Emilie Lesclaux, produtora de 'O Agente Secreto', fala sobre sucesso, Oscar e o futuro
Única produtora brasileira indicada ao Oscar de Melhor Filme neste ano, ela reflete sobre os quase 20 anos de parceria com Kleber Mendonça Filho, a maratona de festivais internacionais e o que vem depois do Oscar
No dia do anúncio dos indicados ao Oscar 2026, o Brasil vibrou com a conquista histórica de quatro indicações para O Agente Secreto, filme estrelado por Wagner Moura e escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho. Mas um detalhe chamou atenção na categoria de Melhor Filme: Emilie Lesclaux, 46, aparecia como a única produtora creditada pela Academia - um reconhecimento inédito para a profissional que chegou ao Recife em 2002 e construiu, ao lado de Kleber, uma das trajetórias mais sólidas do cinema brasileiro contemporâneo.
Francesa de Bordeaux, Emilie estudou no Instituto de Ciências Políticas da sua cidade natal, mas veio ao Brasil para trabalhar no Consulado Geral da França na capital pernambucana. Lá, cuidava de projetos ligados à cooperação cultural e ao audiovisual, o que a levou a conhecer o cineasta, então um crítico e programador de cinema.
Nasceu do encontro uma parceria profissional e afetiva, que resultou na fundação da produtora CinemaScópio, em 2008, e em longas como O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau. Emilie aprendeu na prática o trabalho de produtora, a pessoa que faz os filmes acontecerem do início ao fim: capta recursos, coordena logística, participa das escolhas criativas e faz os longas chegarem às salas de cinema - e, claro, a festivais internacionais.
Os três filmes foram a festivais importantes - Roterdã, no caso de O Som, e Cannes, no dos outros. Seguiram caminho semelhantes Retratos Fantasmas, também lançado no evento francês, e Sem Coração, de Nara Normande e Tião, cuja estreia se deu em Veneza.
Mas O Agente Secreto representa outro patamar: a estreia em Cannes, em maio de 2025, trouxe os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator, e desde então a rotina de Emilie virou uma sequência ininterrupta de viagens. Los Angeles, Nova York, Toronto, Londres, Paris - sessões estratégicas com votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas enquanto equilibra a maternidade e outros projetos. Emilie e Kleber são pais de gêmeos de 12 anos.
Durante a videochamada de sua casa no Recife, Emilie exibe um dos dois Globos de Ouro pela vitória em Melhor Filme em Língua Não Inglesa. "Um para mim, um para o Kleber", ela mostra. Somando o prêmio de Melhor Ator de Wagner Moura, são três estatuetas. A campanha nos Estados Unidos ficou por conta da Neon, mesma distribuidora de Anora, vencedor de cinco Oscars no ano passado.
Na ocasião da entrevista, que aconteceu ao final de janeiro, pouco após os concorrentes ao Oscar serem revelados, a produtora ainda processava as emoções e celebrava a "conquista muito importante" das quatro indicações para O Agente Secreto: "Quem diria que estaríamos na categoria de casting, uma categoria nova, competindo com produtores de elenco poderosíssimos de Hollywood?".
Na conversa a seguir, Emilie detalha como sua influência criativa funciona, analisa o futuro das políticas públicas para o audiovisual brasileiro e fala sobre o descanso (ou não) após a cerimônia do próximo domingo, 15 - ela ainda vai lançar a série Delegado, dirigida por Leonardo Lacca e estrelada por Johnny Massaro.
Você já disse em entrevistas que se envolve bastante na parte criativa dos filmes - elenco, roteiro, locações. Como você equilibra essa influência criativa sem invadir o território dos diretores?
Acredito que isso acontece em todos os filmes, mas no meu caso, especialmente nos projetos que faço com o Kleber, vai um passo além porque também somos parceiros na vida. Dividimos muito sobre o aspecto criativo desde o início. Ele me mostra as cenas enquanto escreve, sempre respeitando o tempo dele de querer compartilhar algo comigo. Temos muita troca no dia a dia desde o desenvolvimento do roteiro. Depois, quando começa a preparação mais perto da filmagem, gosto muito de participar da escolha das locações e do elenco. Faço questão de estar presente nas reuniões e dar minha opinião, mas a decisão final sempre é dele. Não se trata de invadir ou impor, mas de conversar. Ele respeita muito minha opinião e a dos colaboradores.
Você sempre enfatizou que 'O Agente Secreto' só existe por conta de políticas públicas de fomento ao audiovisual. Olhando para o momento político atual, o que você vê pela frente? O que está em jogo para o cinema brasileiro?
Passamos por um momento muito difícil nos últimos anos. Este filme, especificamente, tentamos desenvolver quando não havia mais políticas públicas de audiovisual. Conseguimos retomar o financiamento a partir da volta de um governo que fazia sentido para o Brasil e que imediatamente religou as políticas culturais. Os incentivos voltaram. Acho que retornamos a uma situação invejada por outros países: poder contar com financiamento público. Claro que ainda há muitos desafios. Estamos em período de reconstrução do que foi perdido. Temos pela frente o desafio da lei do streaming, que é uma demanda enorme da classe por mais produção, e outras áreas que também precisam de atenção, como a distribuição - um grande desafio saber onde os filmes vão parar após realizados. Temos também um Congresso que não facilita essas reformas. Mas, ao mesmo tempo, vivemos um momento ótimo de exposição internacional do cinema brasileiro, com conquistas em festivais e premiações importantes.
Com gêmeos de 12 anos em casa e uma agenda que te leva dos festivais de Los Angeles a Paris, passando por Toronto e Londres, como você negocia essas ausências?
Minha mãe sempre nos ajuda. Nossa vida exige bastante deslocamento, mas este ano foi completamente fora do normal - uma loucura. Desde janeiro (de 2024) já começamos com viagens para finalizar o filme na França, Holanda e Alemanha, por conta das coproduções. Depois vieram Cannes e outros festivais, e a partir do final de agosto começou a campanha para a temporada de premiações. Nunca viajei tanto na vida. O Kleber fez viagens longas, de 40 a 45 dias, voltava poucos dias e partia novamente. Eu também viajei bastante, mas tentei escolher os momentos mais importantes da campanha e dos festivais, ficando nessas idas e voltas para estar presente em casa. Precisamos muito do apoio da família e dos amigos. Tenho muita gente a agradecer. Na última fase [em janeiro] levamos as crianças porque eram férias. Foi outro desafio, porque eram viagens muito curtas - 2 ou 3 dias em Los Angeles, 2 ou 3 dias em Nova York, Londres. Mas foi bom eles participarem desse momento. Tentamos equilibrar com atividades para eles também. Em outubro e novembro, que foram os meses mais intensos, minha mãe ficou dois meses aqui para dar estabilidade à rotina deles.
'O Agente Secreto' te colocou sob os holofotes de uma forma inédita. Como você está lidando com essa visibilidade repentina? É desconfortável?
Pela minha personalidade, não gosto tanto de aparecer. Não é meu lugar de conforto. Mas ao longo dos anos, com projetos cada vez maiores e de mais destaque, é natural que eu precise estar nessas situações de festivais, premiações e imprensa. É até bom para mim tentar lidar melhor com isso e me expor mais. Estou melhorando [risos]. Mas, no fim, o que quero mesmo é continuar fazendo nossos filmes da melhor forma possível.
Nas ruas do Recife, jovens têm demonstrado orgulho com a projeção internacional do filme. Esse sentimento de pertencimento te surpreendeu?
Acho muito bonito. Estamos acostumados a ver lugares que fazem parte do imaginário do cinema, principalmente nos Estados Unidos ou na Europa. Quando um filme brasileiro se destaca tanto e é visto por muita gente no exterior, as pessoas sentem muito orgulho de ver aquilo na tela e saber que está repercutindo dessa forma. É incrível quando viajamos e conversamos com pessoas de outras áreas ou cinéfilos e descobrimos que eles conhecem Recife através do cinema. Há muitos filmes feitos aqui. Com a CinemaScópio, vivemos essa experiência com várias cidades, e Recife cada vez mais é identificada como um lugar de cinema. Isso dá muito orgulho às pessoas daqui. Sentimos isso desde o momento do frevo no tapete vermelho em Cannes - as pessoas enlouqueceram.
Com quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, é impossível não ter expectativas. Qual seria o cenário ideal para você?
Realmente não sei. Estou vivendo um dia de cada vez, ainda processando as emoções e o significado disso tudo. Essas quatro indicações já foram uma conquista tão importante que não consigo me projetar no que podemos ganhar. Não é assim que estou vivendo este momento. Tudo pode acontecer. Já aconteceram tantas coisas fora da realidade... Temos uma nova campanha começando agora e sabemos que as coisas mudam muito rápido. Quem diria que estaríamos na categoria de casting, uma categoria nova, competindo com produtores de elenco poderosíssimos de Hollywood? O Agente Secreto está entre os cinco indicados. Está tudo muito aberto. Não consigo imaginar, prefiro me surpreender com o que acontecer. Da nossa parte, vamos continuar trabalhando, mostrando o filme, trabalhando essas categorias. E vamos ver.
Por que você é a única produtora creditada na categoria de melhor filme?
Sou a produtora principal desde o início do projeto, liderei todas as fases. Depois se somaram coprodutores. No processo de inscrições da Neon, é preciso comprovar sua associação ao filme como produtor, e o crédito de coprodutor impediu algumas pessoas de serem incluídas em certas premiações.
Como tem sido trabalhar com a Neon? Ano passado eles garantiram cinco Oscars para 'Anora' e este ano adquiriram 'O Agente Secreto' e outros filmes de Cannes. É muito diferente do jeito brasileiro de fazer campanha?
Não tenho parâmetro de comparação porque esse trabalho de campanha para premiações é algo tão americano... Já fizemos isso em menor escala com os dois outros filmes nossos que foram escolhidos pelo Brasil, mas não neste nível, não com uma distribuidora que tem essa experiência incrível e os recursos necessários - que no fim são um fator importante. Foi tudo bem novo. Não sabíamos como seria com tantos filmes, porque eles compraram vários em Cannes. Mas o trabalho tem sido incrível. Trabalhamos mais intensamente desde agosto. Temos comunicação diária, muitas reuniões, eles respeitam muito nossas opiniões e eu respeito muito os insights deles. Muita coisa que previram realmente aconteceu. O Ryan Werner, que trabalha com eles, já conhecíamos da [distribuidora] Cinética, empresa com quem trabalhamos em Bacurau, Aquarius e O Som ao Redor. Já tínhamos essa experiência com ele. Tem sido muito interessante. Aprendemos muito. Eles fazem muito bem esse trabalho de gerenciar vários filmes com o mesmo respeito por cada um.
Como produtora indicada ao Oscar de melhor filme, você compete com Chloe Zhao, Paul Thomas Anderson, Ryan Coogler, entre outros. Como se sente nessa disputa?
Ainda estamos tentando entender o que isso significa. Ao mesmo tempo, chegamos aqui por causa de muito trabalho, de uma construção de quase 20 anos — desde os primeiros curtas até hoje. E num momento em que essas premiações, que antes pareciam inacessíveis, têm se aberto cada vez mais para filmes internacionais, com uma academia mais diversa, com membros de vários países. Isso abre caminhos interessantes para um cinema mais diverso.
Falando nesses 20 anos... 'O Som ao Redor' foi sua primeira produção solo. Qual o próximo grande salto que quer dar na carreira?
Não penso em termos de saltos. Já estou pensando nos próximos projetos. Cada um, seja um primeiro filme ou um projeto grande como O Agente Secreto, o envolvimento e o desejo são os mesmos. Cada filme é um sonho se concretizando.
O projeto é continuar fazendo o que amamos e que cada vez mais gente possa ver esses filmes. Estamos ansiosos para, quando essa aventura maravilhosa terminar, nos concentrarmos nos próximos projetos. São muitos anos dedicados a um filme, e nunca passamos tanto tempo na função de divulgar, de fazer campanha. Chega o momento de voltar à vida real.
O Oscar é dia 15 de março. A partir do dia 16 vocês entram de férias?
[risos] Não sei se exatamente no dia 16, e não sei se férias, porque ainda tem coisas para produzir. Não há filmagem imediata logo depois. O WhatsApp é realmente um problema - mesmo nas férias você não desliga completamente. Mas temos um projeto engatilhado para depois, então férias imediatas talvez não. Alguns meses depois teremos um momento de descanso. Nada muito claro ainda. Tenho algumas ideias. O Kleber está pensando em ideias para um próximo filme e quer voltar a uma rotina que permita a tranquilidade de escrever.