural. Queríamos investigar como ela foi construída e é disputada até hoje. Mas a exposição não pretende encerrar a discussão, nem oferecer uma narrativa total sobre a região. Ao contrário, seu gesto é abrir a percepção sobre regimes visuais, temporalidades e questões", propõe a curadora.

Histórias Latino-americanas no Masp

  • Quando: 4/9 a 31/1. De terça a domingo, com horários específicos para cada dia da semana. Onde: Avenida Paulista, 1578, Bela Vista. Quanto: R$ 42/R$ 85
Estadão
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