O que fez 'Ainda Estou Aqui' vencer o Oscar?
Tema universal, momento favorável na Academia e o próprio público brasileiro ajudaram o filme a conquistar o primeiro Oscar do Brasil, apontam especialistas
Ainda Estou Aqui fez história no cinema na noite deste domingo, 2, e se tornou o primeiro filme brasileiro a ganhar o Oscar. O caminho até lá nunca é fácil, principalmente para filmes latinos. Mas, afinal, o que fez o filme conquistar o mundo?
Nesta segunda, 3, o crítico Luiz Zanin Oricchio e Beatriz Amendola, editora assistente de Cultura do Estadão, analisaram o percurso do filme de Walter Salles até a premiação. Para ambos, além da qualidade do filme, o público brasileiro teve grande mérito em fazer com que a Academia assistisse à produção.
O momento também é favorável, com uma abertura maior do prêmio a longas que não são falados em inglês. Veja, abaixo, os fatores que levaram Ainda Estou Aqui a conquistar o Oscar de Melhor Filme Internacional.
Momento favorável
Luiz Zanin disse que Ainda Estou Aqui se beneficiou de uma "mudança progressiva" na Academia. Como exemplo, ele citou o fenômeno Parasita, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2020.
"Há uma tendência de se abrirem as portas para essas novas vozes que estão sendo ouvidas", afirmou ela. "No final, a Academia só ganha, porque encontra novas histórias, histórias muito potentes, como é o caso de Ainda Estou Aqui."
Hoje, cerca de 10 mil pessoas votam no Oscar. Entre eles, 200 latinos - e entre os latinos, 50 brasileiros.
Público foi ao cinema
Em conversa com jornalistas após ganhar o Oscar, em Los Angeles, Walter Salles disse que "público virou coautor do filme".
O fato de o público brasileiro ter colaborado com a repercussão e ter ido aos cinemas assistir a Ainda Estou Aqui (mais de 5 milhões até agora) fez com que o longa chegasse com força ao Oscar.
"Isso foi notado por veículos de comunicação internacionais", comentou Beatriz. "As pessoas começaram a notar mais o filme e a entender a relação dele com o público brasileiro nesse momento tão polarizado. O filme foi percebido como algo que conseguiu se sobrepor a tudo isso."
Para Zanin, "se nós [brasileiros], não tivéssemos ido ao cinema, ele não teria chegado a essa premiação com essa força". "Cinco milhões de pessoas indo ao cinema em uma época em que está difícil trazer o público de volta para as salas é uma verdadeira proeza."
Temas universais
Segundo o crítico, o grande mérito do filme foi tratar de um momento tão denso como a ditadura militar com certa "leveza". Era o drama de uma família - e esse é também um tema universal.
Beatriz Amendola ainda afirmou que foi justamente por esse motivo que o filme se conectou ao público internacional. "São países que não necessariamente tiveram a vivência que o Brasil teve na ditadura, mas que entendem a dor daquela mulher, a dor daquela família, o luto, a perda... São temas universais", disse.
Qualidade
Luiz Zanin comentou que, na sua opinião, dos dez indicados ao prêmio de Melhor Filme, Ainda Estou Aqui se destacava entre os quatro melhores longas da seleção. "Ele estaria extremamente categorizado para vencer nessa situação, se fosse levada em conta apenas a qualidade da obra", afirmou.
O crítico ainda comentou que o longa recebeu poucas indicações ao Oscar, principalmente se comparado ao mais indicado da premiação, Emilia Pérez, mas poderia ter vencido todas elas. Beatriz explicou que as campanhas e o próprio gosto de Hollywood influenciam no prêmio. Ou seja, não se trata de um prêmio que premia apenas a qualidade.
Assista à análise completa abaixo: