'Queremos ser como Snoopy, mas somos Charlie Brown', diz Craig Schulz, filho do criador de 'Peanuts'
35 anos após último musical, turma do 'Minduim' retorna às origens em novo especial da AppleTV+: 'Snoopy Apresenta - Um Musical de Verão'
Não há nada como Peanuts. As tirinhas de Snoopy, Charlie Brown e a turma do Minduim, criadas pelo quadrinista norte-americano Charles Schulz em 1950, conquistaram o mundo e se tornaram uma das franquias infantis mais poderosas de todos os tempos — são filmes, séries, quadrinhos (publicados inclusive no Estadão; veja aqui o de hoje), produtos licenciados, roupas, brinquedos, entre outros.
Prestes a completar 75 anos — a primeira tirinha foi publicada no dia 2 de outubro de 1950 —, os Peanuts ganharam nesta sexta-feira, 15, um novo especial na AppleTV+. Em Snoopy Apresenta - Um Musical de Verão, a turma de Charlie Brown retorna ao formato que lhe rendeu clássicos como Feliz Natal, Charlie Brown (1965), Charlie Brown e a Grande Abóbora (1966) e Um Garoto Chamado Charlie Brown (1969).
35 anos após o último musical da franquia, os Peanuts apostam novamente em um especial musical. A produção é roteirizada por Craig Schulz, filho de Charles Schulz e responsável pela direção criativa da franquia nos últimos anos, e dirigida por Erik Wiese, conhecido por seu trabalho em Bob Esponja e Samurai Jack. Além disso, o especial também conta com canções de Ben Folds e Jeff Morrow.
"Você sempre está tentando fazer algo melhor", afirmou Craig Schulz ao Estadão. "Fizemos sete especiais de Snoopy Apresenta com a Apple, mas você sempre quer se superar. Então, por que não fazer um musical? Me pareceu a melhor decisão criativa possível", disse o roteirista e produtor executivo. A aposta, no entanto, foi ousada. Segundo Craig, quase ninguém no projeto havia trabalhado em um musical antes. "Foi um novo desafio para nós, mas de alguma forma fizemos com que funcionasse".
Na trama, Charlie Brown e seus amigos vão para o Acampamento de Verão durante as férias escolares. É a primeira visita de Sally Brown, irmã do protagonista, ao local. Apesar de todas as crianças mais velhas adorarem o acampamento, a garota não vê a mínima graça no lugar. Quando a turma recebe a notícia de que o acampamento irá fechar, todos se reúnem e lutam para que o local continue aberto, permitindo que outras crianças também criem boas memórias no acampamento.
Apesar da empolgação do público com um novo musical, uma coisa chamou atenção dos fãs — nas tirinhas, o Acampamento de Verão costuma ser odiado pela turma de Charlie Brown. O que mudou? "No especial, é o quinto ano de boa parte das crianças no acampamento. Eles se adaptaram. Se essa fosse a primeira vez que eles estivessem indo ao local, as coisas seriam diferentes. No caso da Sally, é o primeiro ano dela e ela não gosta de lá", justificou Craig Schulz.
"Há um mural de recordações no acampamento", relembrou Erik Wiese, diretor do especial, ao Estadão. "Quando você vê a parede, percebe imagens de Charlie Brown em seu primeiro ano lá. Ele odeia o lugar. Os Peanuts nunca crescem nas tirinhas, mas se eles crescessem, talvez passassem a amar o lugar com a idade", disse. "Agora, os mais velhos esperam que Sally também passe a valorizar o acampamento".
A melancolia de Charlie Brown
Como é de se esperar em uma produção dos Peanuts, o tom melancólico da narrativa está presente ao longo do especial. Se é verdade que as últimas sete décadas da franquia são marcadas pelo humor, a obra de Charles Schulz também ficou conhecida por abordar temáticas sentimentais e reflexivas. São famosas as tirinhas onde os personagens fazem questionamentos existenciais e lidam com temáticas como ansiedade, depressão, entre outros males.
Em Um Musical de Verão, no entanto, há um diferencial que chama atenção. "O Charlie Brown ama o acampamento desde o começo. Ele não é garoto melancólico que conhecemos, aquele local faz com que ele fique feliz", afirmou o diretor Erik Wiese. "É por isso que ele ama tanto estar lá. Quando isso é ameaçado, é aí que a melancolia entra. A tristeza dele se torna justificada".
Segundo Craig Schulz, o tom emocional do especial é proposital. "Quando você cria esse tipo de obra, você quer que as pessoas se emocionem". Balancear o humor e o sentimento, então, se torna um grande desafio. "Eu amo comédia, mas não queria estragar o especial com muito humor. Meu pai poderia ter colocado o Snoopy em todas as tirinhas, mas ele entendeu que às vezes precisava se segurar e mirar em algo maior do que somente a graça", confessou.
O roteirista e produtor executivo revelou que sua experiência com a produção do longa Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme (2015) lhe mostrou o que realmente importava na obra de seu pai. "Um dos produtores me falava que o filme tinha de ser mais engraçado. Fiz uma pesquisa com cerca de 50 pessoas e pedi para elas me definirem, em apenas uma palavra, sobre o que se tratava Peanuts. Nenhuma das pessoas escreveu 'engraçado', 'comédia' ou 'humor'. Ali, entendi que Peanuts não era sobre graça, mas sobre emoção."
Por que 'Peanuts' ainda é tão relevante?
75 anos após a sua criação, o legado da obra de Charles Schulz é inegável. Os motivos, no entanto, são os mais variados. Para o filho do autor, o segredo é a identificação. "Não importa quem você seja ou de onde você é, sempre há um personagem de Peanuts que você vai se identificar. Todo mundo quer ser um pouco como o Snoopy e fazer o que der na telha. Mas, todo mundo é um pouco de Charlie Brown, lidando com os altos e baixos da vida", afirmou Craig Schulz.
O produtor executivo também entende que, para as novas gerações, a ambientação antiga de Peanuts se torna atraente. "Quando o Snoopy usa uma máquina de escrever, as crianças ficam malucas. Elas querem entender o que é aquilo", disse o roteirista. "Se você tentar modernizar Peanuts, você irá perder a essência deles. Eles vivem na década de 1970, isso nunca mudará".
Já o diretor Erik Wise ressaltou o conforto trazido pela obra como um grande diferencial. "Há tanto caos acontecendo ultimamente, especialmente na internet. Vejo que as pessoas estão procurando espaços acolhedores. Nas redes sociais, vejo inúmeros memes de Charlie Brown e Snoopy e acredito que as pessoas encontram esse local em Peanuts."
O compositor Ben Folds, responsável pelas canções originais do especial, tem algumas hipóteses sobre o que mantém Peanuts tão relevante. "Não é uma obra preto no branco ou barulhenta, há nuances. Ninguém nunca está sempre certo ou errado. Acima de tudo, é um trabalho que não insulta a inteligência do espectador. E, além disso, é uma obra linda", confessou o músico.
Para Folds, a forma com que Schulz escrevia sobre as dificuldades da vida se tornou o grande trunfo de sua criação. "Nada nunca é tão simples. Há raras ocasiões em que estou tão feliz que esqueço que existem coisas ruins no mundo. Isso nunca aconteceu comigo, nem quando eu era criança".
O fato das tirinhas serem voltadas para o público infantil, mas não adocicarem temáticas complexas é o que torna as mensagens tão poderosas para Folds. "As crianças não são estúpidas, elas sabem que o mundo é um lugar complexo. Charles Schulz criou um universo onde essa nuance é permitida."
O legado de Vince Guaraldi
Se a escrita e o humor de Charles Schulz são inseparáveis da turma de Charlie Brown, há outro artista que também se destaca por sua influência na franquia. Trata-se do músico Vince Guaraldi, principal responsável pelas trilhas sonoras dos especiais dos Peanuts da década de 1960 e 1970. Assim como a temática melancólica e existencialista, as canções compostas por Guaraldi se tornaram marca registrada da série.
Para honrar tamanho legado, o compositor Ben Folds foi escolhido. O músico já trabalhou com a obra de Schulz, sendo o responsável pela trilha sonora do especial Snoopy Apresenta - São as Pequenas Coisas, Charlie Brown (2022). Ao ter o seu nome anunciado, diversos fãs da saga celebraram a escolha. Para eles, o trabalho de Folds tem tudo a ver com Peanuts.
"Não vejo muita gente fazendo o que eu faço", contou Folds. "É uma escola muito particular de composição de música, um estilo da década de 1960. Há um tom ingênuo nas canções, algo retrô". Logo, compor para uma animação que se passa nesse período se tornou algo natural. "Não tenho que fingir ou mudar minha forma de escrever música quando componho para os Peanuts. É quem eu sou."
Apesar de ter Vince Guaraldi como uma de suas grandes inspirações, Folds também celebra o legado de artistas norte-americanos de jazz como Dave Brubeck e Jimmy Smith. "Não me sinto pressionado para ser o próximo Guaraldi. Ele é alguém mágico, que toca o piano de uma forma única. É como se o seu estilo fosse casado com a personalidade de Charlie Brown, não é apenas feliz ou triste. É ambos.", afirmou.
"Ele fez todas essas as coisas brilhantes, eu só escrevi canções que afetam a narrativa e expandem as emoções dos personagens", confessou Folds. Para o compositor, o trabalho de Charles Schulz e Vince Guaraldi motivaram toda a produção a se esforçar para criar algo digno do legado de tais artistas.
"Eu sou velho, mas nasci depois de Peanuts. Quando você cria algo tão bonito quanto essa obra, você obriga as pessoas que trabalham nela a se esforçarem para fazer um bom trabalho", afirmou. "Eu talvez não seja um bom compositor para o próximo grande blockbuster, mas sou perfeito para Peanuts", finalizou Folds.