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O melhor, o pior, a surpresa e a injustiça do Festival de Berlim

Enquanto brasileiro 'O Último Azul' se saiu bem, prêmios de atuação principal e coadjuvante dividiram opiniões e filme que talvez seja o pior do evento conquistou um troféu

22 fev 2025 - 19h12
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Havia a expectativa de que o Brasil recebesse seu terceiro Urso de Ouro de melhor filme na cerimônia de premiação do Festival de Berlim, realizada na noite de sábado, 22. Afinal, O Último Azul, de Gabriel Mascaro, recebeu a mais alta cotação - 3.4, num total de quatro estrelas - no quadro da Screen International, que reuniu críticos de todo o mundo.

Com as atenções voltadas para o Oscar - no qual o Brasil concorre pela primeira vez em três categorias: melhor filme, melhor filme internacional e melhor atriz, Fernanda Torres, por Ainda Estou Aqui, de Walter Salles -, o Brasil voltou em alto estilo à Berlinale, na qual o País tem uma longa tradição de premiações, que remonta aos tempos do Cinema Novo e alcança os Ursos de Ouro recebidos por Central do Brasil, de Walter Salles, e Tropa de Elite, de José Padilha, mais os Ursos de Prata de melhor atriz para Marcélia Cartaxo/A Hora da Estrela, Ana Beatriz Nogueira/Vera e Fernanda Montenegro/Central do Brasil. O Brasil trouxe 12 títulos à Berlinale de 2025, marcando uma nova etapa da produção brasileira após os difíceis anos do governo de Jair Bolsonaro.

Houve uma corrida aos cinemas, com lotações esgotadas em todas as sessões de Hora do Recreio, de Lúcia Murat, na Mostra Generation, A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo, também na Generation, Ato Noturno da dupla Marcio Reolon/Feliper Matzembacher, no Panorama, a versão restaurada de Iracema, Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky, no Forum Especial, e a série De Menor, de Caru Alves de Souza, na Mostra Generation 14Plus.

Todos esses filmes tiveram o que se chama de Q&A após as sessões, encontros para debater os filmes com seus autores no calor da hora. Questões associadas à juventude e à Amazônia despertaram grande interesse. Foi interessantíssimo ver uma plateia de crianças debater os temas da perda e do luto com a diretora estreante Rafaela Carmelo. Mas o grande filme do Brasil na Berlinale de 2025 foi mesmo o premiado O Último Azul.

O Último Azul

O filme de Gabriel Mascaro passa-se num Brasil distópico, no qual os idosos são aposentados compulsoriamente e segredos em colônias distantes, das quais não retornam. A personagem de Denise Weinberg desafia as autoridades e inicia uma viagem de libertação, de barco, pela Amazônia. Mascaro é diretor de filmes como Vento de Agosto, Boi Neon Tem refletido sobre o Brasil. Aqui mesmo em Berlim mostrou seu longa anterior, sobre a evangelização do País pelas igrejas pentecostais.

O prêmio para O Último Azul foi entregue pela atriz chinesa Fan Bingbing, deslumbrante em seu longo branco cuja causa atravessava meio palco do Palast. Ela destacou o respeito pelos mais velhos, destacando o filme de Mascaro como uma aula de humanidade. O diretor não cabia em si de contente.

A par do tema - o Brasil quer se tornar, cada vez mais, um País de idosos - destacou a diversidade de um grande festival como Berlim e do próprio cinema brasileiro. Desde a coletiva após a exibição do filme, Mascaro tem comentado o retorno dos investimentos que fortalecem o cinema brasileiro. Afirmação da identidade, fortalecimento da atividade econômica, o Brasil de todos reflete-se na tela e ganha reconhecimento internacional. O prêmio do júri foi para outro filme latino-americano, o argentino El Mensaje, de Iván Fund, que vai na contramão de O Último Azul, vendo o mundo pelos olhos de uma garota que tem o dom de se comunicar com os animais e, através deles, de penetrar na intimidade de seus tutores. Em seu discurso de agradecimento, Fund pediu que os olhos do mundo se voltem para seu país, cujo cinema está 'sob ataque' no governo de Javier Milei.

O Urso de Ouro consagrou um filme que também fala dos sonhos de uma garota que fantasia uma relação amorosa com a professora de francês. Tudo começa pela leitura de um livro, e o diretor espera que seu filme contribua para que mais jovens, em todo mundo, não apenas readquiram o hábito da leitura como encontrem um espaço mais franco - e livre - para discutir suas questões identitárias, de gênero.

Surpresas e controvérsias

O júri atribuiu dois prêmios de interpretação e aqui houve surpresa. Onze entre dez críticos - a unanimidade - concordavam que Ethan Hawke é excepcional em Blue Moon, a cinebiografia do compositor Lorenz Hart por Richard Linklater. O consenso era de que Hawke só não levaria o prêmio porque Berlim agora outorga apenas um Urso de interpretação e, na seleção predominantemente feminina/feminista da curadora Tricia Tutle, o prêmio teria de ser entregue a uma atriz. O júri inovou. Deu um prêmio de protagonista para Rose Byrne, por I Had Legs I'll Kick You, de Maery Bronstein, uma espécie de Depois de Horas, de Martin Scorsese, pelo viés da mulher, e não tão bom.

Surpresa mesmo foi o prêmio de coadjuvante para Andrew Scott, que é bom, mas é totalmente ofuscado pela criação majestosa de Hawke. O júri ainda outorgou um prêmio à melhor contribuição artística, e foi para o francês A Torre de Gelo, de Lucile Hadzihalilovic, que adota o formato do filme dentro do filme para revisitar os contos de fadas, com Marion Cotillard como Rainha da Neve. Talvez tenha sido o pior filme da competição. Para compensar, o prêmio de direção para o chinês Huo Meng, de Living the Land, e o de roteiro, para o Radu Jude de 'Kontinental 25 foram impecáveis.

Estadão
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