Erva daninha ou superalimento? Redescobrindo o caruru
Durante muito tempo, o caruru foi presença constante na alimentação popular em várias regiões do Brasil e da África. Hoje, porém, essa planta quase não aparece nos pratos e é classificada, na maior parte das lavouras, como erva daninha. Saiba mais!
Durante muito tempo, o caruru foi presença constante na alimentação popular em várias regiões do Brasil e da África. Hoje, porém, essa planta quase não aparece nos pratos e é classificada, na maior parte das lavouras, como erva daninha. Ao mesmo tempo, o prato baiano chamado Caruru tornou-se símbolo da culinária de axé, mesmo sem ter a planta caruru entre os ingredientes principais. Assim, esse contraste levanta dúvidas sobre mudanças culturais, agrícolas e linguísticas que ocorreram ao longo dos séculos.
A planta de nome caruru pertence, em geral, ao grupo dos Amaranthus, também chamado em muitos lugares de bredo ou caruru-de-guiné. Suas folhas são ricas em nutrientes, com destaque para ferro, cálcio, fibras e proteínas. Portanto, isso a transformou em uma base alimentar importante em comunidades rurais. Ainda assim, o avanço de monoculturas, o uso intenso de agrotóxicos e a padronização dos hábitos alimentares contribuíram para que o caruru fosse afastado das mesas e ganhasse o rótulo de mato indesejado nas áreas de plantio.
Por que o caruru passou de alimento tradicional a erva daninha?
A mudança de status do caruru associa-se principalmente à transformação dos sistemas agrícolas. Com a modernização da agricultura, a prioridade passou a ser a produtividade de poucas culturas comerciais, como soja, milho e trigo. Dessa forma, plantas espontâneas que crescem entre essas lavouras, mesmo sendo comestíveis e nutritivas, passaram a ser "invasoras". Portanto, o caruru se encaixa nesse grupo porque germina com facilidade, cresce rápido e compete por luz, água e nutrientes.
Além disso, houve alteração significativa nos padrões de consumo. Afinal, a difusão de alimentos industrializados, a urbanização e a perda de saberes tradicionais reduziram o uso culinário de plantas espontâneas. Em muitas cidades, o caruru deixou de ser reconhecido como hortaliça e passou a ser apenas como "mato do terreno baldio". Assim, esse processo foi reforçado pela falta de políticas de incentivo às chamadas plantas alimentícias não convencionais (PANCs), categoria em que o caruru se enquadra hoje.
No entanto, do ponto de vista nutricional a planta não perdeu suas qualidades. Assim, estudos recentes continuam registrando teores relevantes de vitaminas, minerais e compostos bioativos nas folhas e sementes de espécies de Amaranthus. Por isso, o contraste está justamente no olhar social. Afinal, aquilo que antes era visto como recurso alimentar importante passou a ser encarado como obstáculo à produtividade agrícola.
Caruru ainda pode ser alternativa alimentar saudável?
Especialistas em nutrição e agroecologia apontam que o caruru mantém potencial para diversificar a dieta e melhorar a qualidade nutricional das refeições. Assim, folhas jovens, colhidas em áreas livres de agrotóxicos, podem ter seu preparo de forma semelhante à couve ou ao espinafre, compondo refogados, sopas e caldos. Ademais, as sementes de algumas espécies de caruru também são alvo de estudos como fonte de proteína vegetal e podem, em tese, ser usadas na produção de farinhas.
Em muitas comunidades rurais e quilombolas, ainda há o consumo do caruru com regularidade. Nesses locais, o conhecimento sobre colheita, preparo e época de brotação foi preservado. Assim, esse uso tradicional reforça a ideia de que a classificação de "erva daninha" depende do contexto. Afinal, no agronegócio, o foco é o impacto sobre a lavoura. Por sua vez, na agricultura familiar e em quintais produtivos, a mesma planta pode ser vista como hortaliça útil e de alto valor nutricional.
- Vantagens alimentares do caruru:
- Boa fonte de ferro, cálcio e outros minerais;
- Conteúdo relevante de fibras, auxiliando a digestão;
- Proteínas de origem vegetal, importantes em dietas com menos carne;
- Adaptação a diferentes solos e climas, o que facilita o cultivo.
Por que o prato baiano Caruru leva esse nome?
O prato baiano chamado Caruru, muito presente no candomblé e em celebrações de Cosme e Damião, tem seu preparo principalmente com quiabo, azeite de dendê, camarão seco, cebola e temperos. A principal hipótese para o nome está na origem africana da palavra. Afinal, em línguas de matriz banto, termos semelhantes a "kalulu" ou "caruru" eram usados para designar ensopados de vegetais, especialmente pratos à base de quiabo.
Ao chegar ao Brasil com a diáspora africana, esse tipo de preparo adaptou-se aos ingredientes disponíveis na Bahia. O quiabo, trazido da África, encontrou solo favorável no clima tropical. Por sua vez, o azeite de dendê, também de origem africana, entrou como elemento central. Assim, o Caruru baiano manteve o nome que remetia a um tipo de cozido, e não necessariamente à planta caruru que hoje cresce como espontânea em quintais e roçados.
Há ainda relatos de que, em algumas regiões, o termo "caruru" servia como designação genérica para guisados de verduras, folhas ou legumes. Com o tempo, a versão com quiabo tornou-se predominante nos terreiros e nas casas de santo da Bahia, consolidando o prato no calendário religioso e festivo. Dessa forma, o nome permaneceu, mesmo sem a presença direta da planta que hoje é chamada de caruru.
Como se diferencia o caruru-planta do Caruru-prato baiano?
Apesar da semelhança no nome, planta e prato ocupam espaços distintos na cultura alimentar. Afinal, a planta caruru é uma hortaliça espontânea, de folhas verdes, que pode ser usada em refogados, caldos e farofas, sobretudo em contextos rurais. Já o Caruru baiano é um preparo típico da culinária de matriz africana, com ingredientes específicos, ritos e significados religiosos associados.
- Caruru (planta):
- Geralmente espécies do gênero Amaranthus;
- Cresce espontaneamente em lavouras, quintais e beiras de estrada;
- Consumido como folha verde, rico em nutrientes;
- Frequentemente classificado como erva daninha na agricultura convencional.
- Caruru (prato baiano):
- Preparado à base de quiabo cortado em rodelas;
- Leva azeite de dendê, camarão seco e temperos;
- Presente em festas religiosas e oferendas;
- Elemento importante da culinária afro-baiana.
Essa diferenciação mostra como uma mesma palavra pode seguir caminhos distintos ao longo da história. Enquanto a planta caruru perdeu espaço nos hábitos alimentares urbanos e ganhou o rótulo de erva daninha, o prato Caruru consolidou-se como referência simbólica e culinária. O interesse crescente por alimentos tradicionais e por PANCs pode, contudo, reacender a atenção sobre o caruru como opção nutritiva, integrando novamente essa hortaliça ao cardápio em diferentes regiões do país.