Filme 'Urubus' traz fascínio com o grafite e questiona os limites da arte; leia crítica
Longa-metragem fala sobre um grupo de pichadores inspirado na invasão da Bienal de São Paulo em 2008
Foi em outubro de 2008 que um grupo de 40 pichadores invadiu a 28ª Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, e pichou parte de seu segundo andar, propositalmente vazio naquela edição. Dentre outras coisas, picharam as paredes com a frase "isso que é arte" e, assim, conseguiram levantar um debate sobre a cultura do pixo - recebendo, inclusive, um convite para participarem oficialmente da edição de 2010 da Bienal. Agora, 15 anos depois, esse acontecimento é o clímax do novo filme Urubus, que estreou nesta quinta-feira, 1° de junho.
Dirigido por Claudio Borrelli, o longa-metragem acompanha a história de Trinchas (Gustavo Garcez), jovem líder de um grupo de pichadores, que escala os edifícios mais altos da cidade para deixar sua marca. Quando conhece a estudante de arte Valéria (Bella Camero, de Marighella), seus diferentes modos de vida entram em choque e disso resulta a invasão da 28ª Bienal de São Paulo. É, assim, uma mistura de real e criação, ousadia e invenção.
A ideia, conta Borrelli, nasceu não exatamente da invasão, mas a partir dos vídeos de um pichador e arista. "Eu ficava impressionado com as escaladas e os pichos no alto dos prédios. Era uma coisa muito presente na cidade e eu, diretor de filme publicitário, via a pichação, a princípio, como uma adversária. Às vezes, a locação era ótima, mas estava pichada", diz o diretor em entrevista ao Estadão. "[Algum tempo depois], encontrei e conheci o Cripta Djan. Conversamos, eu vi os DVDs que ele fazia para documentar as ações, fui me envolvendo, e pedi para ele colocar no papel as histórias que me contava".
A partir disso, Borrelli viveu uma verdadeira imersão no mundo do pixo. Não só passou a enxergar esses traços, rabiscos e artes em prédios de maneira diferente, como também passou a compreender melhor o que é esse mundo. "Eu e o Djan nos tornamos amigos, convivemos e conversamos por uma década inteira. Isso por si só já é uma imersão", diz ele, que teve longas conversas com o artista ao longo dos últimos anos sobre suas artes e pretensões. "Foi uma imersão lenta e gradual, mas constante. Além de conhecer esse universo fascinante, que é a pichação, ainda ganhei um amigo que prezo muito".
Como estética, Borrelli colocou seu filme no meio do caminho entre a ficção e o documentário. Muitas cenas são filmadas sem medo de esconder a percepção de que é uma câmera nos contando a história, inserindo o público na rotina daquele grupo. É como se o público fosse uma mosca, com acesso ao que acontece na noite do pixo de São Paulo. Muito disso veio, também, da escolha do elenco. Parte é de atores profissionais, como Bella Camero, enquanto uma outra parte considerável do elenco é formada por pichadores.
"O fato de quase 90% do elenco ser formado por pessoas do universo da pichação, ou pessoas que já viveram relatos ou situações que mostramos no filme, contribui para que muitas cenas tenham esse tom documental", relata Bella Camero ao Estadão. Eu digo até que a Valéria é como se fosse uma câmera escondida, acompanhando as pessoas".
Isso é arte?
De 2008 pra cá, desde a invasão da Bienal, o universo das artes visuais mudou e passou a encarar a pichação, muitas vezes, como uma forma de expressão artística urbana. No entanto, ainda há debates sobre esse posicionamento do pixo e como ele se encaixa nesse universo - e Urubus, consciente de todos os debates que aconteceram de lá pra cá, tenta ser um agente que provoca e instiga o público a refletir sobre o que são aqueles traços.
"Urubus não quer só contar uma história. É uma produção que quer mostrar o dia a dia dessas pessoas - um pouco da linguagem, da diversão, das preocupações. De como seria conhecer e viver de perto no mundo da pichação", explica Bella. Com isso, é claro, surgem mais diferenças. "Hoje a pichação está inserida no mundo das artes, coisa que era impensável antes de 2008. Outra grande mudança é a inclusão das mulheres na cena do pixo. Quando começamos o roteiro, e na época retratada no filme, eram poucas as mulheres. Hoje elas ocupam um lugar relevante entre os pichadores", explica Borrelli.
E para o cineasta: isso é arte? Pichação tem um espaço nesse universo? "Acredito que eu não tenha autoridade para julgar o que é arte e o que não é. Mas, sem dúvida, o pixo é uma expressão absolutamente original e genuína", diz. "Toda expressão que provoca uma reação ou algum tipo de emoção, seja admiração ou ódio, toca a alma humana, logo…arte".