Luiz Villaça fala de sua narrativa em 'O Contador de Histórias'
Luiz Villaça tem a narrativa como ofício. Com um trabalho extenso no teatro e na TV, ele estreou em longas-metragens em 1999, com o filme
Por Trás do Pano. Desde então, o cinema se tornou mais um meio para que esse contador de histórias comunicasse suas ideias. Com a estreia nesta sexta-feira (7) de seu novo filme, cuja produção é de Francisco Ramalho e da atriz Denise Fraga, sua mulher, Villaça tem a curiosa tarefa de contar a história de um outro contador de histórias: Roberto Carlos Ramos, o menino que cresceu na Febem e que, a partir do contato com uma educadora francesa, conseguiu reverter as mal traçadas linhas para seu futuro.
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Em entrevista exclusiva ao Terra, o diretor conversa sobre o que o levou a apostar nesse projeto e suas opções de roteiro em O Contador de Histórias.
Você entrou em contato pela primeira vez com a história do Roberto Carlos a partir de um livro que teu filho estava lendo. O que te atraiu nesse livro e qual foi o salto do livro para o personagem?
Na verdade, eu tava lendo pro meus filhos um livro infantil e daí quando eles dormiram, eu vi que a última história do livro era a história do contador de histórias. E daí que eu me deparei com a história do Roberto, que era o autor do livro. E na hora que eu li, tive certeza da necessidade de filmar. Tive uma vontade enorme e achava uma história necessária pro nosso cinema. E daí entrei em contato com ele logo depois. Teve até uma coincidência porque ele falou "tou voltando dos Estados Unidos agora, onde eu fui num congresso de contadores de histórias e acabaram de falar pra mim que minha história tinha que virar um filme. Então é um sinal, vamos atrás." E a partir daí foi uma longa história de desenvolvimento. Tive vários papos com ele, a gente gravou muita coisa pra começar o desenvolvimento do roteiro.
Boa parte da infância de Roberto Carlos é marcada por eventos que são absolutamente nada poéticos. O filme opta por usar vários desses eventos com várias figuras de linguagem. Essa foi uma escolha sua de diretor, foi algo conversado com o próprio Roberto Carlos. De que maneira você tomou essa decisão?
O Roberto não influenciou em nada o roteiro. O acordo que a gente teve quando eu tava fazendo a história é que eu não estava fazendo um documentário sobre a vida dele e sim um filme baseado na história dele. Então ele não participou do desenvolvimento do roteiro, mas era muito importante uma coisa: o Roberto só é um contador de histórias na minha opinião hoje, ele é esse grande contador de história porque ele durante sua vida inteira usou da fantasia para aceitação da realidade dele e da história dele. Isso tinha que tá no filme. Então todas as vezes que entra no filme a fantasia é pra mostrar um pouco a formação dele, pra mostrar por que é que hoje ele se tornou um contador de histórias, que é esse jeito genial que ele conta a história dele, transformando momentos absolutamente tensos de forte emoção numa fantasia. E acho que isso é uma das coisas que pega.
Você temeu que em algum momento esse elemento da fantasia ele disfarçasse o quão duro e quão real foi de fato a vida dele?
Não, pelo seguinte. Eu não tou fazendo um filme realista. Estou contando uma fábula, uma história de amor. Acho que tem grandes filmes que já foram feitos e preencheram isso. Por exemplo, quando se fala de Febem, a gente tem que citar de cara o Pixote, que é um filme que fala disso com a maior verdade e com o maior talento do mundo e é um filme que eu sou encantado. O Contador de Histórias nunca pretendeu isso. Meu filme fala de uma história de amor, uma história de disponibilidade entre duas pessoas de se relacionarem e que a partir daí transformaram as suas vidas. Fala de afeto, de generosidade, fala de emoção. E é isso que acho importante.Na tua opinião, quais são as virtudes de um bom contador de histórias?
As virtudes de um bom contador de histórias? Essa pergunta é difícil. Acho que no caso do Roberto, acho que ele tem um talento nato. Acho que ele tem uma criatividade e um grau de comunicação que é muito empolgante. Agora eu me considero um contador de histórias também e um contador de histórias fazendo um filme sobre um contador de histórias é uma relação estranha e curiosa. Mas acho que a virtude é você tentar ser simples, talvez. Grande virtude é contar de uma forma simples e fazer com que sua história de alguma forma se comunique com as pessoas que vão assistir.
Há algum próximo projeto já em mãos?
Tenho um próximo projeto em mãos, bem tenho uma série pra TV Globo, que se chama Norma, tem dois episódios este ano e tou começando a desenvolver o próximo roteiro que é em cima de um livro de um escrito uruguaio chamado Mario Benedetti, que é o Primavera num Espelho Partido.