'Qualquer pessoa pode cair na armadilha de um sistema totalitário', diz diretora de 'Rabia'
Mareike Engelhardt falou sobre as dores e os desafios de contar a jornada de mulheres presas ao Estado Islâmico; filme chegou aos cinemas brasileiros na quinta, 21
Com seu filme de estreia, Rabia: As Esposas do Estado Islâmico, a diretora Mareike Engelhardt mergulha em território complexo e doloroso: os mecanismos de radicalização que levam jovens europeias a se juntarem ao Daesh.
Baseado em depoimentos reais, o longa acompanha Jessica, uma francesa de 19 anos que viaja para a Síria e se vê transformada em Rabia, uma das "noivas" do Estado Islâmico confinadas em uma madafa — casa onde mulheres aguardam para se casar com combatentes. Lá ela passa a ser chamada de Rabia e o que começa como uma brincadeira vira um pesadelo.
A abordagem de Engelhardt é deliberadamente não voyeurística: a violência aparece através de sons, silêncios e marcas físicas, nunca de forma explícita. Em entrevista ao Estadão, a diretora revela as motivações pessoais por trás do projeto, os desafios emocionais da produção e sua preocupação com os paralelos entre o mundo retratado no filme e a ascensão de movimentos extremistas contemporâneos.
Você sempre soube que queria dirigir esse filme?
Não. Acho que o que acontece com os primeiros filmes é que não é você que escolhe a ideia, é a ideia que escolhe você. É algo que você precisa fazer, mesmo sem entender completamente o porquê. Demorei muitos anos para perceber o que me levou a realizar Rabia. No fundo, a pergunta por trás de tudo vem de uma história pessoal da minha família. Meus avôs tinham a mesma idade que Rabia quando se alistaram para lutar na Segunda Guerra Mundial. Sempre me questionei sobre isso, mas nunca pude confrontá-los: quando eu era criança, já estavam velhos, e quando virei adulta, já tinham morrido. Nunca consegui perguntar: por que vocês fizeram isso? O que realmente aconteceu?
Então o filme é uma forma de investigar essas questões?
Exatamente. É uma tentativa de entender por que jovens são atraídos por ideologias mortais — no caso de Rabia, uma ideologia fascista que usa a religião apenas como pretexto. Para mim, funciona como uma seita: uma forma de manipular e atrair pessoas perdidas.
Seu filme trata de violência, mas você não a mostra de forma explícita. Por quê?
Porque não me interesso pela violência física em si. Acho entediante ver filmes que apenas mostram sangue ou mortes — isso já está banalizado demais. O que me interessa é o que está por trás: por que as pessoas se tornam violentas? Como a violência se transmite de geração em geração? Filmes de Michael Haneke me influenciaram muito, porque ele fala de violência sem mostrá-la diretamente. Em Rabia, por exemplo, a guerra está sempre presente, mas através do som. No início, quase não se ouve nada. Mas, à medida que Rabia percebe que está em um país em guerra, o som se intensifica, até dominar tudo.
Como foi trabalhar o contexto da guerra para além desses elementos sonoros?
Também busquei mostrar apenas os traços que a violência deixa: marcas no corpo, queimaduras, expressões faciais. Era importante não ser voyeurística, mas ao mesmo tempo não mentir, já que o universo retratado é profundamente violento.
Você vê paralelos entre o que mostra no filme e outras situações dp mundo atual?
Sim, totalmente. Não é apenas sobre jovens mulheres vulneráveis — qualquer pessoa pode cair na armadilha de um sistema totalitário. Vivemos um momento perigoso, com direitos democráticos ameaçados. Movimentos de extrema direita estão tentando reverter conquistas fundamentais: direitos das mulheres, direitos LGBTQIA+, avanços multiculturais. É assustador como a propaganda consegue seduzir. Você pensa que vai fazer uma viagem divertida com as amigas e, meses depois, se vê torturando alguém em nome de uma ideologia que mal entende. Isso me preocupa imensamente.
A ideologia, então, é o grande perigo?
Sim, e é assustador em todo lugar. Vemos direitos sendo atacados — nos EUA, por exemplo, já houve até senador questionando o direito de voto das mulheres. O conhecimento é sempre o primeiro alvo: Hitler queimou livros, não foi por acaso. Quando governos limitam universidades, expulsam pesquisadores ou restringem a liberdade de expressão, voltamos a flertar com regimes totalitários. Isso é terrível. Precisamos falar sobre isso, votar com consciência, ocupar as ruas e resistir de todas as formas possíveis. No meu caso, faço isso através do cinema.
Como você lidou emocionalmente com o ato de dirigir um filme tão pesado?
Sinceramente? Mal. Perdi 10 quilos e precisei de um ano de terapia depois. Foi muito difícil, porque não sou uma pessoa sádica. Quando via minhas atrizes interpretando o sofrimento de forma tão real, eu sofria junto. Queria abraçá-las, pedir desculpas. O processo foi duro também para elas e para toda a equipe, porque estávamos confinados em um espaço fechado, no inverno, com aquele tema opressor. Mas sou muito grata ao elenco e à equipe por terem confiado e me acompanhado nessa jornada.
E como foi escolher Megan Northam para o papel principal?
Eu queria uma atriz que ainda não fosse muito conhecida, para não quebrar a credibilidade do filme. Quando ofereci o papel, Megan nunca havia estrelado um longa. O que me atraiu nela foi o rosto: não é um rosto "perfeito de modelo", mas expressivo. Ela tem certa dureza, olheiras, uma autoridade natural. Isso era essencial para acreditar que Rabia poderia se tornar líder naquele grupo. Ao mesmo tempo, Megan transita entre a ingenuidade e a força, mostrando uma ampla gama de emoções.
Como você montou o elenco?
Foi como montar um quebra-cabeça: coloquei Megan como Rabia, escolhi Natacha Krief [que vive Laila] como contraponto — doce, amorosa, a voz da consciência — e, claro, Lubna Azabal como a diretora, figura dura e intimidadora. Lubna se entregou totalmente ao papel, tornando-o extremamente crível.
O filme será lançado no Brasil. Quais são suas expectativas para a estreia neste mercado?
Não tenho grandes expectativas. Fico feliz sempre que o filme encontra público em qualquer lugar. O que me entristece é não poder ouvir diretamente a reação das pessoas no Brasil. Adoraria receber retornos — positivos ou negativos — porque aprendo muito com isso. O mais interessante é ver como diferentes culturas interpretam o filme: se compartilham a mesma visão ou se acham tudo muito distante. Essa troca me fascina.